Lavouras “cozinhando” e céu sem sinal de chuva. Essa é a atual conjuntura da região Oeste, bem como do Paraná como um todo. Em Marechal Cândido Rondon, por exemplo, nos últimos 50 dias, choveu menos de dez milímetros. Esse cenário de escassez hídrica coloca a safra de verão em xeque, com uma redução, até o momento, de 3% no volume colhido em relação ao ano anterior.
De olho nas dificuldades decorrentes da seca e suas complicações, o Conselho de Desenvolvimento Agropecuário (CMDA) de Marechal Rondon encaminhou, na quarta-feira (22), um ofício solicitando a decretação de situação de emergência no município. O documento é endereçado ao prefeito Marcio Rauber, que também é presidente da Comissão Municipal de Defesa Civil (Comdec).
De acordo com o presidente do CMDA e secretário de Agricultura, Adriano Backes, a medida foi tomada após reunião entre representantes do Sindicato Rural Patronal, do Sindicato dos Trabalhadores Rurais, do Instituto de Desenvolvimento Rural do Paraná (Iapar/Emater), da gerência local do Banco do Brasil e de cooperativas. “Tomamos a iniciativa de fazer esse documento para mostrar ao prefeito e para o Estado que Marechal Rondon está passando por uma dificuldade muito grande com essa seca, que atinge todo o agronegócio municipal, especialmente os pequenos produtores”, declarou ao O Presente.

Emergência na agricultura
Os argumentos que dão base ao ofício destacam a atual situação vivenciada pela agropecuária rondonense. Entre eles, o histórico de safras de grãos comprometidas pela geada e pela baixa pluviosidade; os grandes períodos de estiagem e ausência de previsões futuras de precipitação; o comprometimento da produção de proteínas devido à falta ou altos preços da pastagem e silagem; o amplo acionamento do seguro rural ou Proagro dos produtores rondonenses; e, consequentemente, a diminuição da renda dos produtores, o que prejudica o pagamento de investimentos realizados no setor.
Backes diz que toda a cadeia do agro está prejudicada. “O gado de leite precisa de trato, mas o milho está com a qualidade prejudicada e não oferece todos os benefícios alimentares; está secando na lavoura. Praticamente, o produtor não vai ter o grão e os animais serão tratados só com foragem, que provê uma alimentação fraca. O gado de corte também está sofrendo, porque a grama não cresce. As culturas implantadas nas áreas do município já acumulam grandes taxas de quebra”, contextualiza.

Acalento aos produtores
O presidente do Sindicato Rural, Edio Chapla, considera que a declaração de estado de emergência será um acalento aos produtores rondonenses. “Tenho certeza de que o prefeito vai olhar esta situação com profissionalismo, pois é uma realidade que está acontecendo no município”, expôs ao O Presente.
Chapla acredita que a crise hídrica trará impacto na arrecadação do município, porém os prejuízos podem ser ainda maiores se os agricultores não tiverem assistência. “O momento agora é de olhar para a realidade em torno do agronegócio de Marechal Rondon, pois nossos produtores já passam e passarão por dificuldades ainda maiores. Com a declaração, fica mais fácil pedir prorrogação de parcelas de investimentos”, menciona.

