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Novo desafio virtual deixa pais e professores em alerta

calendar_month 6 de setembro de 2018
12 min de leitura

Uma figura magra, de cabelos pretos, olhos esbugalhados e a boca esticada em um sorriso anormal e assustador. A “boneca Momo” – como foi apelidada a escultura “Mulher Pássaro”, que faz parte do acervo do Museu Vanilla Gallery, em Tóquio, no Japão – poderia ser apenas mais um personagem de filme ou série de terror. Entretanto, pessoas mal-intencionadas têm se escondido atrás da figura na internet e aterrorizado cidadãos de diversos países.

A história que circula na internet é a de que é possível entrar em contato com a Momo pelo WhatsApp, independente do idioma que você fala, adicionando um número de telefone. Ao estabelecer a conversa com a personagem, são ouvidos ruídos, gritos e uma agitação que passa sensação de pavor para quem está do outro lado da linha.

 

Perigo on-line

A inclusão de um contato desconhecido e a troca de mensagens no app podem representar risco para o dono do celular, já que o cybercriminoso aproveita a curiosidade do usuário de saber o que acontece se adicionar o número para ter acesso a dados pessoais, mesmo sem o usuário perceber.

Além de a Momo responder com ameaças violentas e chantagear o usuário, ao demonstrar que tem acesso às suas informações pessoais, os criminosos por trás da personagem propõem desafios que podem levar à morte de quem quer “conhecer” a boneca, como resistência ao ato de sufocamento e enforcamento.

O “público-alvo” de quem está por trás da Momo são especialmente crianças e adolescentes, que ficam sabendo sobre o “desafio da boneca Momo” na internet, cada vez mais famoso por estar em sites, blogs e “na boca” de influencers, youtubers e entre as conversas dos próprios jovens.

 

Mais perto do que nunca

Por ser um perigo digital, ninguém está livre ou longe da Momo. Ana Clara* é mãe de uma estudante do 4º ano de uma escola rondonense e, na semana passada, a filha, de oito anos, contou para a mãe que recebeu o contato da Momo por meio de um colega de sala – que teria repassado o número para todos os amigos da turma. “Procuro sempre estar atenta a temas como este que podem trazer risco a ela e busco conversar. Logo que esse desafio da Momo surgiu na mídia, me atentei ao assunto, assim como aconteceu na época da Baleia Azul e em temas recorrentes, como pedofilia e bullying”, diz.

Ela conta que, apesar de o colega ter lhe repassado o contato da Momo, ela apagou o número do celular e não fez nenhum tipo de contato. “Mas ela me contou que uma das coleguinhas ligou para o número, o que a Momo mandou ela fazer, sobre as ameaças e isso me deixou bastante preocupada acerca de outros pais que nem sempre estão conectados e alerta para esses perigos da internet”, comenta.

A preocupação fez com que Ana Clara compartilhasse informações sobre a Momo em um grupo que os pais mantêm no WhatsApp, informando que os filhos estavam conversando sobre o tema e tinham o contato perigoso. “A relação da nossa família é bastante aberta para esses temas. Minha filha sempre fala comigo sobre esses assuntos e eu faço minha parte, como mãe, de acolher, dar atenção e orientação sobre evitar os perigos que a internet pode trazer”, frisa. “O que me deixou em alerta foi especialmente o fato de essa ‘lenda’ da Momo estar presente na turma dela, entre os colegas e provavelmente também entre outras crianças da nossa cidade”, ressalta.

 

Informar é proteger

No Brasil, há suspeitas de que o desafio da Momo já tenha causado a morte de uma criança de nove anos, no Recife. A polícia ainda investiga o caso, contudo, quanto mais crianças e adolescentes estiverem bem informados sobre o perigo por trás da Momo, mais protegidas elas estarão.

Com o objetivo de mostrar às crianças e aos adolescentes que tanto na família quanto na escola eles podem e devem buscar apoio em qualquer situação de perigo – mesmo que no meio digital -, a coordenadora pedagógica do Colégio Evangélico Martin Luther, Liane Schwingel, explica que a instituição tem realizado uma série de ações voltadas à segurança digital. “Enquanto escola parceira do Sistema Positivo, participamos de diversos projetos, dentre eles o Conecta Positivo, um programa de certificação digital. Porém, como postura pedagógica da instituição buscamos desenvolver atividades com os alunos para estreitar a relação de coordenação, professores, da equipe pedagógica com os alunos de todas as turmas, desde o Ensino Fundamental I e II e o Ensino Médio”, menciona.

