O Presente
Marechal

Unidos pelo destino

calendar_month 30 de dezembro de 2016
7 min de leitura

 

Maria Cristina Kunzler/OP

Artur e Alzira Eckert: na Associação Lar Rosas Unidas a descoberta de que são irmãos

A vida às vezes prega peças que são difíceis de acreditar. Coisas inimagináveis podem acontecer e, num piscar de olhos, mudar o destino das pessoas. Há aproximadamente seis anos, Artur e Alzira estão internados na Associação Lar Rosas Unidas de Marechal Cândido Rondon. Ele chegou primeiro; ela poucos meses depois. Neste período, o que foi possível perceber é que o santo dos dois não bateu. Ele implicava com ela; ela reclamava das implicâncias. Em comum? Àquela altura parecia somente o sobrenome: os dois traziam em seus documentos o Eckert.

Mas em uma cidade em que boa parte da população é descendente de alemães não é difícil encontrar quem tenha sobrenome igual. Então este foi um fato que passou despercebido e não chamou maior atenção em um primeiro momento.

Há cerca de seis meses, porém, a realidade mudou. Certo dia um funcionário do asilo estava arrumando os documentos dos idosos. Ao observar a documentação de Artur e Alzira, ele viu algo que ninguém tinha se atentado antes: o nome dos pais era o mesmo e os dois eram nascidos em Santa Rosa (RS). Ele (funcionário) veio nos pedir se tínhamos observado isso, mas como são 30 idosos não tínhamos reparado, relembra a assistente social Dirlene Sabatino.

Seriam os dois irmãos? Dois internos que conviviam há quase seis anos juntos sem ninguém saber a existência do grau de parentesco? De Artur o asilo possuía poucas informações sobre seu passado e não tinha conhecimento sobre familiares. De Alzira sabia-se da existência de um filho e uma nora. Procuramos eles (filho e nora) para sabermos se Alzira tinha irmãos. A resposta que recebemos é que sim, mas que não havia muito contato, comenta a profissional.

A partir daí iniciou-se um trabalho que envolveu muita conversa com os dois internos. Ele se recordava de alguns irmãos e citava os nomes; ela o mesmo. E estes nomes coincidiam. Ele disse que tinha saído de casa muito cedo, com uns 13 anos, para trabalhar em uma fazenda. Posteriormente veio para o Paraná e só depois a família saiu do Rio Grande do Sul e veio também para cá, diz Dirlene.

Nos diálogos Alzira até citava o nome de Artur, mas ela achava que ele já tinha falecido. Outro detalhe que chamou atenção é que os dois contaram a mesma história sobre o falecimento dos pais. A história batia, salienta a assistente social.

 

Próximo passo

Diante de algumas evidências de que os dois internos poderiam ser irmãos, Dirlene resolveu pesquisar em uma rede social se conseguiria localizar algum outro familiar. Em Lindoeste achou então o que poderia ser uma sobrinha, a qual há cerca de 20 dias visitou o asilo na companhia de sua mãe – que seria, portanto, irmã de Artur e Alzira. Inicialmente nossa intenção era fazer teste de DNA, mas essa irmã de Lindoeste, que é mais nova, falou que não precisaria de exame, pois se ela visse os irmãos reconheceria os dois. Ela comentou que fazia em torno de dez anos que não via eles, expõe.

Os familiares sabiam que Alzira estava em Marechal Rondon, mas não tinham conhecimento de que estava no Lar Rosas Unidas. De Artur não se tinha mais notícias e pensava-se que ele tinha falecido. O encontro desta irmã aconteceu em separado com cada um deles, porque o Artur e a Alzira implicam muito um com o outro, revela Dirlene. Ao iniciar a conversa, as histórias começaram a bater e Artur foi relembrando da irmã mais nova. Posteriormente Alzira foi chamada e, assim como ele, conforme a conversa foi se desenvolvendo ela lembrou da irmã. Reunimos os três e dissemos que eram irmãos. Ele ficou assustado, declara.

