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Marechal

Corte de árvores volta à pauta

calendar_month 23 de junho de 2017
17 min de leitura

O desenrolar do projeto de revitalização da Avenida Rio Grande do Sul, em Marechal Cândido Rondon, entra novamente em um antigo e polêmico capítulo: a supressão das árvores.

Apesar de o tema já ter sido motivo de audiência pública em 2016 e de a comunidade que participou do ato ter sido contra o projeto inicial – que previa a retirada total das árvores no canteiro central da via, desde a Rua Independência até a Rua Helmuth Koch, com o plantio de arbustos até a Rua Rogério Valter Grum e, no restante, a implantação de uma ciclovia -, uma nova audiência pública para debater o assunto foi marcada para o dia 05 de julho.

De acordo com o secretário de Coordenação e Planejamento, Reinar Seyboth, o objetivo da audiência é deliberar com a comunidade sobre as modificações no canteiro central, especialmente entre as ruas Rogério Valter Grum (Cantinho do Peixe Frito) e Helmuth Koch (Supermercado Copagril). “No início da gestão, provocamos uma reunião com o Conselho Municipal do Meio Ambiente e ficou acordado que do Peixe Frito à Copagril, onde está prevista a ciclovia no canteiro central, seriam retirados os flamboyants e permaneceriam os ipês, o que foi executado em meados de fevereiro”, descreve.

A retirada das árvores de grande porte deu-se pelo fato de até mesmo o próprio Conselho Municipal do Meio Ambiente verificar que as raízes das plantas estavam prejudicando o passeio público, a via de rolamento e parte do meio-fio.

Agora, entretanto, o problema é outro. Com a movimentação de terra que houve por conta da retirada dos todas raízes e na lombada de terra que existe no canteiro central, Seyboth explica que há possibilidade de a obra afetar os ipês que restaram. “Com exceção de algumas unidades ao longo desse trecho, essas árvores possuem um porte pequeno, e por mais que tenham sido plantadas em 2008, elas tiveram um desenvolvimento aquém do que deveriam porque havia um conflito, uma disputa de espaço entre ipês e flamboyants”, justifica.

Ele explica que, considerando o projeto para a implantação da ciclovia no local, há possibilidade de a movimentação de terra afetar ainda mais o desenvolvimento dos ipês. “Queremos discutir com a sociedade qual seria a melhor alternativa. Teremos dificuldade de executar a ciclovia com as árvores da forma como estão, correndo o risco de machucá-las”, enaltece.

 

Mar de concreto?

A possibilidade da retirada do verde que restou em pé na Avenida Rio Grande do Sul abriu novamente as portas para o debate: de um lado estão aqueles que defendem a adequação do projeto às árvores, para que elas não sejam retiradas, afinal, foram plantadas há menos de dez anos a partir do projeto “1 Árvore por Habitante”, desenvolvido em 2008 pela Associação Comercial e Empresarial (Acimacar) e a Itaipu Binacional, promovendo o plantio de 40 mil ipês no município. De outro lado estão aqueles que apoiam a repaginação total da via, com a retirada de todas as plantas. “Nós não queremos ir lá e simplesmente retirar as árvores. Queremos fazer um novo plantio, com espécies que se desenvolvam corretamente, que sejam plantadas no espaçamento correto, mas queremos fazer isso ouvindo a comunidade”, frisa o secretário. “Se eventualmente acontecer a remoção de alguma árvore, será feito o replantio de outra. Não queremos acabar com as árvores, queremos nos antecipar para que daqui cinco anos não tenhamos o problema que hoje nós temos”, complementa.

Seyboth diz que a remoção gradativa e não total das plantas para o replantio é uma das opções, priorizando a retirada das árvores que apresentam risco, como aquelas de maior porte, com copas muito altas. “Muitos munícipes questionam a real situação dessas árvores, inclusive em relação à estética da avenida, então se ela passasse por um processo de rearborização, teríamos uma avenida preservando o verde, mas adaptada às condições da nova iluminação, nova calçada, do novo aspecto da avenida”, reafirma.