Em agosto, comenta Liane, uma palestra abordou o tema da segurança digital com os estudantes. Segundo ela, os próprios alunos sentiram-se a vontade para falar abertamente sobre o tema na oportunidade. “Associado a isso, outra postura da escola é um trabalho bastante intenso com as turmas do Ensino Fundamental I junto às professoras e a nossa psicóloga acerca da orientação e observação dos estudantes. Todos os profissionais estão orientados e preparados para acolher o aluno em qualquer situação: como fazer a abordagem, chegar ao problema, como fazer com que a criança ou adolescente sinta-se fortalecido e protegido e não invadido”, pontua.

Liane salienta que é de extrema importância que os professores associem os temas que fazem parte do cotidiano dos alunos ao livro didático, ou seja, abordem, por exemplo, os perigos da internet no planejamento das aulas. “Incluir esses temas na sala de aula e trabalhar isso com o aluno é uma necessidade porque alguns pais que não estão nesse mundo virtual, que não estão conectados tanto quanto os filhos não sabem sobre todos esses perigos que a criança corre nas redes sociais. É de extrema importância que a escola e a família dialoguem com foco principal na criança”, enaltece.

Independente da idade do estudante, ela diz que é possível trazer tais temáticas para sala de aula por meio de metodologias, linguagens e abordagens diferenciadas, além de atividades que saiam das paredes da escola. “Temos uma turma piloto que está fazendo, junto às suas famílias, um trabalho direcionado ao bullying, que acontece de maneira recorrente na internet. Já atingimos muitas crianças com esse trabalho porque quando elas abrem o coração, falando o que as magoam, ou quando magoam alguém, elas entendem que estamos lidando com sentimentos, com vidas quando nos relacionamos diariamente”, frisa Liane.

Além de terem como fruto deste trabalho o envolvimento das crianças e adolescentes nos projetos, a coordenadora pedagógica observa como resultado o contato entre os pais, seja por meio de grupos no WhatsApp ou pessoalmente, compartilhando suas preocupações em comum e dialogando sobre os filhos. “As crianças já sentem a segurança de que podem buscar a escola em momentos de medo ou perigo e sabem que daqui terão um retorno esclarecedor, porque a escola tem também a missão de auxiliar a família nesse trabalho”, ressalta Liane.

 

Confiança

Para evitar que os filhos tenham contato com criminosos “camuflados” de boneca Momo, ou mesmo em perfis falsos na internet, não há uma receita pronta ou dicas sobre a mudança de comportamento das crianças e adolescentes que podem demonstrar aos pais que seus filhos estão correndo riscos.

Mesmo que a maioria dos aplicativos apresentem em seus Termos de Serviço a idade mínima para poder utilizar a ferramenta – como o Facebook, permitido apenas para maiores de 13 anos, WhatsApp, para maiores de 16, e Instagram, também para jovens a partir dos 13 -, muitos dos pais e responsáveis desconhecem as regra ou consentem que a criança utilize os aplicativos.

Todavia, as psicólogas da Secretaria de Educação de Marechal Cândido Rondon, Débora Stela Pesavento e Margarete Wissman, enfatizam a necessidade de os pais orientarem os filhos a não exporem informações ou fotos que possam comprometer sua segurança e até mesmo sua vida, bem como a de seus familiares. “É importante fortalecer a confiança dos filhos para com os pais e o diálogo, fazendo com que ele tenha uma proximidade que o permita, quando ele se sente em risco, contar. Se não existe essa abertura dos pais e responsáveis e a confiança do filho, ele acaba seguindo as orientações da pessoa que está por trás desse personagem”, salientam as profissionais.

O vínculo entre pais e filhos, contudo, não deve existir apenas em momentos de perigo eminente, como no caso da boneca Momo, da Baleia Azul, entre outros cybercrimes que têm como vítima as crianças e adolescentes. “É prestar atenção no que a criança está fazendo, assistindo e acessando durante toda a vida. Ter o cuidado e olhar para ela em todos os momentos”, orienta Débora.

Além disso, o vínculo não deve ser apenas de os filhos respeitarem os pais, no sentido de terem medo dos responsáveis, pois em uma situação em que a criança está sofrendo ameaças ou chantagem, ela não irá se abrir para os pais. “Essa proximidade precisa ser construída cotidianamente. Os pais têm que passar uma segurança para os filhos que permita-os falar inclusive sobre seus problemas”, comenta. “Se a criança não sentir essa segurança, ela vai se retrair e não vai falar, porque vai pensar que os pais vão brigar, vão dizer que é besteira ou frescura”, alerta.

