Ter um enfermeiro, médico ou dentista batendo na porta de casa para realizar uma consulta, curativo ou qualquer outro procedimento necessário parece uma cena que só acontece com um grande dispêndio financeiro por parte do paciente ou, gratuitamente, em locais com o sistema público de saúde extremamente eficiente e desenvolvido.
Porém, para os moradores de sete bairros e dois distritos de Marechal Cândido Rondon, a “saúde a pronta-entrega” é uma realidade para 65% da população do município, atendida com o programa Estratégia Saúde da Família (ESF).
As nove Unidades de Saúde da Família (USF) possuem a mesma estrutura das outras seis Unidades Básicas de Saúde (UBS) que existem no município, entretanto, contam com alguns diferenciais que permitem trabalhar estrategicamente na expansão, qualificação e consolidação da atenção básica.
Um dos principais diferenciais das USF está na presença dos agentes comunitários de saúde (ACS), que formam um elo entre a unidade de saúde e a comunidade. Esses profissionais visitam regularmente as residências da micro-área da unidade para identificar os possíveis problemas de saúde da comunidade. “Sem esse profissional, a equipe de saúde descobre alguma situação quando alguém de fora da família informa ou quando a pessoa busca a unidade, mas com o ACS fazendo a visita ele traz para a unidade as situações, como uma mãe que está com a carteirinha de vacinação da criança atrasada, uma gestante que não está fazendo pré-natal, um idoso acamado que precisa de um atendimento específico ou até mesmo que esteja sofrendo maus-tratos, que não está sendo bem cuidado”, diz a coordenadora da atenção básica da Secretaria de Saúde, Andreia Guissardi.
Dependendo da demanda que o ACS identifica em cada residência, pode haver variação na composição da equipe multidisciplinar que realiza visitas domiciliares agendadas – outro benefício que o programa Saúde da Família traz à atenção básica.
Uma vez por semana, o enfermeiro e o médico – acompanhados pelo dentista quando necessário – vão junto com o agente comunitário de saúde nas residências atender o paciente acamado impossibilitado de comparecer à unidade. “A visita domiciliar não é algo que o paciente liga e exige que a equipe vá a casa naquele momento, pois o programa não comporta o atendimento desta forma. Cada unidade tem um dia da semana em que um carro é disponibilizado para que a equipe visite as residências, já que o território de abrangência de cada unidade é significativo”, explica Andreia.
Prevenção
O acompanhamento feito por meio do programa implica diretamente na prevenção de doenças e promoção à saúde, já que, na maioria das vezes, a equipe identifica o problema antes dele se agravar. “Um paciente acamado que está com alguma complicação e a equipe detecta que aquilo pode se agravar, já é feito o encaminhamento para os procedimentos necessários. Se não fosse a equipe ter ido lá na residência dele, o quadro poderia evoluir para uma outra complicação”, aponta a coordenadora da atenção básica.
De acordo com a secretária de Saúde, Marciane Specht, o processo de mudanças que é realizado na atenção primária em Marechal Rondon busca fazer um trabalho junto à comunidade, criando o vínculo do cidadão de determinada localidade com a sua Unidade Básica de Saúde. “Vínhamos de um processo em que as referências estavam confusas há muitos anos. As pessoas de uma UBS vinham buscar atendimento no 24 Horas e, apesar delas se identificarem com o médico da unidade, elas não estavam se aproximando do médico do seu bairro”, comenta.
O trabalho desenvolvido é para que os pacientes procurem atendimento na unidade mais próxima de sua residência, a fim de fortalecer o vínculo da pessoa com a unidade, permitindo que os profissionais conheçam as famílias e os pacientes que demandam de atenção dirigida, evitando o agravamento de condições que o levem ao nível secundário ou terciário de atendimento. “Quando faz-se um bom atendimento na UBS, prevenindo questões de internação por doenças sensíveis, como hipertensão e diabetes, consequentemente diminuem os internamentos. A porta de entrada é na atenção primária e se a estrutura ou o atendimento estão deficitários, os níveis de complexidade estarão sobrecarregados”, alerta Marciane.
Estratificação de risco
Nas Unidades de Saúde da Família também é executado pela Secretaria de Saúde a tutoria do Programa Nacional de Melhoria do Acesso e da Qualidade da Atenção Básica (Pmaq). Ele estabelece uma lista de 105 itens que a unidade precisa atingir para conquistar o selo bronze, oferecido pelo Estado.
Para alcançar o objetivo, as equipes das unidades formulam um plano de ação com o auxílio de apoiadoras da 20ª Regional de Saúde. “Tínhamos apenas duas unidades no início do ano e hoje todas as nove Unidades de Saúde da Família já estão no processo”, informa Andreia.
Uma das exigências do programa de tutoria é sobre a questão da estratificação de risco, que baseia-se na classificação inicial do paciente, levando-se em conta o exame clínico e avançado para a indicação de exames complementares quando a avaliação clínica apontar grau de risco. “Um paciente hipertenso, por exemplo, quando é feita a estratificação de risco, ele vai sair da unidade com a requisição para realizar exames pré-fixados e é possível diagnosticar o quadro de hipertensão e fazer um plano de cuidados do paciente. Ele saindo com a consulta de retorno e o plano de cuidados pronto, trabalha-se diretamente a prevenção na comunidade”, resume Marciane.
