O Presente
Marechal

A carta do adeus

calendar_month 8 de dezembro de 2017
8 min de leitura

Vivemos na corda bamba da vida. Não podemos esperar demais, pois o amanhã pode nem chegar, mas também não podemos ser tão imediatistas e deixar a vida nos levar, sem planejamento, metas e tentativas de ser melhor a cada novo dia. A vida é rara. Num piscar de olhos já não temos mais a oportunidade de dizer que amamos aquele que estava ao nosso lado. Tudo passa, passa rápido demais. Por isso não devemos perder tempo alimentando rancor, sentimentos que não agreguem nada ao nosso coração, e mais, não podemos deixar de viver e ser o melhor que podemos ser.

A passagem acima, além de uma reflexão, é também uma homenagem àquela que foi sinônimo de perseverança, força e otimismo até mesmo nos dias mais escuros de sua vida: Martha Bauermann. No último domingo (03), a comunidade rondonense recebeu com tristeza e pesar a notícia do falecimento dela, que estava internada no Hospital Rondon, onde recebia os cuidados da equipe médica e acompanhamento de familiares e amigos próximos.

Conhecida e reconhecida em Marechal Cândido Rondon, Martha era casada com o empresário Iomar Bauermann e mãe de dois filhos. Com atuação expressiva na comunidade, a partir de projetos sociais encabeçados pelo Lions Clube, entre outras atividades desenvolvidas, Martha também foi apresentadora do Canal 10 por alguns anos e atuou como empresária, à frente da Escola Kumon.

 

As últimas linhas da vida

Há cerca de dez anos, Martha descobriu que tinha câncer de mama, e nos últimos três anos a doença progrediu e agravou o estado de saúde da professora. Aí começava, de forma mais intensa, uma árdua luta contra a doença.

Contudo, o diagnóstico nunca abalou a perseverança da rondonense, que, além de tudo, sempre confiante e otimista, participava de campanhas de combate ao câncer e fortalecia mulheres que passavam pela mesma situação que ela. Esse era o perfil de Martha: solidário, alegre e forte, sinônimo de admiração. Sentimento este que foi fortalecido diante de uma daquelas que pode ter sido uma das últimas atitudes de Martha: uma carta deixada aos amigos e familiares.

Escrita nos últimos dias de vida da rondonense, a carta traz, além de agradecimentos, também reflexões. Verdadeiras experiências e batalhas de quem vivenciou uma luta incansável pela vida. “A respeito da doença, lutei intensamente, combati bom combate, mas nem sempre lutar significa vencer. Muitos poderão dizer que fui cedo, mas o tempo que vivemos não significa o quanto vivemos. Viver é um desafio, viver é para os fortes”, escreveu na carta.

A mensagem deixada pela rondonense foi lida durante a celebração antes de seu enterro e comoveu a todos presentes, principalmente os familiares. Escrita em segredo, o próprio marido de Martha tomou conhecimento da carta apenas momentos antes da celebração. Comovido, ele buscou a reportagem de O Presente para trazer a público as palavras da esposa. Segundo ele, a carta foi escrita com a ajuda de uma amiga de Martha, já que ela estava com dificuldades em alguns movimentos, principalmente nos braços e pernas. A amiga, inclusive, foi quem entregou a carta para Iomar.

Ele conta que quando ouviu a leitura da carta durante a celebração, não restou dúvidas: foi Martha quem a tinha escrito. O objetivo? Iomar acredita que foi uma forma dela fazer com que amigos e familiares soubessem o que estava sentindo quando estava partindo. “A Martha sempre foi uma pessoa muito organizada, de pensar à frente. Inclusive, ela me cobrava muito de coisas que às vezes fazia sem pensar porque ela tinha sempre um planejamento”, comenta.

 

Leia a carta na íntegra:

“O que é a vida diante do viver, se no final desse plano tudo acabará assim: apenas um corpo dentro de um caixão. Que sentido teria senão fossem as lembranças e a saudade que deixamos para nossos queridos familiares e amigos.

Sou grata a Deus por tudo o que me deu, especialmente a família, dois filhos e tive o privilégio de ver o filho do meu filho, minha amada neta Maria Clara. E, então, penso em quantos que não chegam sequer à infância. Com isso, vejo que fui muito abençoada. Fiz do meu trabalho parte da minha vida e digo que foi uma parte muito gratificante, com o trabalho vem a dignidade.

