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Marechal

Guten Morgen, Marechal!

calendar_month 11 de outubro de 2016
9 min de leitura

 

Mirely Lins Weirich/OP

não vem, as aulas continuam sendo ministradas por estagiárias do curso de Letras/Alemão de forma voluntária

 

Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE) destaca, no histórico de Marechal Cândido Rondon, que está é uma cidade tipicamente germânica, onde os traços do povo e as construções enxaimel preservam a cultura europeia. Os livros de história locais também descrevem que os colonizadores, em sua grande maioria, eram de descendência alemã, sustentando a estimativa de que aproximadamente 80% da população atualmente seja desta descendência.

Até hoje o município possui uma forte influência da cultura germânica, demonstrada no turismo cultural, desenvolvido por meio da exploração da influência cultural alemã na colonização inicial do município, caracterizada pela arquitetura, música, danças, gastronomia e bebidas típicas, além do idioma, ainda muito falado entre os mais velhos. Porém, muitas vezes, apenas por eles. Além de Marechal ter todo esse passado de colonização, que implica nas tentativas de manutenção do alemão enquanto herança linguística e cultural, como língua internacional ele potencializa as oportunidades de trabalho e estudo para os jovens no futuro, destaca Elisângela Redel, professora do curso de Letras/Alemão da Universidade Estadual do Oeste do Paraná (Unioeste) e coordenadora do projeto Guten Morgen, Marechal (Bom Dia, Marechal), iniciado neste ano no município justamente por serem apenas os anciãos que mantêm a tradição da língua alemã viva.

Voltado para crianças alfabetizadas entre oito e dez anos, o projeto piloto oferece aulas gratuitas para estudantes de Marechal Rondon e cidades vizinhas, tanto de escolas públicas como particulares, no período da manhã e da tarde, duas vezes por semana. Conforme Elisângela, o formato adotado neste ano objetiva verificar o interesse da comunidade local em relação às aulas da língua alemã, levando em conta que não há, em escolas públicas, o ensino da disciplina. A nossa grande surpresa foi que durante as matrículas o interesse foi muito grande. Como só havia 30 vagas fizemos a seleção por meio da ordem de inscrição e pela avaliação da nota que os estudantes tinham nas disciplinas de português e/ou inglês na escola, mas até hoje temos a procura de pais para matricularem as crianças, enfatiza. O ensino do alemão serve também para verificar as potencialidades que a língua oferece em questão de bolsas de estudo, mestrado, doutorado no futuro dessas crianças, uma outra perspectiva profissionalmente falando, ressalta.

O projeto acontece de forma totalmente gratuita no Laboratório de Ensino de Línguas e o material é fornecido pela Unioeste. Já as aulas são ministradas pelas alunas do curso de Letras/Alemão de forma voluntária, algumas se formando outras cursando o 3º ano, mas todas, conforme a coordenadora, aptas para ministrarem as aulas.

 

Desafio

Além de desejar um bom dia a Marechal Cândido Rondon, o nome do projeto também possui outro sentido. Não só enquanto título, mas também enquanto metáfora: acorda, Marechal, menciona Elisângela.

Segundo a coordenadora, a ideia inicial do projeto seria firmar um convênio junto ao Poder Público para que este desse subsídio ao projeto por meio de bolsas às acadêmicas que ministram as aulas, tendo em vista que a maioria é de outras cidades da região. Contudo, até o momento não conseguimos nem convênio com a prefeitura nem contrato, nenhum tipo de apoio desde o início do curso, lamenta. Quando criamos esse projeto nosso intuito era de que tivesse continuidade nos próximos anos e abranja também outros públicos, como jovens, adultos e pessoas já formadas, por exemplo, complementa.

A coordenadora destaca que o vínculo cultural da língua com o município e a abertura do curso de forma gratuita para a comunidade fizeram com que o projeto piloto voltado ao público infantil desse esperanças aos idealizadores sobre o convênio com o Poder Público rondonense, entretanto, apesar de um interesse inicial de apoio ao projeto, após a apresentação da proposta não houve outro parecer sobre o estabelecimento de convênios. Não faz sentido que uma cidade como Marechal, que estampa como cartão-postal em sua arquitetura, folclore, gastronomia e eventos como a Oktoberfest, não ter nenhum incentivo em relação a políticas linguísticas e de ensino voltadas à língua alemã. Isso não significa que todos devem falar alemão, mas o município, por meio da Secretaria de Educação, precisaria de um posicionamento mais sério e comprometido em relação a isso, opina Elisângela.

A coordenadora do projeto explica que, apesar de tratativas feitas entre da direção do campus da Unioeste e a Secretaria de Educação a resposta máxima até o momento é de que um convênio não poderia ser firmado em função de este ser um ano eleitoral.

