Imagine como é disputar uma competição totalmente às escuras. Agora, tente imaginar como é viver sem nunca ter enxergado e ainda lutar judô. Algo impensável para muitos, mas não para o rondonense Gustavo Alberto Ohse Hanke, de 14 anos, que com deficiência visual desde que nasceu construiu uma trajetória repleta de superações, conquistas e vitórias.
Gustavo conheceu o esporte há cerca de sete anos e é no tatame que ele derruba qualquer estereótipo. Nunca se intimidou e nem permitiu que os limites impostos pela vida o barrassem. Superação e força de vontade são palavras-chave na vida do adolescente.
Antes do judô, o atleta conta que praticava natação. Tudo mudou quando a mãe de Gustavo decidiu inscrever o jovem em um projeto da Universidade Estadual do Oeste do Paraná (Unioeste) que ofertava aulas de judô. O gosto pela prática do esporte não demorou a chegar. “Minha mãe pediu se eu queria fazer e eu aceitei. A partir de então comecei a fazer judô e o pessoal começou a mudar o treino para conseguir me incluir. E eu comecei a gostar bastante”, revela.
Ao contrário da maioria das pessoas, as cores, luzes, detalhes e objetos, que permeiam grande parte da rotina social, não fazem tanta diferença para Gustavo. E hoje as dificuldades impostas pela deficiência visual são amenizadas diante de uma maior acessibilidade. “Só que, claro, eu sou uma pessoa que não conversa muito com as outras pessoas, não saio muito de casa, então não tenho muitos desafios, já que eu fico em casa o dia inteiro. Quando eu saio, geralmente tenho que sair com algum acompanhante, ou se for algum lugar que eu conheça, consigo ir sozinho”, diz o atleta.

A mais recente e marcante conquista do judoca rondonense foi o 1º lugar no Grand Prix Infraero de Judô para cegos, em março deste ano (Foto: Divulgação)
DESAFIOS
Muito treino, uma pegada aguçada, boas finalizações e grande determinação para ultrapassar os limites. Gustavo encontrou no judô um caminho, apesar de todos os desafios. “A prática do judô é bem mais tranquila. Como eu sou uma pessoa que nunca enxergou, eu acabei aprendendo o judô sem a visão. Não tenho dificuldades. Nunca vi, não sei como é ter a visão”, destaca.
Aprender um esporte em que ser lançado ao ar ou sufocado enquanto se está deitado no tatame são partes integrais do judô e não são fáceis para um jovem que nasceu cego. “Tem diferença porque a pessoa sem a deficiência visual consegue, mesmo que não seja tanto, perceber o que você irá fazer mais rápido. A pessoa com a deficiência demora um pouco mais para entender o que você irá fazer. Lutar com pessoas deficientes visuais é um pouco menos complicado. Claro que lutar com pessoas sem a deficiência, se você souber lutar, consegue também”, relata o atleta.
Embora lutar contra um agressor “invisível” possa soar como um pesadelo, a luta do rondonense passa a impressão de que sobre o tatame sua deficiência deixa de ser significante. Prova disso é que suas primeiras competições foram estaduais, ou como ele mesmo diz, normais, e não paralímpicas. “Eu comecei as competições aqui perto, em Cascavel, em Marechal Rondon mesmo, entre outras. Eram competições que era eu contra outra pessoa que não tinha deficiência visual. Foi assim que começou as minhas competições”, lembra Gustavo.
Atualmente o atleta realiza seus treinamentos três vezes por semana na Associação de Judô Fujiyama de Marechal Rondon e ostenta a faixa laranja. Cada faixa simboliza um ciclo de aprendizagem e evolução do praticante, conceitos que são dominados pelo rondonense, que já participou de campeonatos brasileiros de judô e que não esconde a vontade de alçar voos mais altos e chegar às competições mundiais. “Obviamente os treinos são cansativos, são treinos mais focados. O que eu fazia na Unioeste não era um treino tão focado, mas quando eu vim aqui para o Rui Barbosa o treino ficou mais focado para competição e eu treino bem mais pesado”, menciona Gustavo.
A mais recente e marcante conquista do atleta foi o 1º lugar no Grand Prix Infraero de Judô para cegos, em março deste ano. Em setembro do ano passado ele já havia garantido a medalha de bronze na mesma competição. Foi também em 2018 que ele participou dos Jogos Escolares e das Paralimpíadas, no mês novembro. Mais que medalhas, Gustavo coleciona no peito aprendizados e experiências.