Viver é uma meta, viver é vencer, vencer todos os dias amando e compartilhando daquilo de melhor que Deus colocou em nós.

A humildade e a simplicidade devem ser o foco de nossas vidas, pois sem elas não conseguimos interagir com nossos mais profundos sentimentos. A humildade nos edifica diante de qualquer situação, nos põe maiores. A simplicidade nos purifica e nos faz humanos.

Cuidem de suas crianças, cuidem de seus pequenos, amem suas crianças, eduquem, observem e vejam o que suas crianças precisam, e falem a elas com amor, pois vocês são responsáveis pelo seu amanhã.

Tive uma vida intensa, sei que deixei muitas coisas boas, fiz discípulos e essa certeza tenho, pois sei que muitos dos meus sonhos não irão comigo, pois deixei aqui pessoas para realizá-los por mim.

A respeito da doença, lutei intensamente, combati bom combate, mas nem sempre lutar significa vencer. Muitos poderão dizer que fui cedo, mas o tempo que vivemos não significa o quanto vivemos. Viver é um desafio, viver é para os fortes.

Queria realmente ficar mais por aqui, pois muitos planos eu ainda tinha, mas a morte não respeita nosso querer viver. Todos aqui estarão onde eu estou agora, então pense nisso! Não importa o que tenha ao seu redor no dia de sua partida, ainda assim você será um corpo dentro de um caixão!

Agradeço a todos que estiveram ao meu lado e que nesse momento devem estar apoiando a minha família. Agradeço a todos pelas incansáveis orações. Peço orações para minha família, pois sei que ela irá precisar.

Para encerrar, meus filhos Hique e Rafa, presentes de Deus para mim, amarei vocês eternamente. Meu esposo, Iomar, se ficou até o fim é porque lutou comigo, e sua batalha foi árdua, eu te amei muito!”.

 

O alerta

Iomar conta que Martha descobriu o câncer ainda no início, e que por isso superou bem a notícia, transmitindo à família que não estava doente, sendo apenas uma fase e que ela iria ficar bem. Entretanto, há cerca três anos e meio, o médico de Martha alertou Iomar sobre o estado de saúde da esposa, dizendo que o problema era mais grave. “Daí em diante percebemos a gravidade do problema dela. O médico, na época, achou que ela teria no máximo mais seis meses de vida. Neste momento percebi que ela precisava, além de ajuda, também e principalmente de força, por isso fiz de conta que não sabia da gravidade do problema”, relata.

Ele em nenhum momento falou sobre o alerta do médico com alguém, nem mesmo para a sua família. “Fiz isso para que as pessoas não vissem ela como uma pessoa que estivesse condenada. Quando alguém me perguntava como ela estava, sempre respondia que estava bem. Nem mesmo para meus filhos eu falei sobre a real situação, apenas disse que a mãe deles precisava de bastante ajuda”, conta, acrescentando: “Porém, nos últimos meses não tinha mais como esconder, até mesmo porque ela estava perdendo os movimentos e precisava do auxílio da cadeira de rodas”.

 

Sinônimo de perseverança

O apoio de todas as pessoas que estavam próximas à Martha foi essencial para que ela lutasse com perseverança durante esses dez anos. “Cada palavra de apoio ou uma oração era uma forma de motivação para ela, e essa perseverança era a retribuição de toda a força recebida através dessas pessoas”, relata Iomar.

Nos últimos dias de vida, ele comenta que a esposa estava cansada. “Embora tentássemos motivá-la, ela por várias vezes disse estar cansada e percebeu que estava sendo vencida, mas mesmo assim não desistia. Ela sempre enfrentou os problemas com otimismo e permaneceu sorrindo até o final”, declara.

Aos olhos de Iomar, a Martha mãe, esposa e profissional sempre conseguia ter domínio sobre diversas situações, nutrindo uma preocupação muito grande com sua família. “Ela, por exemplo, sempre fazia a programação das viagens da família, e a gente vai se acostumando com isso. Sempre sabíamos que tínhamos alguém que estava preocupada e já havia pensado em tudo”, menciona.

Emocionado, Iomar ainda descreve a esposa como uma pessoa completa. “Estes mais de 31 anos de casados foram perfeitos. Tivemos crises como qualquer casal, mas nada grave. Ela sempre foi o alicerce da nossa família”, finaliza.

 
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