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Até quando as mulheres precisarão viver aceitando tudo?

Em rede nacional, uma jovem de 15 anos é submetida à seguinte situação: seu patrão, um homem de 86 anos, a agencia com um rapaz de 19 anos – também seu funcionário -, pressionando-a a dançar e quem sabe dar um beijo no menino no ar, mesmo sob protestos da garota.  

O caso aconteceu no mês passado, durante o programa de auditório de Silvio Santos, envolvendo a atriz Maisa Silva e o apresentador de telejornal Dudu Camargo, ambos do casting do SBT. Silvio começou com a pergunta desnecessária para Dudu Camargo, de 19 anos, sobre com quem ele ficaria: Maisa, de 15 anos, ou outra atriz teen, Larissa Manoela, de 16. Dudu mandou um “deixa eu analisar de perto” e ao ver ele se aproximando, Maisa falou um enfático “dá licença” e se recusou a dançar com ele. 

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No desenrolar da atração, o dono do SBT questionou Maisa sobre quando ela iria achar um namorado e colocou Dudu como um dos pretendentes da famosa. Maisa disse, então, que o apresentador não fazia o estilo dela e que por isso ele nunca teria a menor chance. Mais tarde, após sonoros “não” de Maisa acerca das investidas do apresentador, Dudu Camargo ainda selecionou uma moça da plateia para dançar e dar um beijo. 
 
Não deveria ser exceção

Apesar de a cena expor claramente um assédio sofrido pela atriz, a maior repercussão do programa foi justamente condenando o posicionamento de Maisa. A moça foi taxada de “mimada”, “mal-educada” e “grossa” pela forma como se portou frente à situação que a deixou desconfortável. Por meio de uma rede social, a atriz enfatizou que “nem todo mundo é obrigado a aceitar 100% das coisas que ouve e eu não me desculpo pela sinceridade”. 
A resposta da atriz fez com que outra parte da internet se surpreendesse, afirmando que Maisa é uma menina madura para sua idade. “O fato de ela dizer não a um assédio e as pessoas pensarem que isso a torna mais madura é lamentável, porque esse deveria ser o comum, a regra e não a exceção”, expõe a professora doutora em História e coordenadora do Laboratório de Pesquisa e Estudos de Gênero (Lapeg) da Universidade Estadual do Oeste do Paraná (Unioeste), Ivonete Pereira.

“O que ocorreu foi um assédio. Foi o Silvio tentando agenciar a Maisa para dançar e beijar o rapaz e ela dizendo não, sendo que ele é o patrão dela e tem um poder sobre ela. Isso é claramente um assédio sexual”, afirma. 

Na visão da especialista, o posicionamento de Maisa deveria ser a regra: as meninas não se sentirem confortáveis com qualquer assédio que sofrerem, seja na escola, na universidade ou no trabalho, e dizerem “não, eu não aceito”. “Ela não é madura, ela foi uma menina que disse não, que não se sentiu bem e isso não é um parâmetro para dizer que ela é uma menina madura no todo”, acrescenta. 
 
 

Por que outras dizem sim?

Ivonete aponta que nós vivemos em uma cultura machista, o que é exposto tanto no programa apresentado por Silvio Santos quanto em tantos outros de auditório, exibidos em outras emissoras, que possuem dançarinas, plateia, um grupo feminino participando da atividade onde as piadas sempre são levadas para o lado erotizado e sempre machistas.  

A especialista aponta que viver em uma cultura machista, no entanto, não significa que devemos perdoá-lo. “Muito pelo contrário. Se é uma cultura, nós é que criamos a partir das nossas práticas, vivências e ele não é de hoje. E se ele é parte da nossa cultura, teremos que desconstruir porque alguém está sendo prejudicado pela cultura machista”, considera. 

Apesar de já terem se tornado clichês nas redes sociais, frases como “o feminismo não mata, mas o machismo mata”, descrevem a realidade vivida por muitas mulheres. Ivonete ressalta que a violência contra as mulheres mostra que os homens se apossam, se acham donos das mulheres, e por isso se acham no direito de fazer essas piadas ou, quando é um casal, de falar “você é minha e faz o que eu quero, porque se não fizer você apanha”. “E o que leva esses homens a fazerem essas piadas, brincadeiras com essas mulheres ou terem essas atitudes de posse é a nossa cultura machista, mas isso não perdoa porque se é uma cultura ela foi construída e pode ser desconstruída”, declara. 

Desconstruir o machismo, contudo, não é uma tarefa fácil. A doutora enfatiza que a cultura do patriarcado está muito arraigada na nossa mentalidade, em que os homens se acham os donos da sociedade, do poder e consideram as mulheres objetos. “Não é fácil desconstruir essa cultura, mas é possível”, evidencia. 