Vereadores pedem providências
Assim como fez o Conselho de Desenvolvimento Agropecuário, o vereador Moacir Froehlich protocolou, ontem (23), na prefeitura, um ofício pedindo a decretação de estado de emergência em Marechal Rondon. O documento, assinado pelos também vereadores João Eduardo dos Santos (Juca), Iloir de Lima (Padeiro), Arion Nasihgil e Claudio Köhler (Claudinho), é endereçado ao prefeito Marcio Rauber.
“O município está passando por um período prolongado de estiagem, o que necessita providências e ações do Poder Público para auxílio aos produtores rurais”, entende Froehlich, que é engenheiro agrônomo.
Segundo ele, a decretação de estado de emergência auxiliará produtores na renegociação de dívidas junto aos agentes financeiros. “Também forçará as seguradoras a pagar os custeios, porque alguns produtores sequer receberam o custeio da safrinha. Há um temor de que, devido à quantidade de pedidos dos produtores, não haja caixa por parte das seguradoras ou que se demore muito para que seja feito o pagamento. Nesse intervalo, o produtor continuaria inadimplente”, expôs ao O Presente.
Além do subsídio à negociação dos agricultores, o decreto permitiria ações mais pontuais aos produtores afetados pela falta de chuva, pontua o vereador. “Logo vai faltar água nas granjas, assim como aconteceu há uns três meses atrás, quando os produtores tiveram que contratar caminhões-pipa particulares e pagar do bolso. A declaração permite que a prefeitura disponibilize auxílios como esse ao setor produtivo”, exemplifica.
Em 2022
Assim como Chapla, Froehlich chama a atenção para a queda de receita em Marechal Rondon. “No momento em que se decreta o estado de emergência, o município indica ao Estado que a produção não será tão grande quanto se esperava. Portanto, os índices de ICMS (Imposto sobre Circulação de Mercadorias e Serviços) e FPN (Fundo de Participação dos Municípios) vão cair nos anos seguintes”, pontua.
Ele considera a decretação de estado de emergência uma decisão difícil de ser tomada, mas necessária. “Quanto antes ser feita, melhor será para o setor, porque essas negociações precisariam começar logo. Se não for feita neste ano, teria que ser logo no início no ano que vem para que não haja prejuízos tão grandes”, enfatiza, acrescentando: “Todos os demais setores diminuem o ritmo em função da situação em que a agricultura se encontra. O produtor está inseguro e não vai gastar a reserva que tem. É uma cadeia: menos produção, menos agricultores com dinheiro, menos trabalho na indústria, menos empregos, jornada menor e menos dinheiro circulando”.

“A situação é grave e o prejuízo será bilionário”, diz chefe regional da Seab
Crítica. É assim que o chefe da Regional de Toledo da Secretaria de Estado da Agricultura e do Abastecimento (Seab), Paulo Salesse, caracteriza a atual situação da agricultura na região Oeste. “O clima está prejudicando muito a cultura e muitas lavouras estão em situação crítica. Por enquanto, estamos um pouco cautelosos nos números das perdas, porque temos esperança que chova. A soja é uma cultura muito valente e com a chuva ela se refaz. Na sexta-feira passada (17), estimávamos média de 35% de perdas na soja, mas sabemos de regiões onde os números são maiores. Nesta semana, municípios como Mercedes, Marechal Rondon e Guaíra passaram de 50% de prejuízo com a soja”, informou ao O Presente.
Ele prevê quebra de 50% na safra de soja. “São cerca de 488 mil hectares de soja na regional com produção inicial estimada em 1,8 milhão de tonelada. Se tivermos uma perda de 50%, cerca de R$ 1,25 bilhão deixa de circular na região. É uma fortuna que não vai aparecer na nossa economia e vai refletir muito. Nós, da Seab, temos consciência de que a situação é grave”, frisa.

Subsídios para declaração
Assim como Backes, Chapla e Froehlich, Salesse destaca que a decretação de estado de emergência é interessante ao produtor. “Quem decreta o estado de emergência é a Defesa Civil e a Seab fornece subsídios para a decretação”, explica, emendando que considera os dados suficientes para a declaração.
Preocupação de longa data
A preocupação por parte da Seab considera também a produção dos últimos anos na regional. “Embora tenham vendido a soja e o milho a um preço mais alto recentemente, o insumo estava no preço normal e o produtor teve lucro. Neste ano, até os insumos foram comprados a preços elevados. A margem não está positiva devido a esse custo alto inicial. Isso é mais um fator negativo. Vemos há três anos uma produção de soja não tão cheia. Marechal Rondon até questionou a sua produção, porque é um município que tem visto a produção diminuir nos últimos anos”, salienta.

O Presente