
Em uma classe que ingressam 40 acadêmicos, após quatro ou cinco anos, formam-se apenas seis. Este é o fenômeno das baixas nos cursos superiores, um velho conhecido de universidades públicas e particulares que não assusta, mas preocupa.
A permanência cada vez menor de estudantes no Ensino Superior, que faz a diferença entre ingressantes e graduados ser cada vez maior ao fim dos cursos, levou até mesmo o Conselho de Reitores das Universidades Federais a aprofundar as discussões sobre o tema, o que, no entanto, não apontou o motivo para as evasões cada vez mais frequentes, que se misturam aos alunos que ficam pelo meio do caminho, nas temidas dependências.
No campus de Marechal Cândido Rondon da Universidade Estadual do Oeste do Paraná (Unioeste), por exemplo, o curso com a maior diferença entre a turma inicial e os graduados no ano letivo de 2015 foi o de História, quando 40 estudantes começaram a traçar seu futuro, mas, quatro anos depois, apenas seis pegaram seus canudos.
Para o diretor do campus, Davi Félix Schreiner, não é possível encontrar apenas um motivo para justificar as baixas, muito menos olhar apenas para a realidade de uma instituição, curso, de um ano de um curso, só das universidades estaduais, federais ou das particulares, já que a questão afeta todas as instituições de Ensino Superior do país. Dependendo de onde está se falando, de quais cursos ou universidades, uma questão pode pesar um pouco mais ou um pouco menos, avalia.
No âmbito do campus rondonense, Schreiner opina que uma das principais deficiências está na falta de uma política pública estudantil, por meio de mecanismos como restaurante universitário, moradia estudantil e bolsas para o ensino, pesquisa e extensão. Essas bolsas são imprescindíveis para a formação desses acadêmicos e os mantêm na universidade, ocupando o tempo para sua formação, destaca, enfatizando que as universidades federais, por exemplo, estão muito melhor servidas nesse sentido do que as estaduais, e já contam com diversos auxílios e bolsas.
Segundo o diretor da Faculdade de Ensino Superior de Marechal Cândido Rondon (Isepe Rondon), João César Silveira Portela, nos últimos cinco anos, havia uma fixação maior dos estudantes nos cursos superiores, quando os acadêmicos desistiam com menos frequência de determinado curso. Acredito que pela maior variedade de cursos que estão à disposição dos estudantes atualmente essa realidade tenha mudado. Há 20 anos essa gama de cursos que são ofertados hoje na região não existia, exemplifica.
Nos pedidos de trancamento que recebe na instituição, a maioria justifica mudanças de curso, de cidade e questões pessoais – que abrem o leque para finanças, relacionadas à família, perda de emprego ou mudança de emprego para outra área. Nós reduzimos pelo menos 15% de perda ao abrir uma turma porque já é um fenômeno comum a classe começar com um número maior de alunos e concluir com menos, porque o aluno sente o impacto da não adaptação ou desses fatores externos, declara Portela.
Jornada de trabalho
Um dos motivos para que os alunos abandonem o Ensino Superior, tanto na universidade pública quanto nas faculdades particulares, está atrelado à necessidade de suprir necessidades materiais básicas. Embora a universidade seja gratuita, o acadêmico precisa ter condições para se manter, por isso muitos deixam a sala de aula porque precisam optar entre continuar estudando ou manter um emprego, pontua. Uma política pública estudantil supriria essa necessidade e poderia manter o aluno em sala de aula, então o problema não está só colocado no sistema, nos métodos de ensino ou então na universidade, mas ele é muito mais amplo do que se imagina, complementa Schreiner.
No Ensino Superior particular, a questão pesa ainda mais. De acordo com o diretor da Faculdade Luterana Rui Barbosa (Falurb), Carlos Kracke, a desistência acontece muito antes de a pessoa
começar uma faculdade, já que há pesquisas que apontam que apenas 14% da população, em nível nacional, têm o Ensino Superior. Até mesmo por ser uma fatia pequena da população que tem acesso, há certo romantismo no Ensino Superior, por isso, muitas vezes, quando o aluno ingressa, ele percebe que aquilo não era exatamente o que ele queria e o encanto acaba, porque ele vê que estudar não é tão simples, expõe.
Kracke diz que na instituição, que oferece dois cursos de graduação no período noturno, boa parte dos estudantes possuem a vida profissional ativa, ou seja, após passarem pela jornada de trabalho, fazem um esforço ainda maior para se concentrarem e renderem em sala de aula. É um processo que demanda o dobro de esforço para que não fique preso durante o caminho com reprovações, menciona.
De acordo com dados da instituição, o maior número de desistências acontece sempre no primeiro semestre, ou seja, logo no início da graduação. Até a conclusão em ambos os cursos, a média de concluintes em comparação ao número de ingressantes é de 50%.
Deficiência na base
Outro motivo que influencia especialmente no número de acadêmicos que ficam pelo caminho está naqueles estudantes que ingressam nas universidades e faculdades com o ensino básico deficitário. A formação básica é bastante precária porque normalmente são alunos que saíram do segundo grau, deram um tempo e depois vieram para a faculdade, que tem uma exigência de dedicação e responsabilidade muito grande, enquanto que há uma lacuna de formação que dificulta o aprendizado, expõe Kracke.
Na instituição, explica, uma das formas de melhorar o desempenho desses alunos foi o nivelamento, oferecido para todos os acadêmicos novos que apresentam carência na formação básica. São oferecidas aulas gratuitas nas disciplinas básicas para que ele possa subir o nível de conhecimento e para que não perca nada durante o curso, esclarece.