Porém, por que a Maisa disse não, assim como outras meninas de 15 anos dizem não, enquanto que as mães delas e outras mulheres de mais idade dizem sim? 

A resposta é simples, e Ivonete está com ela na ponta da língua: é o feminismo. “Falamos mais dele hoje. Há 15, 20 anos atrás, falar de feminismo ficava restrito à academia e mesmo dentro da academia estava dentro de um grupo muito seleto”, destaca. 
Antes, quando se falava em feminismo, achavam que era apenas “queimar sutiã na praça”, todavia, feminismo é falar que a mulher tem o direito de estar no mesmo lugar que este homem branco está sem ser assediada, sem virar piada por parte dele e de dizer não ao que ele está dizendo, de não ser interrompida quando está falando. “O feminismo está colocando os nossos direitos. Somos mulheres e somos iguais aos homens – somos diferentes em uma série de coisas, principalmente física e biologicamente -, mas temos a mesma qualidade que qualquer sujeito masculino e devo ter o mesmo direito”, enfatiza a doutora em História. 

Segundo ela, é o feminismo que está despertando nessas meninas o direito delas e que elas não devem mais aceitar o machismo enquanto que as mães delas, que não tiveram acesso às redes sociais e que hoje é uma ferramenta de debate do feminismo, não tiveram. “Mesmo em sala de aula essas jovens estão tendo acesso a este tema. Há pouco tempo não se falava em gênero, feminismo, sobre a questão das mulheres, elas nem apareciam na história”, lembra. “Por conta disso que vemos a diferença de uma moça de 30, 35 anos, lá no programa de TV, ouvir uma piada altamente machista e dar uma risadinha e uma Maisa de 15 anos dizer eu não quero – é a diferença do acesso à informação qualificada dos seus direitos. E quem está passando isso é o feminismo”, explicita Ivonete.  

 

Visibilidade

Carla Nacke Conradi também é doutora em História e coordenadora do Lapeg da Unioeste. Segundo ela, já existe no Brasil um grupo grande de mulheres que não aceitam mais viver situações de machismo, entretanto, por muito tempo este grupo estava silenciado, até marginalizado por uma parte da sociedade. “Muitas vezes nós não tínhamos acesso a esses grupos porque ou estavam em grandes centros ou regiões de grandes centros, então talvez a internet possibilitou que eles se tornassem visíveis à rede, mas a visibilidade aonde eles viviam já existia”, descreve. 

Ela explica que há grupos de mulheres enquanto movimento social vinculados ao feminismo que já faziam diferença onde estavam. Eram mulheres que lutavam pela luta pela diferença, pelo direito a estudar, a trabalhar, deixar seus filhos na creche, igualdade de salário. “Esses grupos também eram vinculados ao não-feminismo, porque a porta de entrada ao movimento social não precisa ser o feminismo necessariamente. Na luta pelo direito não precisa existir um rótulo de que o feminismo leva à igualdade dos direitos e à igualdade de sermos diferentes”, expressa Carla.  

Esses movimentos, diz, ganharam cada vez mais formas de aparecer, como nas artes e na música e foi por meio destas formas que a juventude começou a ganhar mais espaço, bem como mulheres líderes, que são jovens e estão nas universidades. “Muitas estão fora, mas a maior quantidade de material on-line disponível hoje é de mulheres do campo, em luta pela terra, por moradia, pelo seu corpo, sua sexualidade, que constroem um caminho de liberdade para outros sujeitos sociais, como os homossexuais, por exemplo”, informa a especialista. 

O feminismo é tido como a porta de entrada para muitos desses sujeitos e já faz muito tempo que elas estão em visibilidade, contudo, a doutora em História expõe que em Marechal Cândido Rondon não há muita visibilidade desses movimentos sociais. “E esses estranhamentos, como o caso da Maisa, fazem com que as meninas questionem o lugar que elas estão, e é isso o que o Lapeg faz sempre, porque em Marechal Rondon não há uma roda feminista, não há um movimento na sociedade rondonense de mulheres”, menciona. 

Recentemente, Carla destaca que na Unioeste foi realizada uma atividade política de sororidade, que é um entendimento de que as mulheres precisam estar unidas e ajudar uma a outra, independente dos seus gostos, raça, sexualidade ou classe social. “Os conflitos que você passa são os mesmos que passo, os assédios são os mesmos e nós não encontraremos ajuda em alguma instituição, ou com os homens, porque só eu sei o lugar de ser mulher quando você está no meu lugar porque você também é mulher”, resume. 

A sociedade rondonense já mostrou muitas meninas em ação política, porém, para Carla, foi um momento mal-interpretado pela sociedade rondonense. “As ocupações que aconteceram no ano passado nas escolas tiveram meninas que falaram muito bem, estavam liderando e muitas vezes temos a impressão de que líder é uma conotação masculina, mas liderança é quando você faz um conjunto”, ressalta. “Essas meninas saíram do espaço que foi tramado para as mulheres, subverteram isso e estiveram ao lado dos meninos com tom e voz”, complementa. 

