Como parte das ações do Setembro Amarelo em Marechal Cândido Rondon, o Comitê de Saúde Mental e Enfrentamento à Violência, junto ao Setor de Epidemiologia da Secretaria de Saúde, realizou uma pesquisa inédita no município com base nas fichas de notificação dos casos de violência atendidos na Unidade de Saúde 24 Horas.
De acordo com os dados, que tiveram como base as tentativas de suicídio registradas entre 2012 e 2017, o público mais vulnerável para tentativas de suicídio no município são mulheres, estatística que subiu de um caso de tentativa de suicídio em 2014 para oito em 2015, 12 em 2016 e dez apenas nos primeiros oito meses de 2017. “As mulheres, na maioria dos casos, fazem a tentativa por meio da ingestão de medicamentos, por exemplo. Ela normalmente quer chamar a atenção para o fato de que quer ajuda para lidar com a situação que está vivendo”, aponta a enfermeira do Setor de Epidemiologia, Franciele A’Costa Perez.
Quando os pacientes dão entrada na Unidade de Saúde 24 Horas, inicialmente faz-se o procedimento médico necessário e a ficha de notificação e, em seguida, encaminha-se o paciente e a família aos serviços do CAPS. “Este é o órgão que faz o acompanhamento com os profissionais da área da psiquiatria, psicologia, entre outros e, se necessário, encaminha o paciente para internamento”, expõe a psicóloga da Unidade 24 Horas, Josie Danielle Meinerz. “Na Unidade 24 Horas fazemos a acolhida inicial, identificamos o que levou o paciente ao quadro que ele apresenta para o posterior encaminhamento”, complementa.
No âmbito da 20ª Regional de Saúde, o município rondonense está em segundo lugar com o maior número de óbitos por lesões autoprovocadas intencionalmente, conforme o Datasus, com 44 óbitos registrados entre 2008 e 2015, sendo 38 do sexo masculino. “Os homens geralmente vão direto para métodos que tenham êxito, como uso de objetos perfurocortantes, enforcamento ou com arma de fogo”, destaca Franciele. “Por outro lado, não conseguimos levantar dados de acidentes automobilísticos, que acontecem mais com homens, que podem ter sido um suicídio no caso de uma colisão frontal, por exemplo”, observa.
Segundo Josie, a pesquisa realizada no município revelou que, por faixa etária, os adolescentes e idosos são os públicos que apresentam os maiores índices de vulnerabilidade para tentativas de suicídio. “E isso só reforça que é preciso falar sobre o assunto, saber sobre o 141, mas que existem outras possibilidades: as Estratégias Saúde da Família, o CAPS e psiquiatras e psicólogos aptos a olhar e ajudar quem está em sofrimento”, ressalta Josie.
Sensibilização da rede de atendimento
As fichas de notificações de violência utilizadas para o levantamento são preenchidas quando uma vítima de violência dá entrada na Unidade de Saúde 24 Horas. Contudo, as profissionais destacam que nem sempre a ferramenta é preenchida da forma como deveria, por isso não conta com as informações do paciente e da situação que o levou ao atendimento. “Nela temos algumas categorias, entre elas a violência autoprovocada, que não deixa de ser uma tentativa de suicídio. Por isso a necessidade de que ela seja preenchida corretamente para que nós tenhamos os dados concretos”, enfatiza Josie. De acordo com a profissional, no município a rede de atenção e cuidados ainda está fragilizada quanto a este processo. “Desde quando o Comitê foi instituído, em 2012, começamos a ter um progresso nas fichas de notificação.
Passou-se a fazer e preencher corretamente as fichas, mas isso ainda não é levado tão a sério, o que é mais um motivador para falarmos sobre suicídio para que possamos fazer este tipo de levantamento, criar ações e até mesmo políticas públicas e criar um trabalho de prevenção mais eficiente”, frisa.
A psicóloga expõe que, atualmente, o município tem um alto índice de tentativas de suicídio, todavia, os dados não são totalmente fidedignos porque as fichas de notificação não são feitas como deveriam. “Sabemos que os números de tentativas de suicídio são bem maiores”, pontua.