Conforme o diretor da Unioeste, na universidade pública, apesar de não ser de modo geral, a realidade também é parecida. Percebemos que há casos de deficiência na formação básica dos alunos que ingressam, o que pode gerar a evasão dos bancos escolares, mas também existem tantos outros problemas que se colocam do ponto de vista pessoal ou familiar, por exemplo, cita Schreiner.
Na visão dele, a desvalorização de determinadas profissões também acarreta em uma baixa procura no vestibular, o que incide posteriormente no abandono dos cursos superiores. Não há campanha política, em qualquer nível, que não apareça como prioridade à educação e a valorização do magistério. Mas se olharmos a realidade do país, com exceções de alguns Estados e municípios, é aviltante as condições que se exerce a profissão do magistério, sequer o piso nacional é reconhecido, enaltece. Como é que o aluno, que está se preparando para o vestibular, vai se interessar pelo magistério se já é desvalorizado ali? A desvalorização começa por essas falsas promessas. Os alunos são inteligentes e percebem que esses discursos contrastam com a realidade vivida pelo professor que está na sala de aula, e ele não vai querer ser professor ou professora, completa.
Embora influencie em menor grau na saída dos alunos do Ensino Superior, as dependências – que são as reprovações do aluno em cada disciplina e que o leva a não concluir a graduação no prazo determinado – chegam a alcançar 12% do total de acadêmicos de uma única turma. Mas o número de acadêmicos que não se formam por conta de dependências é menor do que aqueles que abandonam, destaca Portela. Também há turmas que não têm nenhum aluno com dependência, enquanto outra pode ter 60% de dependência, porque é um processo coletivo que se forma na turma. Há alunos que foram o corpo de uma turma com um perfil e turmas com outro, e esse corpo terá uma unidade de desejos. Algumas têm o desejo de ter uma grande produtividade, outras têm um perfil mais festeiro, outra tem um aspecto mais prático, outra mais teórico, por exemplo, comenta.
Corte de gastos
Nas instituições privadas, a questão econômica torna-se uma problemática ainda maior do que nas públicas. Kracke ressalta que, apesar de existirem facilidades, como o financiamento estudantil, esse ainda é um dos principais motivadores para o abandono do Ensino Superior privado. Para tentar mudar essa realidade, nós criamos um programa que subsidia parte do estudo para o aluno poder concluir a graduação, buscando pessoas que queiram investir aqui para os alunos terem o acesso ao ensino, menciona.
Apesar de a instituição privada ser mantida com a contra-prestação dos acadêmicos, Portela enfatiza que quando o abandono está baseado em questões financeiras, há tentativas de manter o estudante na faculdade a fim de que ele mantenha sua pretensão de ter uma carreira. Ele formou no psiqué dele que ele terá uma profissão, uma carreira, então quando ele desiste por uma questão financeira, ele está abrindo mão deste sonho, e por isso nos esforçamos para que ele fique, já que o Ensino Superior hoje não chega a 10% da população brasileira, declara.
No âmbito público, Schreiner diz que os limites estão acerca da condição de oferta dos cursos. Uma universidade que prescinde das condições ideais de oferta dos cursos no sentido de suas boas e plenas condições de funcionamento prejudica a aprendizagem, entende.
Do ponto de vista da infraestrutura, por exemplo, bons laboratórios, materiais e recursos, são importantes para que o acadêmico tenha um ambiente adequado para realizar suas atividades de ensino, pesquisa e extensão. Esse esforço a comunidade acadêmica tem feito, porque nem sempre as condições financeiras do Estado permitem, haja vista as constantes mobilizações em relação a isso, declara.
Gasto não, investimento
Formar apenas três, quatro alunos justifica a manutenção de um curso superior? Para o diretor da Unioeste, sim. Investir na formação profissional e humana sempre se justifica, por isso mesmo usamos a palavra investimento e não gasto, enfatiza.
Schreiner discorre que o investimento deve ser medido não apenas pelo número de concluintes, mas especialmente pela qualidade desses acadêmicos e pelo que representam do ponto de vista de sua atuação profissional na comunidade, da continuidade nos seus estudos em nível de mestrado e doutorado. Eu poderia indicar cursos que têm um número não tão elevado de concluintes, mas destes os que continuam os estudos na pós-graduação e não só na nossa universidade e que retornaram ao ensino como docente ou em outra profissão, quer seja no Ensino Superior ou nos outros níveis. O que significa ter um mestre ou doutor atuando no ensino básico, no Ensino Médio?, exemplifica.
O alcance do investimento está, de acordo com ele, muito além do número de formandos. A conta, explica, precisa ser mensurada na qualidade do que esses profissionais vão propiciar em geração de novos conhecimentos, tecnologia e inovação, que vão incidir do ponto de vista social, no setor industrial e na agropecuária, por exemplo. Nós temos diversos exemplos de pesquisas que estão sendo realizadas com empresas, cooperativas, instituições públicas e instituições federais públicas que envolvem ex-alunos nossos. Então até aonde vai esse conhecimento?, questiona. O que significa formar um astronauta, um físico ou um químico? Quantos se formam por ano? Vale a pena o investimento para manter esses cursos? Mas o que seria de nós sem a Física e a Química? Nós não teríamos resolvido uma série de problemas que a humanidade enfrenta, não estaríamos conquistando o espaço, não teria um brasileiro no espaço. A discussão não pode ser simplória ao ponto de um curso que forma pouca gente ser desnecessário. Nós temos que olhar de outro ponto de vista, do conhecimento, da formação humana e profissional, de como ele contribui para a humanidade, conclui.