E se antes o rondonense lutava com pessoas sem deficiência visual, hoje suas competições são todas paralímpicas. “Luto com pessoas com deficiência visual. E, às vezes, como no ano passado, acabei ficando nos escolares (Jogos Escolares) com um lutador com deficiência visual e auditiva. Mas, na maioria, é só com deficiente visual”, comenta.
Para Gustavo, as lutas significam uma porta de entrada para novas descobertas e realizações. “Elas são muito interessantes porque acabo lutando com pessoas que não são daqui, que não conheço. E lutando com pessoas com a mesma deficiência que eu tenho descubro também novos jeitos de lutar. Além de que tenho a possibilidade de participar dessas competições e ir para alguns lugares mais longe, que eu não poderia ir se não fosse pelo judô”, expõe.

Em setembro de 2018, Gustavo garantiu a medalha de bronze no Grand Prix Infraero de Judô (Foto: Divulgação)
FUTURO
Sentado à beira daquele que é o seu palco de espetáculo, o judoca demonstra que o tatame é sua oportunidade de enxergar o mundo através de movimentos, sentimentos e intuições. Quando questionado sobre seu futuro na modalidade, a resposta, a exemplo das suas finalizações nas lutas, é certeira. “Pretendo continuar treinando e, se possível, chegar ao nível das olimpíadas mundiais”, enfatiza.
TREINAMENTO
O técnico de Gustavo, Jean Carlos Arndt, garante que ensinar também é um enorme desafio em um esporte que envolve dezenas de técnicas, muitas delas sutilmente diferentes umas das outras. “O treinamento depende dos colegas. À medida em que a equipe vai evoluindo, ele vai evoluir junto. O caso do Gustavo foi um diferencial. Ele atingiu um ápice físico muito grande em relação aos outros colegas que são treinados. Hoje, ele tem destaque em relação aos demais na categoria da idade dele”, garante.
Uma vez superada essa curva de aprendizagem, o judô pode ser mais natural para os cegos. “Nós temos um diferencial que os meninos que faziam a evolução dele, que hoje estão todos na graduação, formados faixas pretas, estão fazendo faculdade à noite, não estão conseguindo acompanhar o treinamento. Mas ele evoluiu muito acompanhando o treinamento desses meninos. Hoje nós estamos priorizando a evolução técnica e o amadurecimento do perfil que ele já adquiriu”, relata o treinador.
Preparação para competições é essencial e Jean Carlos diz que para o judoca rondonense são priorizados eventos anuais como o Grand Prix de Judô Paralímpico, que acontece nas cidades de São Paulo e Rio de Janeiro. A competição, segundo o treinador, é específico para o público-alvo de Gustavo, na qual ele não luta apenas com atletas da classe dele. “A classe de deficientes visuais é subdividida em três níveis B1, B2 e B3, cada um com um nível de divisão. Ele é B1 cego total congênito. E nessas competições ele acaba competindo entre todos”, declara, acrescentando: “Ele foi muito feliz nas competições que participou, foi muito bem. Consagrou-se três vezes campeão e uma vez vice-campeão”.
A próxima etapa do Grand Prix de Judô acontece no segundo semestre deste ano, em setembro, na cidade de São Paulo.
Treinador Jean Carlos Arndt: “O caso do Gustavo foi um diferencial. Ele atingiu um ápice físico muito grande em relação aos outros colegas que são treinados. Hoje, ele tem destaque em relação aos demais na categoria da idade dele” (Foto: O Presente)
INCENTIVOS
Para que toda modalidade esportiva se desenvolva é preciso incentivos, por isso o treinador conta que é necessário patrocínio para viabilizar as competições de Gustavo. “Nós temos uma parceria muito grande com o Colégio Rui Barbosa e com a Secretaria de Esportes de Marechal Cândido Rondon. A Secretaria de Esportes nos fornece todo o transporte do Gustavo, mas não conseguem nos auxiliar nos casos que não têm vínculo técnico com o município, então fazemos uma vaquinha entre os comerciantes do município. Pegamos um valor aqui, um valor ali. Sempre temos parceiros que conseguem nos fomentar nessas participações com ele”, menciona.
