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Intervenção militar é a solução para o Brasil?

calendar_month 3 de outubro de 2017
14 min de leitura

O general Antônio Hamilton Mourão sugeriu há algumas semanas uma intervenção das Forças Armadas para resolver a crise brasileira e o problema da corrupção se as instituições políticas e civis, incluindo a Justiça, não colocarem o Brasil nos trilhos. Foi o pontapé para que parcela da população defendesse um golpe militar para consertar o país.

Mas será que as Forças Armadas teriam o poder de resolver os problemas nacionais? Elas são maiores em relação ao resto do Estado para apresentar uma solução que resgate a credibilidade do país?

A reportagem de O Presente entrevistou políticos, militares e um civil com o objetivo de conhecer a opinião dessas lideranças – assim como o primeiro prefeito eleito no município com a redemocratização. Dos nove entrevistados, quatro se posicionaram a favor, apontando que a intervenção poderia ser provisória. Os demais se colocaram contrários, enaltecendo que a população deve exercer de forma democrática a sua cidadania. Confira a seguir.

 

Vereador Vanderlei Sauer, policial militar inativo:

“A minha opinião é de que deve prevalecer a democracia, mas se continuar a vergonha que está no nosso país, aí passa a ser uma solução sim, desde que a intervenção seja feita com responsabilidade. Embora muitas pessoas achem que o militarismo restringe algumas liberdades, eu vejo que ele só restringe a libertinagem. Não vai ter problema nenhum na liberdade do cidadão desenvolver suas atividades. O problema é essa roubalheira, essa pouca vergonha no nosso país e esse sentimento de impunidade de que os maus não vão pagar. A população não sabe o que é verdade e o que é mentira, então precisa ser tomada uma providência. Como militar (inativo), sou suspeito em falar porque não se tolera esse excesso de liberdade que existe. Acontece estupro, roubo e outras barbaridades e não ocorre nada. A sociedade está revoltada e com toda razão. Se não aparecer uma solução concreta nos próximos dias talvez esta seja uma opção porque até agora não se definiu nada. Se a intervenção militar for a solução momentânea, que seja. Sou a favor diante do quadro atual em nível nacional, mas desde que o cidadão de bem não pague o preço por isso. Hoje o cidadão está pagando um preço muito alto pelos desmandos de um governo irresponsável”.

 

Deputado federal Evandro Roman:

“Vejo que não por longo prazo, mas por um período, sou favorável desde que haja oportunidade de zerar uma série de erros cometidos, de programas que realmente sugam o dinheiro público. Eu sou muito favorável que entrasse um regime militar por quatro anos e entregasse novamente o poder através de eleição, o problema é que muitas vezes o poder contamina, a pessoa se entorpece com ele e não quer largar. Se o Brasil passasse por um processo de uma ditadura, zerasse todos os exageros desde consumo e outros, pode ter certeza que seria um país muito melhor. Caso viesse, imagino um formato diferente, com respeito ao lado humano, uma mão mais amiga, porém firme. Eu não consigo entender que o Exército não esteja na fronteira, ele deveria ter uma base forte e atuante em cada município do Oeste combatendo contrabando e descaminho. Um dos grandes gargalos está no Poder Público, que utiliza quase 50% do que se arrecada município, Estado e governo federal para pagar pessoal. Isso não existe, pois 30 anos atrás se usava 20%. Eu converso muito com os militares e eles não pegariam pela metade. Fariam um trabalho completo, mas não sei se assumiriam tamanha situação que foi deixada principalmente durante esses 14 anos do PT. Não sei se eles estariam dispostos”.

 

Deputado estadual Ademir Bier:

“Por respeitar a opinião das pessoas, eu sou contrário. Eu vivi no meu tempo de faculdade essa opressão que existia. Nós brigamos tanto para que as pessoas tenham liberdade de expressão, de agir e pensar, então não podemos perder tudo isso que conquistamos ao longo dos anos com muita luta, inclusive com vidas de brasileiros que se colocaram à disposição de construir um país livre. Eu entendo que as Forças Armadas têm um poder extraordinário de fazer o seu papel, agora não entendo a serviço de quem está a grande imprensa para induzir na mente da população uma besteira desse tamanho. Eu entendo que a democracia é o melhor da instituição, ela precisa ser preservada. Toda pessoa deve saber que a estrutura precisa ser modificada e nós desempenhamos isso através do voto. Eu acho que muita gente está querendo induzir no coração dos brasileiros aquilo que a grande maioria não viveu e não sabe o que é. Se o modelo atual está errado, e eu também acredito que esteja, nós devemos consertar através da democracia, através do voto popular. Não vai retornar nunca! Seja ditadura de direita ou de esquerda, nenhuma delas funciona. A única coisa que funciona é a democracia, é liberdade de ação, pensar e agir”.