Quando o paciente se compromete com o diagnóstico e desenvolve as orientações, realizando o acompanhamento de forma continua, ele cria o vínculo com a unidade e reduz a possibilidade de precisar do atendimento em nível secundário e terciário. “Diferente de quando o paciente busca a unidade quando o quadro dele já é agudo. Se o paciente é hipertenso, tem conhecimento do seu quadro, mas por algum motivo deixou de tomar a medicação ou não fez dieta adequada, o quadro vai se agravando até agudizar e nessas situações normalmente o paciente vai para o 24 horas”, menciona a secretária de Saúde.
Dependendo da situação, o paciente é encaminhado para hospitais de referência, como o Hospital Bom Jesus, de Toledo, que realiza o atendimento em nível terciário e que nesta semana divulgou que não fará mais internamentos clínicos e cirúrgicos aos municípios da 20ª Regional, deixando de atender as cotas extras dos pacientes encaminhados por municípios que não têm a quantidade adequada de Autorizações de Internação Hospitalar (AIHs) pactuadas.
O fato, porém, não preocupa a Secretaria de Saúde rondonense, já que, de acordo com Marciane, o município tem pactuado com o hospital 75 AIHs, mas, conforme o último relatório, está utilizando apenas 47. “Com a organização do novo modelo assistencial que o município está desenvolvendo, enquanto gestão, percebemos que estamos fazendo nosso dever de casa porque conseguimos fazer o que é primário em nosso município”, garante.
A tranquilidade, segundo ela, está ligada também à reorganização do Hospital Municipal Dr. Cruzatti, que desde abril passou a realizar partos e cesáreas para pacientes de risco habitual e intermediário. “Trazendo as pacientes que eram acompanhadas em Toledo para cá, reorganizando o pré-natal que a partir de setembro será descentralizado para as Unidades Básicas de Saúde, Marechal Rondon passa a ter um conforto em relação à decisão do Hospital Bom Jesus”, reforça a secretária de Saúde. “Enquanto gestora tenho que olhar o lado do hospital que faz o atendimento e muitas vezes fica com pacientes crônicos oriundos de municípios que têm dificuldades, que nós também encontramos, na organização da atenção primária”, completa.
Procure sua unidade
As Unidades de Saúde da Família que realizam a visita domiciliar estão localizadas nos distritos de Porto Mendes e Margarida e nos bairros Vila Gaúcha, Marechal, São Lucas, Líder, Augusto, Primavera e Alvorada.
Já o Bairro Botafogo e os distritos de Iguiporã, Bom Jardim, São Roque, Novo
Horizonte e Novo Três Passos contam com Unidades Básicas de Saúde que não possuem os agentes comunitários de saúde e não realizam as visitas domiciliares, porém, oferecem a estrutura com médico e outros profissionais.
Contrapartida de 70%
Apesar dos bons resultados, o programa Estratégia Saúde da Família ainda impacta na questão de custos. Conforme Marciane, o valor repassado pelo governo federal não comporta o custeio do que é realizado no município.
Para as nove unidades são enviados R$ 48.520, que é o piso da atenção básica para a saúde da família. Todavia, quando o valor é dividido entre todas as unidades, ele não é suficiente para custear nem o salário de um dos especialistas que integram a equipe. “A contrapartida do município para complementar o programa é de aproximadamente 70%. É um valor pequeno contra o que nós temos que custear”, aponta a secretária de Saúde.
Ela explica que atualmente está tramitando em nível nacional junto ao Conselho Nacional de Secretarias Municipais de Saúde (Conasems) e ao Ministério da Saúde um projeto para tirar da folha de pagamento o programa Estratégia Saúde da Família. “Quando se ampliam as estratégias é preciso compor uma equipe mínima, que impacta diretamente no limite prudencial da folha”, explica.
As articulações acontecem para que deputados federais possam entender, junto ao Tribunal de Contas, que as Estratégias Saúde da Família devem ser retiradas da folha de pagamento porque essa é uma ação desenvolvida nos municípios, permitindo uma condição mais confortável para os municípios ampliarem os serviços. “Os municípios, não só na nossa região, estão com um déficit na arrecadação. Os repasses têm diminuído e isso consequentemente vai impossibilitar o aumento das equipes de Saúde da Família”, pontua.
Especialmente a partir do próximo ano, quando os recursos serão repassados de forma diferente por conta do congelamento dos gastos em saúde, para os municípios manterem as atividades já existentes será necessária uma reorganização e, para a abertura de novas frentes de trabalho, será inviável sem a manutenção do Ministério da Saúde. “O próprio ministro, em audiência com os gestores da região, ressaltou que as demandas de cada município devem ser encaminhadas até fim de outubro deste ano e as portarias de habilitação devem ser liberadas, porque a partir de 2018 vigora o novo modelo com corte de repasse de alguns recursos sem aumento dos serviços”, conclui Marciane.