Não há dúvidas: a cerveja é uma das bebidas mais consumidas e apreciadas em todo o mundo. Desde os países mais frios até as regiões tropicais, ela está presente em bares até as mais diversas comemorações, sejam elas casuais ou formais.
Outra verdade é que o mercado cervejeiro continua se desenvolvendo e satisfazendo os inúmeros amantes da bebida. Na esteira dessa expansão, a difusão da cultura das cervejas especiais tem atraído cada vez mais a atenção do consumidor e levado pequenos produtores a investir no setor. É o caso do professor rondonense Affonso Celso Gonçalves Junior, que desde 2015 fez da fabricação de cervejas artesanais o seu principal e mais apaixonante hobby. Paixão esta que, por sinal, tem nome e um espaço físico: a Cervejaria Encruzilhada.
O rondonense é o exemplo de que toda grande cervejaria artesanal nasce das panelas, pelas mãos de um cervejeiro caseiro, muitas vezes motivado apenas pelo entusiasmo. Com o tempo, a tendência é que esse homebrewer busque aperfeiçoamento através de cursos, leituras e, principalmente, muitas brassagens. E aí, então, invista naquilo que passa a ser um estilo de vida. Affonso, que iniciou a produção de cervejas em panelas, na garagem de casa, resolveu criar um espaço adequado para a fabricação de suas cervejas, e o ambiente escolhido, muito característico, foi um contêiner.
A ideia de montar o contêiner surgiu na tentativa de unir o útil ao agradável. “Nós queríamos ter um local específico para poder degustar (cervejas) na nossa casa e também para poder produzir a cerveja sem que desse sujeira, porque fazendo dentro de casa sempre acaba sujando o ambiente”, comenta Affonso.
A partir disso, e com um espaço amplo “sobrando” nos fundos da residência, começou a ser montado o contêiner. “Pensamos em aproveitar melhor esse espaço para poder fazer um bar, um pub, e desenvolver nossa própria cerveja. Então fizemos a planta, compramos novos equipamentos e começamos a desenvolver a cervejaria”, revela o rondonense.
Além do lugar específico para produção de cerveja, com todos os equipamentos necessários para a brassagem, a “Beer home”, como é chamada por Affonso, abriga também um aconchegante e charmoso ambiente para a degustação das cervejas produzidas. “Eu iniciei fazendo a brassagem em panelas, e o que mudou agora é que eu comprei uma panela automatizada, com volume equivalente, mas sistema totalmente automatizado. Isso facilitou bastante já que estou fazendo o processo de fabricação sozinho. Você não tem tanto trabalho braçal, economiza tempo e mantém a qualidade ou até melhora”, afirma.
Beer Fusca
Mas a inovação não parou por aí. De uma união de paixões nasceu a mais recente criação do cervejeiro rondonense: o Beer Fusca. O veículo, que historicamente é clássico e de grande personalidade, ganhou ainda mais criatividade ao receber em sua lataria externa uma torneira de chope. Isso mesmo, você não leu errado! E para completar o curioso e original projeto, os bancos traseiros do veículo deram lugar a cilindros de gás, chopeiras e suportes para barris de diferentes tamanhos.
“Sempre quis ter um carro um pouco mais antigo. Estava pensando em comprar uma Kombi ou um Fusca e surgiu esse (Fusca) exatamente do jeito que eu queria”, conta Affonso, explicando que quando foi buscar o Fusca, comprado em Medianeira, ainda não tinha ideia de transformar o veículo em uma cervejaria sob quatro rodas. “Mas, logo depois, eu comentei com a minha esposa, Rosmarina, que poderíamos furar e colocar a torneira e a chopeira. Pensamos em fazer algo bacana, que não tirasse a originalidade do veículo, e deu certo”, comemora. “Ficou um projeto bem ousado e na região ainda não vi Fuscas desse tipo e estilo”, frisa.
Após efetivar a ideia, levou em torno de 60 dias para o Beer Fusca ficar pronto. Os últimos detalhes, inclusive, foram finalizados na semana passada e a inauguração coincidiu com a realização desta reportagem. “Dependeu de muitos serviços especializados. Foi preciso furar, colocar a torneira, fazer a parte toda de tubulação e depois fazer o sistema de tapeçaria para adaptar os equipamentos dentro do Fusca”, detalha Affonso.
E falando em adaptação, ela é a palavra-chave para a construção desse inovador e ousado projeto. “É bom salientar porque é preciso ter uma adaptação para colocar barris de 10, 20, 30 litros, barris convencionais ou do tipo slim, que são mais finos”, menciona o rondonense. “Tomei esse cuidado e mantive a originalidade porque eu posso tirar todo o sistema de dentro e manter o banco original para transportar cinco pessoas normalmente. Única coisa que vai ficar fixa é a torneira para o lado externo, mas que não atrapalha em nada e nem provoca nenhum tipo de transtorno”, complementa.
