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Um toque que pode mudar tudo

calendar_month 10 de outubro de 2017
7 min de leitura

Vinte e nove anos, nenhum caso de câncer, nem de mama, nem de nenhum outro tipo na família. Nessa idade e nessas condições de histórico familiar, encontrar um nódulo no seio esquerdo assusta – e muito – qualquer mulher. E foi com a dúvida de não saber o que tinha acabado de encontrar em seu corpo que Veruska Lopes, hoje com 32 anos, começou uma jornada de transformação em sua vida.

Incentivada pela campanha que move toda a comunidade em outubro sobre a realidade do câncer de mama e a importância do diagnóstico precoce, em dezembro de 2013, durante um autoexame, Veruska sentiu algo diferente em um dos seios. “Logo que apalpei o seio esquerdo senti um caroçinho. Na hora achei que era coisa da minha cabeça, mas meu marido também sentiu que era um caroço e que não estava normal”, conta.

Pelo exame de toque, tanto o ginecologista que já acompanhava Veruska quanto outros profissionais que a atenderam acreditavam que o problema se tratava de uma glândula inflamada, porém, foi com a ultrassonografia que o nódulo foi confirmado. “Como não sabíamos se era benigno ou maligno, já fui encaminhada para o oncologista para fazer a biópsia. Alguns dias depois recebi o resultado e meu médico já me alertou para que eu me preparasse psicologicamente. Como eu era muito nova e não tinha filhos, pois era casada há somente um ano e meio, ele me explicou sobre todo o tratamento e as probabilidades de futuramente eu não conseguir ser mãe e que eu teria 90% de chances de precisar de quimioterapia”, relata. “Mas desde aquele momento, por mais difícil que fosse o processo, eu tinha comigo que eu faria um tratamento e não teria mais a doença”, complementa. 

Depois da cirurgia que retirou um quadrante da mama, Veruska passou para as oito quimioterapias e 32 radioterapias que totalizaram quase um ano de tratamento. “Todo mundo que passa por isso e quem acompanha sabe que é muito difícil. Não só o fato de passar pela doença, mas tudo o que ela traz, as consequências. Você hoje está com cabelo e no outro dia está sem”, pontua.

Apesar dos pensamentos positivos para que o cabelo não caísse, o próprio médico da maranhense que vive há seis anos em Marechal Cândido Rondon alertou que, 15 dias após a primeira quimio, os fios iriam começar a cair. “Eu ficava contando os dias, uma semana, dez dias. Quando eu acordei no 15º dia eu olhei meu travesseiro e tinha aquele monte de cabelo. Eu passava a mão pelo cabelo e ele saía todo. E foi quando eu raspei”, comenta, dizendo que dar adeus às mechas foi fácil comparado a perder os cílios e as sobrancelhas. “Minhas unhas todas caíram, tanto das mãos quanto dos pés. Tive alergias nas quimios brancas e nesse processo todo eu engordei cerca de 20 quilos por conta da retenção de líquidos. Houve momentos que eu nem conseguia andar por conta do inchaço”, menciona. “Quando você vê a sua saúde faltar, você vê como é difícil. Você pode ter dinheiro, fama, o que for, mas se não tiver saúde, você fica de mãos amarradas”, salienta.

Nos momentos em que estava bem, no entanto, Veruska conta que não deixava de sair e realizar alguma atividade, ressaltando a importância que a família teve em todo o processo. “Minha família foi muito presente. Meu esposo foi um companheiro sem explicação. Nos dias que eu estava desanimada, ele me dava muito apoio. As radioterapias foram muito difíceis ao ponto de eu não querer mais ir para o tratamento, mas ele me levava e me trazia, me dando muito apoio. As pessoas que estão ao nosso redor ajudam muito. Os amigos e a família que incentivam a gente a seguir até o fim”, ressalta.

 

Aprendizado

Veruska diz que passar pelo tratamento mudou sua visão perante a vida. “Quando estamos bem de saúde nem sempre nos importamos tanto com as pequenas coisas, e isso muda quando você passa por um processo como esse. Mesmo agora que eu terminei meu tratamento, preciso trabalhar a minha mente todos os dias, porque não é que eu fiz um tratamento que deu certo e eu tenho que esquecer e que isso nunca mais vai acontecer”, explica.

Assim como outras pessoas que venceram o câncer, a rondonense também está na “zona de risco”, que perdura pelos primeiros cinco anos após o fim do tratamento com a possibilidade de que o câncer volte. “Faço acompanhamento de seis em seis meses e na semana que faço os meus exames fico uma pilha de nervos, com a dúvida se estou bem ou não. Neste processo fico sabendo sobre várias pessoas que estão fazendo o tratamento de novo ou de alguém que partiu, o que mexe muito comigo”, expõe.

Logo no fim do tratamento, Veruska relata que teve dificuldades em fazer planos futuros, ainda que em curto prazo, porém, uma das conversas que teve com seu médico a marcou de tal forma que ela leva a frase até hoje consigo. “Ele me disse: viva cada dia de uma vez, não pense no amanhã, pense no hoje. Isso tudo porque estava sendo complicado voltar à minha rotina, planejar meus dias, deixar de ter medo. Acho que de todo o tratamento, a fase mais difícil foi depois, de começar a me adaptar novamente ao meu dia a dia, porque o nosso psicológico é algo muito forte”, descreve.

 

Mudanças

Aos poucos, Veruska foi tomando as decisões que precisava para criar uma rotina, desde as mais simples, como voltar a trabalhar e estudar, às mais desafiadoras, como voltar a se planejar, fazer um acompanhamento nutricional para voltar ao peso que tinha antes do tratamento e fazer atividades físicas. “Quando terminei o tratamento, eu dava uma volta no condomínio onde eu morava e subia as escadas para o meu apartamento às vezes chorando, porque não conseguia caminhar”, enfatiza.

Agora, um ano e dois meses depois de fazer as mudanças em sua rotina, Veruska diz ser gratificante poder acordar cedo para fazer suas corridas, pois lembra que no início nem conseguia se levantar do chão sem ajuda após uma série de abdominais. “Quando você passa por tudo isso, você aprende a dar valor a cada dia, a organizar melhor a sua vida. Você aprende que se você acorda todo dia e está bem de saúde, não há motivos para reclamar da vida, mas, sim, para correr atrás e tentar mudar o que não está bom”, enaltece.

Confira a matéria completa na edição impressa desta terça-feira (10).

 
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