Mesmo assim, a coordenadora garante que as turmas iniciadas neste ano seguirão até e serão renovadas em 2017, quando novas classes serão iniciadas caso o interesse da comunidade continue. Além de resgatarmos toda essa parte de ensino de língua alemã que se perdeu e ficou totalmente esquecida, também queremos oportunizar a abertura de campo de estágio, ensino e pesquisa para os graduandos e ampliar a atuação da própria universidade junto à sociedade, destaca.

 

Repasse

De acordo com a coordenadora do projeto, o repasse necessário para subsidiar as bolsas das acadêmicas voluntárias que ministram as aulas do projeto Guten Morgen, Marechal é estimado em R$ 8 mil, sendo que parte desse valor seria também voltado para a compra de materiais didáticos a serem utilizados nas aulas. Esse repasse seria para que as estagiárias tenham uma bolsa para custear alimentação e transporte, levando em conta que a maioria delas vem de fora do município para ministrar as aulas e não tem outro emprego porque se dedicam a esse trabalho, pontua.

Para ela, apesar de muitas pessoas destacarem que o interesse pelo aprendizado da língua alemã já não é tão grande, a procura pelo projeto mostra justamente ao contrário, já que houve uma busca que excedeu as vagas disponíveis. Muitas crianças também vêm com uma noção de algumas coisas, porque já têm contato com a língua em casa, com os avós ou com os pais, então há toda uma relação identidária que precisa ser valorizada e, quando não é, acaba se perdendo, diz.

Este é o caso da Sarah Hort e do Vitor Hugo Freitag, que participam do Guten Morgen, Marechal. Sarah conta que nasceu na Alemanha e veio para o Brasil com seis meses e, até os dois anos, a língua alemã era a única que queria falar. Quando ia para a escolinha eu tampava os ouvidos porque não queria ouvir nada em português, mas depois que aprendi não falei mais alemão e agora estou voltando a falar, conta.

Para ela, a importância do projeto Guten Morgen, Marechal é para ensiná-la aprender a língua para quando visitar a cidade em que nasceu e conhecer a língua-mãe. E também para entender as conversas dos meus pais, porque quando eles querem conversar alguma coisa que a gente não pode ouvir eles falam em alemão, brinca.

Já Vitor nunca foi para a Alemanha, mas seu pai, que já esteve no país, prometeu para o pequeno uma viagem para ver a neve, e é isso que o motiva a aprender. Fui criado com os meus avós e eles falam praticamente tudo em alemão. Então aprendi algumas coisas, mas falo e entendo ainda bem pouco. Acho importante o projeto porque aprender outras línguas é bem legal, pois quando eu viajar para lá já vou saber falar, diz.

 

Política linguística

A lei municipal nº 3.922, de julho de 2008, autoriza o município de Marechal Cândido Rondon a implantar na rede municipal de ensino a disciplina de língua alemã, além da abertura de concurso público para professores. Na opinião da coordenadora do projeto Guten Morgen, Marechal, Elisângela Redel, este fato enfatiza a incoerência das políticas linguísticas voltadas à língua alemã no município. Existe uma lei que prevê a oferta do ensino da língua alemã nas escolas e concurso público para professores, mas mesmo assim não há iniciativa, não há política linguística voltada à língua alemã aqui, pontua.

De acordo com ela, o que se tem feito em Marechal Rondon é voltado ao turismo e arquitetura, porém relacionado à língua, que segundo ela é o principal fator de manutenção de uma cultura, está sendo deixado de lado. Aqui se fala muito na implantação do ensino integral e, tranquilamente, o alemão poderia ser incluído nessa grade em algumas escolas como forma de testar a reação dos alunos e da comunidade acerca da disciplina, destaca.

Elisângela chama a atenção também para a existência do Conselho Municipal de Educação em Marechal Rondon, que objetiva assegurar às entidades ou grupos representativos da comunidade o direito de participar na discussão da formulação, implementação, avaliação e fiscalização das políticas municipais de educação. Um dos objetivos que cabe a esse conselho diz: analisar projeto, seus planos para a contrapartida do município em convênios e parcerias com a União, Estado, universidades e instituições de educação superior, ou seja, é uma grande contradição. Se o Conselho de Educação prevê isso, o que esperamos é um retorno, um posicionamento, expõe.

Além de manter a cultura da língua alemã viva entre os mais jovens, o projeto também objetiva garantir oportunidades de estágio aos acadêmicos, tendo em vista que, no 4º ano, os estudantes do curso de Letras/Alemão precisam realizar estágio e ir para a sala de aula e, em Marechal Rondon, existe apenas o Centro de Línguas Estrangeiras Modernas (Celem), que é um projeto estadual. Um projeto como esse não abre só oportunidade de manutenção e ensino da língua alemã em uma região, mas também oportunidade de estágio, projeto de extensão e formação para os acadêmicos, diz. Toda a região é marcada pela colonização alemã, mas entre aquilo que a lei coloca, o que está no papel, e o que está na prática, há um abismo muito grande, conclui.

 
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