 

Deputado estadual José Carlos Schiavinato:

“A pior das democracias é melhor do que qualquer boa ditadura, por isso a sociedade precisa ser inteligente o suficiente para dirigir os seus destinos. É muito ruim quando a gente ouve uma notícia de que o povo pede uma intervenção militar, porque isso significa que há uma descrença acentuada no processo político do nosso país. Nós precisamos regularizar a situação política através do título de eleitor para depositar o voto em pessoas que realmente tenham condições de alterar essa situação que o nosso país vive. A observação do processo político é importante, inclusive com diminuição de tributos no futuro porque todo sistema mostrou ser possível administrar um país com menos cobrança de tributos quando se tem credibilidade e se investe bem com análise em custo-benefício de cada centavo pago pelo cidadão. Na época da ditadura eu era criança e meu pai era prefeito e me lembro que na minha cidade não se via reflexo nenhum desse processo, tanto que meu pai continuou a sua administração no município de Iguaraçu (região de Maringá). O jovem está descrente com os governantes do país quando vê tanta corrupção ser colocada. Que a gente continue com o processo democrático sem a necessidade de intervenção militar em um país tão grande e que oferece tantas oportunidades”.

 

Comandante da 2ª Companhia da PM, capitão Valmir de Souza:

“O Brasil passou por momentos turbulentos e novamente atravessa uma crise, entretanto temos convicção de que todas as instituições conseguirão suplantar essa fase por meio da legitimidade. Enquanto militares e cidadãos, vemos que o momento é de reflexão. As questões pautadas com a corrupção e no nosso caso da PM, a violência, fazem a população esperar uma resposta pronta e rápida, todavia as instituições têm o seu tempo. Acreditamos na sobriedade das instituições, dos líderes e comandantes das forças militares que sabem e têm consciência do papel que exercem. Nós precisamos encontrar soluções que levem o país a uma melhora, a ter confiança, o que passa por slogans como ter mais saúde, educação e menos corrupção. Devemos encontrar isso em um debate amplo e franco com as instituições funcionando, com os corruptos sendo apenados porque são crimes que destroem a pátria brasileira, a sociedade e o cidadão. As pessoas podem ter a ideia de que a perspectiva de uma intervenção, seja ela de que modo for, facilitará uma mudança de forma rápida, mas será difícil. A nossa opinião é de que somos a favor da Constituição, de tudo o que ela prevê e seguiremos fielmente o que ela demanda, independentemente das ações que a comunidade possa entender como adequadas”.

 

Policial civil aposentado e veterano da reserva do Exército, Ataliba Pires de Campos:

“Como cidadão brasileiro, sou totalmente a favor da intervenção militar para salvar o Brasil como aconteceu em 1964. Pelo que se indica, esses políticos corruptos que não amam o país, não respeitam as crianças, não amam a bandeira do Brasil queriam a chave do cofre e aí está o resultado. Olha a corrupção em cima de corrupção, coisa que não se faz! Isso é até falta de temor a Deus. O militar tem algo que o civil raramente tem: compostura, disciplina e civismo. Faço parte da reserva do Exército Brasileiro como veterano. Vestir uma farda é algo santo, o mesmo que um padre vestir a batina. Muita gente decente fala: que saudades eu tenho do tempo do regime militar, quando havia respeito, trabalho e segurança. Os jovens desejam a volta porque não foi uma ditadura cruel como se prega. Eu vi e vivi essa época. As Forças Armadas vieram em socorro do Brasil. Nós não podemos ter um país de anarquia e vandalismo. Tanta gente boa deseja o retorno de uma intervenção militar para o bem do Brasil, para salvar o país que está indo para o caos. No fundo o militar não deseja isso, pois entregou o país para o político civil governar dentro de um regime de respeito e honestidade, para que trouxesse ordem e progresso para todos”.