Os ipês, que apesar de plantados recentemente tiveram problemas de desenvolvimento por conta de outras espécies que estavam no local, poderiam ser mantidos, conforme o secretário. “Porém, essas árvores estariam no alinhamento dos postes de energia, então seria necessário reformular o projeto, ou diminuir a ciclovia, ou uma faixa lateral, mas entendemos que vai causar danos as árvores”, aponta, emendando: “Para evitar o transtorno, queremos ouvir a comunidade sobre essa retirada e o plantio de árvores de menor porte”.

Por uma solicitação da própria população, que não poderia participar do encontro caso realizado em horário comercial, a audiência pública sofreu alteração de data e horário, ficando marcada para 05 de julho, às 18h30, no auditório Ecos da Liberdade. “A audiência não é para promover a destoca das árvores e manter tudo em concreto. Queremos discutir a possibilidade de uma rearborização ouvindo a sociedade”, reforça.

 

Por outro lado…

O presidente do Conselho Municipal de Meio Ambiente e engenheiro ambiental da Secretaria de Agricultura e Política Ambiental, Marcos Chaves, acompanhou todo o processo de debate para a retirada das plantas, acompanhando o processo de destoca e verificando a real situação das árvores. “Sibipirunas que estavam muito ameaçadas, árvores que estavam no local que seriam colocados postes, ficava inviável deixar a planta no local, mas foi retirado o que era extremamente necessário”, aponta Chaves.

De acordo com ele, durante o processo de supressão, quando era verificada a existência de árvores com qualquer tipo de problema, as plantas também eram retiradas já que a equipe estava no local com as máquinas. “Foi tudo muito bem avaliado e foram cortadas diversas árvores. Na época algumas pessoas reclamaram, mas era necessário. Novas supressões agora precisam ser muito bem avaliadas ou começará a ter um impacto muito significativo”, avalia.

Conforme o engenheiro ambiental, a movimentação de terra e a exposição das raízes dos ipês por conta da implantação da ciclovia, por exemplo, não torna as plantas suscetíveis a problemas como apodrecimento. “Dá pra se conduzir a obra com as árvores. A iluminação alta já havia sido questionada e agora após a implantação vemos que a avenida está bem iluminada. Seria necessário apenas conduzir melhor a poda dessas árvores, mas não vejo motivos para a retirada”, declara.

Para Chaves, cortes, mesmo que com o replantio, neste momento devem ser bem avaliados e a população ouvida, sendo uma possibilidade ao invés do replantio total o uso de uma tecnologia simples, mas pouco comum no Brasil: o transplante de árvores. “É necessário um sistema de estaca para que ela se fixe novamente, mas é possível hoje pegar uma árvore, retirá-la e colocá-la no mesmo local ou em outro, não necessariamente precisando cortar. Muitas cidades grandes e outros países utilizam esse sistema, mas no Brasil infelizmente ainda há uma cultura de que é preciso cortar”, lamenta.

 

Ciclovia no centro

O secretário de Coordenação e Planejamento salienta que, apesar das discussões acerca das mudanças na arborização, alterações na implantação da ciclovia e ciclofaixa que integram o projeto estão “fora de cogitação”. “A ciclovia será implantada no intervalo entre o Peixe Frito e o Supermercado da Copagril. Na região central da cidade, está fora de cogitação, pois precisaríamos passar por uma completa reestruturação do projeto, que já está licitado, e extrapolaria os limites permitidos em termos aditivos, não teria condições de ser executado”, informa.

O projeto prevê a implantação de uma ciclovia bidirecional entre as ruas Rogério Valter Grum e Helmuth Koch. A ligação com o centro será feita por uma ciclofaixa instalada na Rua Santa Catarina a partir da Rua Dom João VI. “Pelo alto tráfego na Avenida Rio Grande do Sul, a região central da via não comporta uma ciclovia”, afirma Seyboth.

 

Corta ou não corta?

Não corta!

A empresária Carmen Zastrow comemora a instalação da ciclovia em frente a sua empresa, já que considera que falta responsabilidade de muitos ciclistas que trafegam em frente a sua loja – muitas vezes na calçada. Todavia, acha que tudo deve ser equilibrado. “Esses ipês foram plantados há poucos anos, então é melhor que encontrem uma forma de realizar a obra sem cortar nenhuma árvore. Vão plantar mudas novas, mas e essas que serão retiradas vão para onde? Não seria necessário cortar, é mais fácil adequar o projeto a árvores que a gente já tem”, opina.

 

Corta!

