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Há chance real da volta do militarismo?

calendar_month 3 de outubro de 2017
9 min de leitura

Com a crise política instalada, a economia em um dos piores momentos de sua história e escândalos semanais de corrupção, muitos brasileiros estão se perguntando: chegou a hora de uma intervenção militar?

O Brasil experimentou o regime militar entre 1964 e 1985. No período, foram cassados mandatos de políticos, jornais foram censurados e opositores foram presos, torturados e assassinados.

Em vista disso, vez ou outra o “fantasma” da intervenção militar volta para assombrar a sociedade brasileira. Dessa vez, o argumento vem amparado de recentes comentários da cúpula militar do Brasil sobre a situação política do país. Tais posicionamentos levantaram dúvidas sobre até que ponto o país está livre de uma ação das Forças Armadas para tomar o poder.

Outro fato que chamou a atenção foi a divulgação de uma pesquisa, na semana passada, feita pelo Instituto Paraná Pesquisas, a qual aponta que 43,1% dos brasileiros são a favor de uma intervenção militar provisória no Brasil. Outros 51,6% dos brasileiros disseram ser contra e 5,3% não souberam responder ou não opinaram.

A maior parte dos apoiadores de uma ação militar para resolver a crise política no país, conforme a pesquisa, são jovens entre 16 e 24 anos – 46,1% dos entrevistados nessa faixa etária apoiariam a medida.

Para o cientista político Gustavo Biasoli Alves, esse favoritismo à intervenção militar pela população mais jovem se deve ao fato de estes acreditarem que no tempo do regime era bom e que não havia corrupção. “O que, de fato, não é verdade. Quem sabe o que foi o regime militar não apoia”, declara.

Tal posicionamento vem ao encontro de outro dado da pesquisa que mostrou que os mais reticentes à intervenção militar têm 60 anos ou mais – 56,2% dos entrevistados nessa idade são contra uma intervenção. 

Biasoli diz que todo distanciamento causa um certo saudosismo, principalmente nos jovens, mas um saudosismo que, segundo ele, vem pela ignorância. “Eles (jovens) têm conhecimento do que foi a época do regime militar através de histórias e livros, mas não têm a vivência. Sendo assim, é um conhecimento deturpado e distorcido”, afirma.

A existência de um aumento do conservadorismo entre os jovens é outro fato que, na visão do cientista político, pode explicar essa opinião favorável aos regimes totalitários. “Vejo também um desencantamento com a democracia, uma desesperança. O desespero leva a população a acreditar que uma intervenção militar é uma solução fácil para os problemas, e que bastaria os militares tomarem o poder para que as coisas se resolvessem, mas isso é uma utopia”, enfatiza.

É justamente esse sentimento de desencanto com a atual situação política no Brasil que leva, não somente os jovens, mas também outras pessoas a acreditarem que a ação das Forças Armadas seria a solução para resolver e estabilizar o cenário atual. Isso, para Biasoli, é até certo ponto preocupante, pois o descontentamento com a atual situação do país e uma busca desesperada por soluções pode levar a uma solução também desesperada e as consequências disso seriam inimagináveis. “No contexto da situação, o que podemos perceber é que as Forças Armadas foram um dos poucos aparatos do Estado que ainda não foram testados, para ver se conseguem dar respostas a problemas políticos”, pontua o cientista, acrescentando: “O Legislativo foi testado e não deu respostas, o Judiciário está sendo testado e está respondendo, mas não a contento, no sentido de dar uma resposta rápida e, ao meu ver, a  população tem um desejo muito grande de que as respostas sejam rápidas e isso não está acontecendo”.

Ele destaca ainda que essa falta de celeridade “aumenta o desejo da população de querer ‘testar’ o poder das Forças Armadas”, vendo nelas uma última esperança. “Mas é uma esperança falsa porque o papel do militar não é fazer política. Assim, as soluções que eles podem dar não são políticas, e sim soluções autoritárias e arbitrárias, ou seja, uma solução que não é uma solução”, enfatiza.