Entre as ideias para utilização do Beer Fusca está a reunião de amigos e familiares em confraternizações. “A ideia é para quando reunir amigos em um churrasco, por exemplo, encostar o Fusca e degustar o próprio chope. Mas se alguém precisar para festivais estou disposto a levar para as pessoas conhecerem”, informa Affonso.
E a escolha do rondonense para inaugurar a criação foi uma cerveja do estilo witbier. “Uma cerveja belga, com um malte base misturado a um malte de trigo. É uma cerveja com bastante aroma, refrescante e de um amargor mínimo, com nível 10 de IBU (escala de amargor)”, explica.
Affonso ainda pontua que uma cerveja desse estilo, além do malte base, precisa ter em sua composição a casca de uma fruta cítrica (na receita foi usado limão siciliano), sementes de coentro moídas e outros ingredientes à escolha do cervejeiro. “Você pode escolher alguma outra especiaria. Eu, por exemplo, faço dois estilos diferentes de witbier. Algumas vezes uso a hortelã, além de tudo que já citei, e outras vezes o manjericão”, comenta.
E a curiosa criação de Affonso já rendeu alguns fatos inusitados. “Há alguns dias, o Fusca estava estacionado em um lugar da cidade e alguém tirou uma foto e mandou em um grupo de amantes de Fuscas e carros antigos, e essa foto chegou para mim e quando olhei vi que era o meu Fusca”, diz.
Affonso também desperta atenção com o veículo na universidade na qual trabalha. “Quando vou para o meu local de trabalho, dar aulas e fazer pesquisa, ao sair sempre tem pessoas em volta que começam a questionar. Ficam curiosos. Mas cabe salientar que eu nunca levo chope para a universidade”, brinca o rondonense.

Affonso e a esposa Rosmarina (Foto: O Presente)
Paixão tem preço?
Para o rondonense a reposta é certeira: não. “Se for mensurar aquilo que se gosta, como é o caso do contêiner e do Fusca, e botar na ponta do lápis, não faria isso. Mas é uma paixão, e quando você vê tudo funcionando do jeito que queria, com capricho, esmero e cuidado, é algo que não tem preço”, afirma.
Affonso também analisa que valor está de acordo com cada paixão. “Uns gastariam menos e outros gastariam mais. Mas cada um dentro do nível de paixão que tem pelo assunto, seja de carro antigo, cervejaria e afins”, salienta.
Consciência
Apesar de apreciarem a degustação, Affonso e a esposa se consideram mais “caseiros” e não gostam de ir para bares. “A ideia sempre foi degustar cervejas em casa, porque hoje é muito arriscado. O pessoal às vezes sai, bebe, pega o volante e isso não é legal. A gente não concorda com isso. Mesmo quando participamos de festivais de cerveja ou saímos para fazer degustações em outras cidades, optamos por dormir naquela cidade e utilizar sistemas como Uber e similares para não dirigir quando ingerimos bebida alcoólica”, ressalta o rondonense.
Cervejaria Encruzilhada
Uma decoração forte e personalizada com caveiras e muito rock and roll saltam aos olhos (e ouvidos) de quem conhece o “Beer home”. Trazendo como símbolo principal da cervejaria Encruzilhada, inclusive nos rótulos, as caveiras e a prevalência da cor preta conferem estilo e personalidade ao ambiente.
E enquanto alguns veem esse estilo com maus olhos, associando à negatividade, Affonso destaca que desde o nome da cervejaria até a sua personalização remetem a questões significativas e simbólicas para ele. “Diariamente nós precisamos tomar decisões e elas podem ser simbolizadas por uma encruzilhada, ou seja, nós temos diversos caminhos para seguir e precisamos definir isso diariamente, tanto na nossa vida pessoal quanto profissional. Por isso pensei em um nome simbólico, que trouxesse isso à tona, e então coloquei “Encruzilhada”, devido às diversas decisões que temos que tomar diariamente durante a nossa existência terrena”, revela.

Além do lugar específico para produção de cerveja artesanal, a “Beer home” abriga também um aconchegante e charmoso ambiente para degustação das bebidas (Foto: O Presente)
Atenção aos detalhes
O cuidado e a preocupação de Affonso com cada detalhe vão desde o espaço de fabricação até a hora do consumo das cervejas. “Apesar de não sermos uma cervejaria comercial, eu e minha mulher somos muito cuidadosos com isso. Tomamos cada estilo de cerveja no seu copo apropriado. Temos esse cuidado e isso em cada momento de hobby”, conta, dizendo ainda que dispõe de uma coleção de copos para cada estilo de cerveja. “Isso conserva o amargor, o sabor e demais características de cada cerveja”, enaltece.
