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Atrás de grades e vestidas de rosa: a história das freiras da “adoração perpétua” que vivem enclausuradas no Paraná

Único convento brasileiro das Irmãs Servas do Espírito Santo da Adoração Perpétua fica em Ponta Grossa. Contato com fiéis é permitido, mas sempre entre grades


calendar_month 14 de junho de 2026
7 min de leitura

Atrás de grades para focar na missão de rezar por todo o mundo e de roupa tradicional cor-de-rosa para representar a felicidade de estar a serviço de Deus. Assim é a vida das Irmãs Servas do Espírito Santo da Adoração Perpétua, congregação católica que possui cerca de 20 conventos pelo mundo e apenas um no Brasil.

No local, a principal ocupação delas é rezar, e este preceito básico é o que as diferencia de outras congregações. Ao invés de embarcarem em missões externas, trabalharem em hospitais ou darem aulas, por exemplo, elas têm uma vida predominantemente contemplativa.

“Nós rezamos muito pelas pessoas, pela igreja, pelo mundo todo. Pelos sacerdotes, pelos missionários… A nossa missão principal é essa: a nossa entrega total a Deus no louvor, na adoração, na súplica também e pedir realmente pela humanidade toda”, afirma a madre Maria Elizabeth.

O doutor em Teologia Kevin Kossar Furtado, professor do departamento de Jornalismo da Universidade Estadual de Ponta Grossa (UEPG) destaca que a oração contínua é central na identidade e na missão das irmãs.

Freiras da congregação vestem hábito cor-de-rosa — Foto: Paulo Roberto Martins/RPC

Freiras da congregação vestem hábito cor-de-rosa — Foto: Paulo Roberto Martins/RPC

“A congregação entende que sua contribuição para a Igreja e para a sociedade ocorre por meio da oração permanente em favor de diferentes causas e pessoas ao redor do mundo”, afirma.

A congregação foi fundada em 1896, e o Convento Nossa Senhora do Cenáculo foi criado em Ponta Grossa, a cerca de 100 km de Curitiba, em 1983. As 18 freiras que vivem no local só saem em casos de emergências médicas, odontológicas ou para resolver burocracias — o que significa que estão em clausura permanente. As idades variam de menos de 30 a mais de 90 anos.

A rotina no convento é extensa: inicia com o despertar às 4h45 e o primeiro louvor às 5h15 (saiba mais abaixo.)

Longa jornada até a clausura

Para ser uma irmã, basta demonstrar interesse — não é necessário, por exemplo, ter sido freira em outro convento antes. O processo de entrada envolve assumir compromissos na congregação até, progressivamente, chegar à clausura.

A formação segue o modelo padrão da Igreja Católica, sendo dividido por etapas, cada uma com tempo de duração específico. Em alguns casos, somando todas as etapas, pode passar dos 10 anos. O compromisso definitivo só ocorre com os votos perpétuos, que é a consagração definitiva de uma irmã.

Mesmo após essa decisão, ela pode deixar de ser freira, mas isso exige um processo formal que depende da avaliação de instâncias superiores e pode chegar ao Vaticano.

“A clausura foi feita justamente para nos ajudar a viver melhor a nossa forma de vida. Para nós, é um símbolo de liberdade… Liberdade para poder viver plenamente e intensamente a nossa vocação, a nossa missão aqui dentro”, avalia Maria Elisabeth.

As freiras se revezam dia e noite para ao menos uma delas sempre estar em adoração diante do Santíssimo Sacramento. Elas dividem o tempo entre as orações, produção de hóstias, afazeres domésticos e missas abertas ao público — nas quais permanecem em uma área separada por grades.

Na capela, grades separam freiras dos fiéis — Foto: Paulo Roberto Martins/RPC

Na capela, grades separam freiras dos fiéis — Foto: Paulo Roberto Martins/RPC

Maria Elisabeth explica que, apesar do silêncio ser considerado necessário em grande parte do dia para favorecer a comunhão com Deus, a casa é repleta de alegria e momentos de descontração — o que é representado, também, na cor das vestes das irmãs.

“Nosso hábito cor-de-rosa simboliza nossa especial consagração ao Espírito Santo e manifesta nossa alegria por estar a serviço de Deus. […] O Espírito Santo é o Deus-amor, Deus da alegria”.

🔎 O hábito é a vestimenta tradicional usada pelas freiras e religiosas. Ele funciona como um sinal exterior da sua consagração a Deus e identidade vocacional, simbolizando os votos de pobreza, castidade e obediência.

🔎O Santíssimo Sacramento é o nome dado à Eucaristia na Igreja Católica, e refere-se à representação da presença de Jesus Cristo na forma de algum objeto considerado sagrado.