A vendedora Glaci Grunevald é favorável à retirada das árvores do canteiro central, contudo quer garantir a sobrevivência das plantas que estão no passeio público, que inclusive foram plantadas pela equipe da empresa em que trabalha, localizada na Avenida Rio Grande do Sul. “As árvores do canteiro estão velhas, há anos não mexem nesse canteiro, então seria interessante fazer um replantio, com árvores novas, mas manter as que estão nas calçadas pois plantamos há pouco tempo”, opina.

 

Não corta!

Para o empresário Marcel Buth, que possui uma academia na Avenida Rio Grande do Sul há sete anos, jamais deve ocorrer uma supressão total das árvores do canteiro central. “Antes de retirar seria necessário plantar novas mudas e quando estas estivessem em um médio porte, retirar as antigas. É impossível ficar sem árvores, temos o exemplo da Avenida Írio Welp, que é impossível de andar no verão. A obra deve ser adaptada às árvores”, aponta.

 

Não corta!

Na visão da empresária Liani Bruxel Armanje, os ipês devem permanecer – afinal foram plantados há somente nove anos – e a obra deve seguir se adequando às plantas. “Se eles não se desenvolveram corretamente, também faltou o cuidado necessário, então agora é o momento de começar a cuidar dessas árvores da maneira correta, não arrancar tudo e plantar tudo novo”, menciona.

 

Não corta!

Gitana Peres Peres participa de um grupo de ciclistas, as “Pedalindas”, que praticam o esporte por toda a cidade e também no interior. Ela se posiciona totalmente contrária ao corte das árvores, considerando desnecessário retirar plantas que não estão condenadas do solo. “Temos o exemplo em Quatro Pontes, que ficou uma cidade estranha, eu particularmente não gosto e sem dúvida as minhas colegas que pedalam comigo também se posicionam dessa forma”, afirma, emendando: “A prefeitura deve oferecer um serviço de poda, de retirar uma árvore que apresenta risco, mas retirá-la por retirar, não. Se estão fazendo uma revitalização, revitalizar é dar vida a algo, então como vão tirar as árvores, a vida da rua?”. 

 

O ipê é a melhor opção?

Plantados há menos de dez anos, árvores podem vir ao chão caso proposta de replantio seja aprovada em audiência pública

Falta de água, de adubo, espaçamento incorreto no plantio ou má escolha da espécie? Esses são alguns dos questionamentos que passam pela cabeça dos munícipes desde quando o possível corte das árvores no canteiro central chega à altura da Rua Rogério Valter Grum, no Cantinho do Peixe Frito, onde foram plantadas, em 2008, diversas mudas de ipês.

Na época, já habitavam o local árvores de porte significativo, como as sibipirunas, que foram retiradas no início deste ano tendo em vista o risco que apresentavam – seja pelo enraizamento que chegou ao meio-fio, seja pelo apodrecimento das raízes -, para que o projeto da revitalização avançasse. Por dividirem o espaço com as gigantes, os ipês sofreram para crescerem desde que foram colocadas no solo – mas há quem diga que também faltou cuidado com a planta para que ela atingisse a expectativa de quem a semeou. “Talvez foi um plantio correto acerca da escolha das espécies, mas não foi bem conduzido, ou não teriam tantas árvores doentes hoje”, avalia a técnica universitária que trabalha com tecnologia de sementes e espécies nativas e produção de mudas na Universidade Estadual do Oeste do Paraná (Unioeste), Neusa Michelon Herzog. “Há uma possibilidade menor de árvores condenadas quando há todos os tratos culturais respeitados, menor mortalidade, menor incidência de doenças e não sabemos nem mesmo se a nutrição acontece”, aponta.

De acordo com a especialista, cada espécie de árvore plantada precisa de um bom convívio entre todos os elementos: postes, calçada, trânsito, etc. Para centros urbanos não devem ser colocadas no solo mudas que cresçam muito rápido, por exemplo, por isso ela enfatiza que quando um projeto como este é executado, tudo é preciso ser pensado antes. “Uma pessoa especializada e conhecedora do ciclo biológico da árvore e de todos esses problemas que estão ocorrendo agora deve acompanhar o projeto para prever essas intercorrências no início do projeto”, destaca.