Mesmo diante disso, Artur e Alzira não conseguem se lembrar um do outro, talvez por um bloqueio emocional ou porque estavam há muitos anos sem se ver. A convivência pode ter sido pequena. Mesmo fazendo um trabalho para que eles se aceitem como irmãos, os dois ainda não conseguem se enxergar desta forma, observa a profissional. Eles deram uma acalmada nas implicâncias um com o outro, porque estamos trabalhando para que se aceitem com este grau de parentesco, mas ela diz que ele não quer ser irmão dela porque a acha chata, conta.

O caso foi parar no Ministério Público, que tem auxiliado na busca de documentos de Artur e Alzira. A própria irmã de Lindoeste tem fornecido informações. Já se descobriu, por exemplo, que diferentemente do que Artur dizia, ele já foi casado e tem dois filhos em Curitiba. Estamos atrás destes familiares e de outros para que possamos saber mais sobre a história deles, diz.

Nos documentos, os dois aparecem com 79 anos, com teoricamente uma diferença de cinco meses de nascimento entre um e outro. Como essa informação não bate, a Promotoria também está buscando dados a respeito disso. No entanto, segundo Dirlene, antigamente era comum os pais registrarem os filhos de uma só vez e, possivelmente por este motivo, ambos aparecem quase com a mesma idade.

 

Reação

Passadas mais de duas semanas da confirmação da descoberta, a assistente social afirma que tem conversado muito com os irmãos. Embora brincalhão, Artur tem evitado responder questionamentos sobre o assunto. Eu brinco que agora eles precisam se dar bem porque são irmãos, e ele só dá uma risadinha. Ela, por sua vez, diz que ele só quer brigar com ela. Eles sempre tomam chimarrão de manhã e digo para aproveitarem este momento para conversar. O que percebemos nestes 15 dias é que as implicâncias são menores, porque eles brigavam muito, relata.

Aqui abre-se um parêntese: até para a foto desta reportagem Artur implicou com a irmã e não quis sentar ao lado dela.

Conforme Dirlene, será preciso dar continuidade neste trabalho de adaptação deles e concluir a busca de documentos. Como a irmã mais nova reconheceu os dois não será preciso fazer exame de DNA. Não sabemos porque eles têm um bloqueio e não sabem há quanto tempo não se viam, mas acreditamos que tenham se encontrado no Paraná depois que saíram do Rio Grande do Sul, pois os dois contam a mesma história sobre o falecimento dos pais, conclui.

 

Associação Lar Rosas Unidas

Entidade sem fins lucrativos fundada em 1984 em Marechal Cândido Rondon, a Associação Lar Rosas Unidas tem capacidade para atender até 30 idosos. O asilo se mantém por meio de parte do benefício (até 70%) recebido dos idosos, conforme prevê o Estatuto do Idoso, por contribuições, doações e convênio com a prefeitura. A entidade conta com uma diretoria formada por 21 pessoas, as quais desenvolvem trabalho voluntário, sendo presidida atualmente por Junior Paulinho Niszczak.

Os internos recebem um atendimento especial, que conta com equipe multidisciplinar formada por assistente social, psicólogo, fisioterapeuta, assistência médica e odontológica.

Além disso, existem projetos desenvolvidos em prol dos idosos, entre eles uma parceria com a Secretaria Municipal de Esportes e Lazer, a partir da qual alguns profissionais de Educação Física realizam dinâmicas semanalmente; e o dia voltado à melhoria da autoestima, iniciativa intitulada Beleza Não Tem Idade, em que profissionais voluntários se dispõem a cortar o cabelo e fazer a unha dos internos. Essa ação contou com auxílio do Sicoob, que ajudou na montagem de um pequeno salão no asilo. Vejo que é o projeto que mais deu certo, porque todos gostam, tendo em vista a melhoria da autoestima dos idosos, enaltece Dirlene.

 

Quem pode ser internado

Têm preferência por uma vaga no Lar Rosas Unidas idosos em vulnerabilidade social, em situação de abandono, sem família ou incapacidade familiar. A preferência é por idosos que realmente precisam, mas se sobram vagas avaliamos os que são mais necessitados, expõe a assistente social.

 
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