De acordo com a doutora em História, muitas vezes os olhos da sociedade estão fechados para ver aquilo que é desconhecido, como a mulher no lugar político, e por isso se tornam muitas vezes invisíveis. “Essa situação veio para nós através da Maisa, mas nós tivemos aqui em Marechal Rondon meninas que quebraram o verbo e falaram muito bem, saíram do espaço feito para elas”, reforça. 

 

Liberdade

Carla expõe que não pode-se partir do ponto que as mulheres são vítimas, de que elas estão abaixo do machismo, já que elas enfrentam o machismo cotidianamente. “Nós fomos criadas dentro do machismo e estamos quebrando ele cotidianamente. O machismo compõe a homens e mulheres dentro da sociedade e desconstruir isso dentro de nós é um trabalho que fazemos constantemente”, enaltece.

Na visão da doutora em História, quando meninas começam a quebrar essa cultura desde muito cedo, seja por alguma questão da sua vivência, por literatura ou alguma ação pela internet que elas tenham acesso – como o projeto “Meu Amigo Invisível” que pede para que elas contem qual foi o seu primeiro assédio -, elas começam a se tornar sujeitos que dizem não. “Até porque uma menina não vira feminista da noite para o dia”, destaca. 

Ivonete comenta que as coordenadoras do Lapeg fazem parte de uma corrente do feminismo que liberta as mulheres. “Se ela quiser colocar uma roupa curta e ir no palco dançar, ela é livre para fazer, mas isso não dá o direito de outra pessoa ver ela como objeto”, exemplifica. 
“Quando a pessoa diz ‘ela se põe nesse papel’ é o mesmo que dizer ‘aquela menina que usou aquela roupa curta e foi estuprada se colocou neste papel’, mas não é assim. A dançarina que está lá com aquela roupa é uma artista, mesmo que ela estivesse nua, não dá o direito de alguém vê-la como objeto e fazer gracinha com ela. Por que com os homens que fazem performance nus ninguém faz piadinha? Esse é o x da questão”, complementa. 

A doutora em História expõe que esta linha feminista liberta a mulher e ela não precisa, necessariamente, ser feminista, ela pode ser o que ela quiser, com a consciência de que ela tem o direito de fazer sem ser molestada ou assediada. “O machismo não é uma característica só dos homens, as mulheres também são machistas ao condenar como promíscua uma menina que está com roupa curta na rua e elogiar o corpo de um homem que está sem camisa na rua”, compara. “Nós somos machistas, vivemos em uma cultura machista e não nos tornamos feministas de uma hora para a outra. É um processo lento de desconstrução do machismo e de percepção dos meus direitos e do direito das outras mulheres”, destaca Ivonete. 

A mulher, ao mesmo tempo que é machista, é vítima do machismo, por isso é mais fácil para uma menina compreender esse processo do que um menino. “Ela se vê como machista, mas como vítima do machismo enquanto que ele é só machista, então é mais difícil essa desconstrução para um menino”, evidencia. 

 

Via de mão dupla

Apesar de as pesquisadoras tratarem as redes sociais como uma via de mão dupla, ou seja, ao mesmo tempo em que colaboram para o ganho do conhecimento também deseducam, na visão positiva dessas ferramentas, as meninas mais jovens começaram a perceber que há mais do que uma “história do conto de fadas” em que elas nascem, crescem, estudam, arrumam um bom marido, têm filhos e passam a se dedicar à família. “A ‘modinha feminista’ que surgiu na internet mostrou para as meninas que ela não nasceu só para casar e usar o útero, nasceu para usar o cérebro, aumentou mais as possibilidades do que elas podem ser”, destaca Carla. “Elas mostram para essas jovens que a sua vida não é um homem, é um estudo. Construa uma carreira e depois case, se você quiser, com quem você quiser, o útero é seu e não da sociedade, tenha filhos se você quiser, se você não tiver, não vai ser uma uva passa. As meninas novas estão lendo essas informações por uma charge, por textos curtos, por uma feminista escrevendo em um blog, esses comandos estão sendo processados por elas, que começam a se tornar visíveis na sociedade”, complementa. 

O fenômeno das mulheres dizerem “não quero mais”, aponta Carla, acontece mais do que a sociedade imagina, entretanto, nem sempre as pessoas têm o olhar para observar. “Elas dizem estamos aqui, vamos incomodar, não nos mandem voltar porque queremos ir para frente, não para oprimir, mas para construir um mundo mais igualitário nos direitos, com o direito de sermos diferentes, porque o direto que leva à igualdade”, conclui. 

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