Neusa aponta que alguns problemas vistos nos ipês, como o ataque de formigas, por exemplo, é resultado por ferimentos que não foram tratados corretamente após as podas. “Por outro lado, hoje o Poder Público está bastante voltado a esse cuidado, já que existia a consciência de um engenheiro ambiental ou florestal estar junto na condução do projeto. Antigamente, quem conduzia um projeto como esse não era nem um especialista, na maioria das vezes era um simpatizante político, enquanto que hoje há esse cuidado”, enfatiza.

 

Ideal

Além dos ipês de todos os tipos, que são, sim, indicados para compor a arborização de centros urbanos, Neusa vê boas características de adaptabilidade nas mirtáceas, por serem fortes, resistentes e com densidade alta, bem como na árvore de tamarindeiro. “É uma árvore de porte alto, elegante, de maneira densa, que possui frutos com propriedades farmacológicas e flores pequenas, sendo interessante para a arborização urbana, tendo em vista que flores muito grandes e suculentas podem provocar escorregamentos”, ressalta, emendando: “A produção de frutos também deve ser levada em consideração por conta da avifauna, pois não vivemos sozinhos. Não podemos erradicar um lugar porque visualmente não é bom”.

Ela explica que há diferentes “graus” de crescimento dependendo do tipo da árvore, sendo algumas de crescimento primário, outras secundário e outras terciários, chamadas de pioneiras. “Essas árvores sombram as demais, formando o microclima para então virem às secundárias, que demandam disso que as pioneiras proporcionam”, destaca.

Neusa informa que as árvores pioneiras, que possuem um crescimento rápido, não são interessantes para a arborização urbana porque demandam de podas constantes. A poda fora de época, que acontece quando há falta de conhecimento técnico, acaba condenando as espécies, já que cada uma tem um período correto de poda que precisa ser respeitado. “Tem árvores que quando podadas, sangram muito, perdem muita seiva, e isso as fragiliza muito, deixando-as vulneráveis para a entrada de insetos e aparecimento de doenças. Todos esses detalhes devem ser vistos por um engenheiro ambiental ou florestal, que deve acompanhar esses projetos que impactam na arborização urbana”, menciona.

 

Solução

A solução para situações cotidianas que envolvem a arborização urbana e, como no caso da revitalização, geram embates já poderia ser uma realidade desde 2014. A elaboração do Plano Municipal de Arborização, que deve ser desenvolvido pelo Poder Público, discutido com a população e aprovado pelo Poder Legislativo, foi cobrada pelo vereador Josoé Pedralli há três anos e novamente em 2016, contudo, ainda não chegou nem ao papel. “Através do Plano, é possível conhecer as espécies arbóreas do município e com isso propor medidas necessárias para melhoria da arborização urbana, especialmente aquelas ao lado do sistema viário e nas calçadas”, explica o vereador.

De acordo com ele, a lei serviria para resolver problemas simples, como retirar árvores que apresentam risco ou que foram plantadas incorretamente. “Hoje para retirar uma árvore é preciso da aprovação do engenheiro ambiental da prefeitura, já com o plano, tudo isso estaria estabelecido. No caso de uma árvore plantada no espaçamento incorreto e que tem o desenvolvimento prejudicado por outra, uma poderia ser cortada para dar sequência natural apenas com base no plano”, comenta.

O documento serviria também para regulamentar quais espécies de árvores podem ser plantadas abaixo do sistema de iluminação pública nos novos loteamentos para evitar que a copa cresça significativamente e atinja a rede. “Esse plano terá reflexo em 20 anos, com o objetivo também de preservar as matas. Além de facilitar as podas quando necessário, preservar as árvores, como se fazer trocas, replantios”, aponta.

Conforme Pedralli, na terceira solicitação, feita em 2016, a municipalidade abriu um processo licitatório para realizar uma contagem das árvores que existem dentro do município como forma de iniciar a elaboração do plano. Segundo ele, se o plano já estivesse em vigência, as soluções para problemas como estes que surgiram com a revitalização já estariam previstas. “Na época me falaram que terminando esse estudo eles encaminhariam o Plano Municipal de Arborização e logo no início deste ano eu enviei um requerimento para a Secretaria de Agricultura para que se desse continuidade ao projeto, mas não me posicionaram se ele está sendo continuado ou não”, informa. 

 
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