 

Deputado estadual Elio Rusch

“O que não pode é continuar com a forma como o PT administrou o país nos últimos tempos. Criou-se um governo populista que estava instalando o socialismo e praticamente estávamos caminhando para um regime igual Venezuela e Cuba, onde o governo tem o controle de tudo, e isso não pode acontecer. Nós precisamos continuar vivendo uma democracia. Não pode continuar como estava ocorrendo no nosso país, o governo transferindo responsabilidades para municípios e Estados e ele ficando com o grande bolo, gastando dinheiro no mercado, pagando 14% e emprestando a 6% aos grandes empresários. Isso nós estamos combatendo e acho que essa é a grande revolta da comunidade que pede a volta até da intervenção militar. Eu vejo que este não é o caminho, pois o país deve ser administrado por políticos e os eleitores devem estar conscientes, porque muitas vezes se deixam conduzir pela grande mídia. Eu continuarei defendendo a livre iniciativa, o setor produtivo e a parceria público privada. A Constituição só garantiu direitos, por isso é preciso mudança profunda no nosso país. É lamentável que os direitos humanos tenham ido a Umuarama para saber como está aquele cara que matou uma criança. Que país é esse? Por isso a sociedade pede que os militares tomem conta de novo para colocar a casa em ordem porque hoje não há mais respeito. Mas nada melhor do que você escolher os seus administradores e representantes pelo voto”.

 

Ex-prefeito Ilmar Priesnitz (1986-1988):

“O meu pai Helmuth Priesnitz foi o vereador mais votado pelo PTB em 1961 e depois em 1965, quando era o candidato mais forte do partido e seria candidato a prefeito, mas acabou preso. Depois abriu mão e foi novamente o vereador mais votado do grupo. Portanto, a gente conviveu a época do golpe político fomentado por setores das Forças Armadas que estavam divididos, pois nem todos pactuavam dessa ideia. A grande modificação que a Arena (Aliança Renovadora Nacional) fez é o que se vê hoje no Brasil. A segurança (ditadura) foi tanta que hoje o Brasil é campeão mundial de tráfico de drogas e armas, e o Rio de Janeiro tem mais revolução e guerra do que a maioria dos países do Oriente Médio. A ditadura não pode, sob hipótese alguma, ser um instrumento através do qual o sujeito vai atingir os seus objetivos. Em Marechal Cândido Rondon saí candidato a vereador e fui eleito com 1,5 mil votos, mais tarde fui candidato apoiado pelos autênticos do MDB e eleito prefeito do município com 14 mil votos, na época com Entre Rios do Oeste, Mercedes, Pato Bragado e Quatro Pontes. Então nós voltarmos a ter os militares no poder eu acho que só se for para enganar o povo de novo, porque militar não nasceu para governar país nenhum. O militar fez um curso específico para constitucionalmente defender a pátria e a sua honra, para que o povo tenha liberdade de ir e vir e proteger as fronteiras. O que se fez no Brasil com o advento da ditadura militar e depois com esse governo que está aí foi massificar a educação, mas não se procurou qualidade. Só vai acontecer (intervenção militar) se houver um acerto com todo mundo que está com o rabo preso, com delações e me assusta quando você vê os empresários mais fortes do Brasil fazendo jogo de ajuste com a Justiça para flagrar esse e aquele político para serem cassados e afastados do poder. O Brasil deve ser passado a limpo, mas a intervenção militar não é a solução. Dentro do quartel houve superfaturamento na compra de uniformes dos soldados. Isso já serve de alerta e lá também, a exemplo dos políticos, todos são passíveis de cometer erros. Sou contra porque temos outras formas, é preciso usar a inteligência do povo. Vamos dar educação para o povo achar a solução dos seus problemas”.

 

Empresário Silvio Franzen:

“Nós precisamos dar uma resposta para a sociedade porque estamos abandonados pelos nossos governantes e os militares representam um pouco de sentimento do que é a ética, justiça e responsabilidade. As Forças Armadas geralmente estão em primeiro lugar no que o brasileiro mais confia. Hoje em dia a gente vê esse abandono do erário público, nós pagamos as maiores taxas de impostos do mundo e não há retorno. Eu defendo uma intervenção militar para que seja instalado um Congresso Nacional funcional, que seja por um período, para fiscalizar de fato o Executivo e garantir a Constituição nos seus mínimos detalhes, lotando todas as reformas que devem ser feitas. Tivemos um período militar em que o Congresso teve eleições normalmente. Os presidentes eram todos da reserva e não se encontra uma foto de presidente militar com a farda. Quer mais opressão e perseguição do que temos hoje em dia? Nós vivenciamos a ditadura do crime. Quem é chefe de família ou quem trabalha sabe que estamos com uma liberação excessiva da pouca vergonha. Não há mais educação moral e cívica. Pessoas com mais de 50 anos vão dizer que sentem saudade do governo militar, a não ser que sequestravam chanceler e arrombavam banco. Pessoas de bem vão lembrar que havia ordem no país e que as pessoas se sentiam governadas e seguras”.

 

 
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