 

Negligência emocional

Apesar de existirem sinais que demonstrem que a criança ou o adolescente está passando por algo diferente, que alguma coisa não está certa, Margarete frisa que é difícil de os pais perceberem essas mudanças no comportamento quando, anteriormente, já não existia um olhar para o filho. “Quando a criança se envolve com algo assim na internet é porque ela buscava alguém, buscava atenção porque estava sozinha, negligenciada emocionalmente”, aponta.

Os pais e responsáveis, diz a psicóloga, devem ver os filhos o tempo todo. Se a criança ou adolescente passa muito tempo no quarto sozinha, se estando no mesmo ambiente, os pais não estão vendo o filho, o que ele está fazendo, não estão observando a criança e presente no seu mundo. “Essa negligência emocional é um grande mal. Mesmo os pais estando presentes fisicamente, provendo as necessidades básicas dos filhos, eles não estão fazendo parte da vida do filho. Estão deixando-o sozinho, não estão acompanhando o dia a dia, o que ele faz na escola, o que acessa na internet, não estão conversando. Falta atenção emocional, aproximação entre pais e filhos”, enfatiza.

Margarete diz que se os pais buscarem fazer parte do mundo de seus filhos a criança fará o papel inverso: passará a trazer suas dúvidas, medos, suas necessidades para os pais, sejam coisas boas ou ruins.

Nesses momentos, expõe Débora, é importante que os adultos saibam a forma de abordar os jovens. “Quando há abertura da criança para dialogar, não pode haver uma postura de autoritarismo. É preciso acolher, caso contrário, uma barreira será criada entre pais e filho”, alerta. “É necessário ouvir, acolher, acompanhar o que ela está dizendo e fazendo e dar a correta orientação”, evidencia.

Margarete observa que o posicionamento autoritário pode, inclusive, estimular a criança ou adolescente a buscar um vínculo com os conteúdos perigosos da internet.

 

Restringir ou liberar?

Nenhum. Mesmo com os perigos escondidos atrás de jogos com bonecas, correntes e perfis falsos sendo disseminados internet afora, o posicionamento dos pais e responsáveis quanto ao uso do celular, tablet ou computador não deve ser de total restrição, nem de total liberdade.

Débora diz que, novamente, a chave está no diálogo. “Não é necessário um ‘terrorismo’ falando sobre a boneca Momo ou sobre as outras armadilhas e riscos das redes sociais, proibindo o acesso a tudo, mas mostrar por meio do diálogo que existe uma abertura, que você vai estar ao lado do seu filho aconteça o que acontecer e que você é a pessoa que ele pode confiar”, frisa.

Ela destaca a importância de mostrar aos jovens o acolhimento da família, não apenas falando, mas também por meio de atitudes que podem confiar nos pais. “É preciso deixar muito clara a questão de amor e apoio incondicional para guiar e proteger o filho. Dizer que a criança não precisa ter segredos e que pode confiar nos pais”, salienta a psicóloga.

Se apesar da abertura para o diálogo anda existirem barreiras entre pais e filhos, pela dificuldade dos pais ou da criança, as psicólogas mencionam que a ajuda de um profissional pode ser analisada pela família para auxiliar.

 

Acordo

Margarete cita também a importância de os pais manterem um acordo com os filhos sobre o acesso às redes sociais. “É interessante que a criança não tenha livre acesso, ou seja, que os pais saibam as senhas das redes e que o celular ou computador não seja protegido por senha”, declara.

Ela orienta que antes de o perfil ser criado em alguma rede social, os pais conversem com o filho e firmem o acordo, explicando que a medida é necessária para o cuidado com o que a criança irá publicar na internet. “Não é invadir a privacidade do filho, mas mostrar o cuidado e a preocupação que os pais têm com a criança”, frisa.

Muitas vezes pela ingenuidade das crianças, determinadas fotos e dados publicados nas redes sociais podem ser usados para chantageá-las ou colocá-las em risco, além de muitos criminosos utilizarem a internet para a prática da pedofilia. “Os pais precisam deixar claro que é para segurança, não para reprimir ou invadir, mas, sim, para caso tenha algo de errado, alguma foto que a criança postou e que não é legal, que chame, explique e apague, evitando a exposição e o risco”, pontua a psicóloga.

Ela afirma que esse posicionamento faz com que as crianças e adolescentes também sintam-se importantes e protegidos pelos pais, auxiliando ainda mais a abrir a porta do diálogo. “Sabendo dessa preocupação e acompanhamento dos pais, ela se sentirá cuidada e protegida e quando existir alguma ameaça externa, quem ela vai buscar primeiro serão os pais”, finaliza Margarete.

 

 

*Nome fictício para preservar a identidade da fonte

 

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