 

Polêmica

O general do Exército da ativa Antonio Hamilton Martins Mourão falou por três vezes na possibilidade de intervenção militar diante da crise enfrentada pelo país, caso a situação não seja resolvida pelas próprias instituições. A afirmação foi feita em palestra realizada na noite do último dia 15, na Loja Maçônica Grande Oriente do Brasil, em Brasília, após o então procurador-geral da República, Rodrigo Janot, denunciar pela segunda vez o presidente Michel Temer por participação em organização criminosa e obstrução de justiça.

A atitude do general causou desconforto em Brasília. Oficiais-generais criticaram a afirmação de Mourão, considerada desnecessária neste momento de crise. “Eu interpreto a fala do general Mourão dentro do seguinte aspecto: o alto escalão das Forças Armadas sempre teve posicionamento político, e isso é fato, então acredito que ele usou aquela situação para expor seu posicionamento, que, até onde eu sei, é um posicionamento dele, individual, tanto é que depois ele acabou sofrendo uma reprimenda pelo comando do Exército e pelo ministro da Defesa”, diz Biasoli, reiterando a fala do general como um posicionamento específico dele ou de um grupo seleto dentro das Forças Armadas.

 

A crise política tem solução?

Para o cientista político toledano, a crise política tem solução, sim! Contudo, ele ressalta que para isso acontecer é necessária uma organização da sociedade civil, uma reforma política e no Poder Judiciário, de tal forma que não se perca o direito à defesa, mas que os julgamentos sejam mais rápidos. “É um momento difícil e complexo, com um governo apresentando uma popularidade pífia e, juntamente com o Congresso Nacional, envolvido em escândalos de corrupção”, lamenta.

 

Consequências em todos os níveis

Questionado sobre a possibilidade de Michel Temer concluir seu mandato como presidente da República, Biasoli responde que isso pode acontecer, até porque há um tempo para que a denúncia seja ou não aceita. A questão, segundo ele, talvez seja o preço a ser pago pelo cumprimento do mandato. “Além disso, qual vai ser a negociação para ele cumprir o mandato? Vai ser uma negociação limpa, baseada apenas em critérios políticos ou vai acontecer o mesmo que já aconteceu outras vezes, de ‘arrebentar’ o orçamento para liberar emenda parlamentar?”, indaga o cientista político.

 

Indecisão

Mesmo com as eleições presidenciais de 2018 batendo à porta e diante do contexto atual, muito ainda pode acontecer no Brasil. Na opinião de Biasoli, o que se pode esperar para o próximo pleito eleitoral é indecisão. “Difícil falar alguma coisa visto que alguns dos nomes que estão sendo postulados à Presidência da República ainda não se posicionaram de fato se são ou não candidatos, nem com que postura irão disputar”, comenta. “Além de não sabermos se todos terão o aval da Justiça para concorrer, e esse é outro ponto”, expõe.

 

Ainda há esperança

Com uma democracia ameaçada e um futuro incerto, é possível ter a esperança de que novos e melhores tempos estariam por vir? Biasoli afirma que é preciso não somente ter esperança como também construir as alternativas para mantê-la. “Seria desejável que a sociedade se envolvesse mais com a política e buscasse construir formas alternativas de melhorá-la. Ela (sociedade) tem que se organizar mais e melhor, construir novas lideranças, projetos e cobrar formas mais éticas de fazer política”, ressalta, emendando: “Como você vai cobrar ética de um deputado se você vendeu seu voto para ele? Como vai cobrar ética de um deputado se você financiou a campanha dele através de caixa 2?”, questiona o toledano, reiterando que as mudanças não envolvem e dependem apenas da classe política, mas sim todos os cidadãos.

 

Consequências

Na opinião do cientista político, se fosse novamente instaurado um regime militar no Brasil, as consequências seriam as mais desastrosas possíveis. “Isso porque a primeira ação de um regime autoritário vai ser agir em cima das liberdades políticas, ou seja, cassando as liberdades políticas de seus opositores, o que significaria o fechamento do Congresso Nacional, cassação de mandatos, prisões arbitrárias, pessoas sendo forçadas ao exílio e o país voltando a viver mais uma vez os tempos de repressão”, entende Biasoli.

Ele reitera a necessidade de um exame mais acurado do que foi o regime militar e suas consequências. “Lembrando que não são quaisquer consequências, basta para isso lembrarmos de quantas pessoas morreram torturadas, presas e exiladas”, finaliza.

 
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