Infográfico - Irmãs Servas do Espírito Santo da Adoração Perpétua — Foto: Arte g1

Infográfico – Irmãs Servas do Espírito Santo da Adoração Perpétua — Foto: Arte g1

O uso de grades e o contato com o mundo externo

Madre Maria Elisabeth é uma das freiras que vivem na congregação — Foto: Paulo Roberto Martins/RPC

Madre Maria Elisabeth é uma das freiras que vivem na congregação — Foto: Paulo Roberto Martins/RPC

Por só saírem do convento por necessidades burocráticas ou de saúde, o contato das Irmãs Servas do Espírito Santo da Adoração Perpétua com o mundo externo é feito, principalmente, por meio das pessoas que visitam o convento. Elas veem e conversam com as freiras apenas através de grades.

🔎As Irmãs Servas do Espírito Santo da Adoração Perpétua não são a única congregação que vive em clausura com a presença de grades. A estrutura é comum em comunidades que são mais voltadas à adoração e contemplação.

Em Ponta Grossa, a capela fica aberta ao público com missas todos os dias. A comunidade também pode pedir orações ou deixar desabafos por escrito. Também são permitidas conversas separadas com as irmãs, em salas onde as religiosas ficam separadas dos fiéis por um gradil.

“Muitas pessoas vêm aqui para conversar, para pedir oração, às vezes para desabafar e elas saem aliviadas, principalmente quando passam na capela. E elas se admiram tanto! Falam: ‘Nossa, como vocês conversam e riem’, pois nós vivemos a nossa vida humana também de uma maneira muito intensa”, diz a madre Maria Elisabeth.

Kevin Furtado explica que o uso de grades na Igreja Católica surgiu na Idade Média e se consolidou na Idade Moderna, como parte de uma tradição de separação entre a vida religiosa e o mundo exterior.

“Sobretudo após as reformas promovidas pela igreja católica a partir do século XVI, comunidades femininas de vida recolhida passaram a usar barreiras físicas, como muros, portões e grades, para preservar um ambiente considerado mais favorável à oração, ao silêncio e à vida comunitária”, explica.

Ele destaca que, na prática, essas estruturas delimitavam os espaços reservados às religiosas e regulavam o contato com visitantes, familiares e autoridades religiosas.

“Muitas conversas, orientações espirituais, encontros familiares e até negociações administrativas aconteciam através dessas divisórias. Pesquisadores da história monástica observam que as grades funcionavam como uma fronteira simbólica: marcavam a opção por uma vida mais recolhida, mas sem romper completamente os vínculos entre o convento e a comunidade”, aponta.

A rotina centrada na oração

Freiras fazem diversas orações ao longo do dia — Foto: Paulo Roberto Martins/RPC

Freiras fazem diversas orações ao longo do dia — Foto: Paulo Roberto Martins/RPC

A rotina das freiras começa às 4h45. Elas não revelam publicamente o itinerário do dia, mas contam parte da programação e rotina na congregação. Confira abaixo:

  • Acordam às 4h45 e iniciam o louvor às 5h15, com as Laudes (oração oficial da manhã na chamada Liturgia das Horas);
  • Em seguida, fazem meditação pessoal e depois participam de missa aberta ao público;
  • Após o café da manhã, rezam os chamados “Ofício das Leituras” (ciclo de orações da Liturgia) e “Hora Terça” (que faz parte da Liturgia das Horas);
  • Ao longo do dia, enquanto algumas irmãs se revezam em adoração diante do Santíssimo Sacramento, outras se ocupam com afazeres domésticos;
  • Ao mesmo tempo, outras trabalham com costura, jardinagem, confecção de hóstias, trabalhos manuais e atendimento aos fiéis;
  • Às 12h, são rezam a “Hora Sexta” e outras orações;
  • Após o almoço, elas têm uma hora livre para descanso;
  • Às 15h10 é rezada a “Hora Nona”;
  • Às 17h20, rezam o terço comunitário e seguido das “Vésperas” (oração oficial da tarde da Igreja Católica).

Cada irmã tem ainda uma hora diária para oração pessoal e leitura espiritual. Após o jantar, elas têm uma hora de recreação comunitária, que serve para fomentar a unidade da congregação e favorecer uma vida espiritual saudável.

Freiras produzem hóstias no Convento Nossa Senhora do Cenáculo — Foto: Convento Nossa Senhora do Cenáculo

Freiras produzem hóstias no Convento Nossa Senhora do Cenáculo — Foto: Convento Nossa Senhora do Cenáculo

“A última oração comunitária chama-se Completas [última etapa da Liturgia das Horas]. Com ela, encerramos nosso dia e nos preparamos para o descanso noturno”, explica a madre Maria Elisabeth.

De segunda a sexta-feira, elas produzem hóstias para seis paróquias da Diocese, da qual a congregação faz parte.

São cerca de 70 pacotes de 200 gramas fabricados por mês para os fiéis, somando cerca de 49.000 hóstias, e aproximadamente 20 pacotes de hóstias para os sacerdotes, o que totaliza mais ou menos 600 hóstias de tamanhos diferentes.

Com G1

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