Além disso, a personalização dos ambientes, tanto do Beer Fusca quanto da Beer home, demonstra o carinho e a paixão com a produção de cerveja artesanal. “Gostamos de ter a marca forte, a camiseta, os copos, a personalização, os banners, as bandeiras, tudo é um cuidado pessoal, sem cunho comercial”, reforça o rondonense.

Bancos traseiros do veículo deram lugar a cilindros de gás, chopeiras e suportes para barris de diferentes tamanhos (Foto: O Presente)
Chance de negócio
Affonso revela que já foi convidado por algumas cervejarias artesanais comerciais para fazer cervejas colaborativas. “Já me convidaram para eu fazer meus rótulos na forma colaborativa para que fossem colocados à venda. Estou pensando no assunto”, expõe, acrescentando que não descarta a possibilidade de, em um futuro próximo, abrir sua própria cervejaria. “Depois que eu me aposentar da profissão”, esclarece.
Alma do cervejeiro
Começar a degustar cervejas artesanais é sentir um paladar e aroma diferentes. Depois da primeira vez, afirma Affonso, cria-se uma paixão sobre isso. “Eu comecei degustando e logo depois tive vontade de fabricar a própria cerveja. Fui atrás de equipamentos, de como montar uma pequena cervejaria caseira, de início”, relata.
O processo começou lento, com a reunião de amigos que começaram a fabricar cerveja em grupo. “Começamos a produzir nossa própria receita, só que fazer em um grupo grande foi se tornando difícil, pois cada um tem compromissos pessoais e profissionais. Então eu comecei a fazer sozinho. Sou eu quem cria todas as minhas receitas, não copio nenhuma receita pronta. Quando necessário pego dicas com amigos, como combinação de lúpulos e maltes. É uma troca de ideias constante, mas todas as minhas receitas são próprias”, salienta o cervejeiro.
Para degustar uma cerveja, Affonso enumera algumas questões primordiais. “É preciso estar aberto a novos aromas, paladares, tentar sentir. Tem a percepção sensorial para saber que tipo de lúpulo está sendo usado para dar o amargor, o sabor e o aroma característico. Saber a base da cerveja, se é mais maltada ou não. Se aquilo remete a sabores frutados, cítricos ou herbais. Isso é uma degustação”, garante.
Tomar pequenas quantidades, mas com uma percepção sensorial mais aguçada é, de acordo com Affonso, o suprassumo do cervejeiro. “A gente acaba perdendo a vontade de tomar cervejas comerciais, mas isso não quer dizer que deixamos de ingerir, como, por exemplo, em uma festa. Porém, quando se tem a opção sempre se opta por tomar cervejas de melhor qualidade, lembrando sempre do lema ‘beba menos, mas beba melhor e com qualidade’. É importante sempre prezar pela qualidade e nunca pela quantidade”, lembra.
Ele conta que todo dia degusta uma ou duas cervejas artesanais, mas em pequenas quantidades, sentindo os aromas e as sensações. “Não é ser aquela pessoa que senta e toma uma caixa de cerveja. É uma lata, onde você percebe o aroma, a qualidade da cerveja e sempre tenta entender a alma do cervejeiro que está por trás daquela criação”, enfatiza, emendando: “Todo cervejeiro deixa sua marca, seja pelos ingredientes ou até pela personalização. Deixa um estilo impresso naquilo que está produzindo”.
Nova paixão nacional
Há poucos anos, as cervejas artesanais que podiam ser encontradas no país eram tão somente as belgas e alemãs. Esse cenário está completamente mudado, e o país, de Norte a Sul, vem crescendo na produção desse valioso item.
Conforme Affonso, nos últimos dez anos o crescimento foi muito intenso e hoje a cena está posta. “A cerveja artesanal é uma realidade e as grandes cervejarias estão tentando comprar e ‘engolir’ essas cervejarias artesanais porque mesmo vendendo menos o valor agregado é muito grande, e as pessoas estão seguindo o lema de ‘beber menos, mas beber melhor’, isto é, preferem pagar R$ 40 ou R$ 50 em uma lata de boa qualidade, do que tomar cinco ou seis cervejas comerciais comuns”, ressalta.
O rondonense destaca que a cena cervejeira começou a crescer a partir de 2010 em algumas regiões do país, sendo que o Paraná está entre os Estados que mais se destacam na produção de cerveja artesanal. “Estão se tornando competitivas. A fatia do mercado de cervejarias artesanais está competindo de forma acirrada com as cervejas comerciais de grandes marcas”, assinala.
Diante desse crescimento, a perspectiva de Affonso é inovar ainda mais no preparo das cervejas artesanais. “Agora já estamos pensando em fazer cervejas com morangos para ter para todos os estilos. Às vezes, conforme o paladar, as pessoas não gostam muito de uma amarga e cítrica, mas, sim, de uma frutada. Além disso, também pretendemos fazer uma cerveja de framboesa”, finaliza.
O Presente