Diante das demandas e necessidades, Jean Carlos enaltece que seria melhor caso houvesse uma empresa que conseguisse prestar maior apoio. “Todo fomento é necessário e é bem-vindo até para valorização do esforço do Gustavo. Hoje nós conseguimos muito através dos pais, que auxiliam. Mas o judô em si não é um esporte barato, o equipamento, apesar de ser um só, é caro. Para isso, precisaríamos de um apoio, tentando patrocínio de alguma empresa. As portas estão abertas para quem estiver disposto a colaborar”, salienta.
SONDADO PELA SELEÇÃO PARALÍMPICA BRASILEIRA
O talento de Gustavo ultrapassou as paredes do ginásio e o solo do tatame. Apesar da pouca idade, o judoca rondonense está sendo sondado pela Seleção Paralímpica Brasileira, fazendo com que seu sonho de participar de competições mundiais esteja mais perto de se tornar realidade. “No Paraná temos alguns atletas que são destaques no grupo Paralímpico, como o caso da atleta de Maringá, Meg, que recentemente foi medalha de ouro em competição na Alemanha. Nós já mantivemos contato com outros técnicos e nas competições em que acompanho o Gustavo fizemos esse feedback com senseis que são os coordenadores da Seleção Paralímpica. Eles comentaram que estamos no caminho certo e que ele (Gustavo) ainda é novo. Disseram também que se continuarmos desenvolvendo esse potencial tudo se encaminha para que no futuro o Gustavo seja um atleta competitivo”, expõe.

COMO TUDO COMEÇOU
A ideia de inserir Gustavo no judô nasceu com a treinadora Gabriela Harnisch, que, em 2011, enquanto ainda era acadêmica, começou a trabalhar em um projeto de extensão da Unioeste voltado para atividades e exercícios físicos para pessoas com deficiência. “Tinha dança, atividades aquáticas, dentre outras. E comecei a estudar um pouco, pois tinha que fazer o meu trabalho de conclusão de curso. Foi então que, como eu era monitora do projeto de extensão de judô, veio a ideia de inserir o Gustavo no grupo”, conta.
O período inicial foi de desafios e carências para encontrar meios de ensinar um aluno com deficiência visual. “Nós fomos aprendendo no dia a dia e com ele também. Muitas das dúvidas que tínhamos o próprio Gustavo as sanava. Por vezes, ficávamos um tempo pensando em ‘como vou ensinar isso aqui para o Gustavo? Como será que é melhor?’. E no fim das contas percebemos que tínhamos que perguntar para ele como era melhor para ensinar, como era que ele preferia aprender. E assim fomos melhorando”, explica Gabriela.
Apesar da evolução, os desafios de ensino ainda se mantiveram presentes. “Quando ele veio do ambiente de treino na Unioeste tivemos um desafio em relação à adaptação dele com o local. Ele ficava muito inseguro, havia exercício que não queria fazer se eu não estivesse do lado. Ele não conhecia os demais colegas, então não confiava”, diz, emendando: “Por exemplo, havia um exercício para se deslocar rápido de um lugar para outro e nós geralmente batíamos palmas para ele vir, porém ele não queria fazer. Se eu corresse com ele segurando o meu braço, se o colocar para fazer os exercícios no tatame, ele faz quase tudo sozinho”.
Agora, segundo a treinadora, o desafio é aperfeiçoar o judoca rondonense. “Nesse grupo que ele treina hoje não temos muitos meninos com o mesmo nível técnico. Temos um grupo misto em relação à idade, à estatura, peso. Não temos muitos meninos com os quais ele consegue fazer um combate bom de frente, pois o resto acaba ficando muito fácil para ele”, comenta.
Sendo a pessoa que acompanha a caminhada de Gustavo no judô desde o início, Gabriela também deposita sonhos e expectativas no prodígio rondonense. “Eu quero que o Gustavo se torne uma pessoa, um adulto, mais independente. É lógico que existe o sonho de ver um atleta nosso, um aluno nosso, em uma Paralimpíada ou representando o Brasil em competições internacionais. Eu acho que ele também deseja isso. Nosso desejo é que ele se insira na sociedade como uma pessoa autônoma, uma pessoa que venha a estudar, que tenha emprego, que ele consiga até mesmo se livrar dos preconceitos que ele mesmo tem de ‘eu não posso fazer isso porque sou cego’. Meu desejo que ele viva em sociedade como qualquer outra pessoa”, finaliza.
Gabriela Harnisch foi quem inseriu Gustavo no projeto de extensão de judô (Foto: Joni Lang/OP)
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