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Crise na suinocultura força rondonenses a abandonar atividade e coloca-os à beira da falência

calendar_month 9 de junho de 2022
7 min de leitura

Altos custos de produção, baixa remuneração, contas a pagar e, o pior, muitos animais para pouco mercado: a suinocultura vai de mal a pior. O setor viveu uma grande reviravolta nos últimos anos, passando por tempos auspiciosos de 2019 a 2021, quando a produção brasileira virou protagonista no mercado com a decadência da produção suinícola da China devido à peste suína africana, até a queda do setor com a inesperada recuperação chinesa em um curto espaço de tempo. Somado a isso, a pandemia e a frustração de safras encareceram a atividade e só deixaram as coisas piores.

Tanto na integração quanto na produção independente, a atividade está à beira do precipício. A suinocultura perpassa gerações de produtores, porém, com a crise, a continuidade dessa tradição está em risco, visto que muitos suinocultores não têm conseguido arcar com os custos de produção.

 

Futuro comprometido

A criação de suínos está no sangue da família Bressan, de Marechal Cândido Rondon. O rondonense Alaor assumiu a atividade depois dos pais e vê sua trajetória de 40 anos na suinocultura ameaçada. “Estamos no ramo por gostar e é a base do nosso sustento, mas ultimamente está difícil de se manter na atividade”, expõe.

Para ele, as coisas começaram a dar errado ainda em 2017, quando o frigorífico Larissa, para o qual vendia suínos, foi alvo da Operação Carne Fraca, faliu e ficou devendo lotes ao suinocultor. “De lá pra cá a coisa está ainda mais difícil. Em 2018 houve queda no preço dos suínos e a greve de caminhoneiros, mas depois recuperou um pouco os valores. Além dos preços baixos, nos últimos dois anos a ração acumulou grandes altas devido à baixa produção de milho e de soja, bem como a pandemia. São fatores que acabam inviabilizando a atividade, porque o suíno tem um custo de produção muito alto e o preço baixo. Está difícil para saldar os compromissos, principalmente com custeio pecuário e de investimento com os bancos. Precisamos de ajuda para continuar produzindo, se não vamos ter que sair da atividade”, amplia.

Alaor Bressan e o filho Felipe: suinocultura é herança da família, mas tem seu futuro em risco (Foto: Divulgação)

 

Fim do caixa

O suinocultor Alceu Mielke, do distrito rondonense de Iguiporã, diz que o mercado interno, que poderia ser estimulado, também passa por maus bocados. “Do outro lado, há um consumidor que está descapitalizado e não consegue comprar a carne. Tivemos empresas integradoras fechadas na nossa região devido à crise ou diminuindo os plantéis, o que acaba até dificultando, porque os custos fixos não mudam muito”, pontua.

Mielke era associado à Rambo, empresa que faliu e está em processo judicial para pagamento das dívidas, e agora produz para a BMG Foods, que assumiu a massa falida do frigorífico Larissa.

Ele ressalta que a maior dificuldade dos suinocultores hoje é o pagamento das dívidas bancárias. “Muito foi investido pensando em incorporar tecnologia à produção, automatização, bem-estar animal e essas coisas, mas agora não temos como pagar a conta. Sempre tivemos caixa para ir bancando, mas não tem mais como”, enfatiza, acrescentando: “Nós passamos por caloteiros e perdemos a dignidade, comprometendo o CPF da família toda que está envolvida nos financiamentos. Perdemos tudo o que ganhamos. Se não houver uma intervenção do governo federal quanto a essas dívidas não tem volta e a maioria vai entrar num colapso financeiro”, lamenta.

Suinocultor Alceu Mielke, do distrito de Iguiporã: “Tivemos empresas integradoras fechadas na nossa região devido à crise ou diminuindo os plantéis, o que acaba dificultando, porque os custos fixos não mudam muito” (Foto: Divulgação)

 

Prejuízo de R$ 315 mil/mês

No interior de Marechal Rondon, o suinocultor independente Verner Horn vê o que construiu ao longo dos últimos 25 anos se esvaindo aos poucos. “Trabalhamos com uma família de quatro pessoas e temos um quadro de funcionários de mais ou menos 45 pessoas. Com a crise não temos mais saída além de vender tudo ou entregar ao banco, porque não está sobrando mais nada. É triste ver tudo o que a gente conseguiu se corroer em dois ou três anos. Não sei como vai ser o nosso futuro”, expõe o rondonense.

Atualmente, o prejuízo da Granja Horn é estimado em R$ 7 por quilo de leitão vendido. Com três mil fêmeas que produzem 30 leitões/ano cada, os prejuízos chegam a R$ 3,7 milhões por ano. “São R$ 315 mil de prejuízo por mês. Ninguém guarda dinheiro suficiente para aguentar isso, porque tem as prestações das granjas para pagar. A nossa situação ficou insuportável. Se o governo não olhar por nós, seja com anistia, mais prazo ou juros subsidiados, vai ser o caos na suinocultura”, considera.

Suinocultor Verner Horn tem prejuízo de R$ 3,7 milhões ao ano: “Ninguém guarda dinheiro para aguentar isso, porque tem as prestações das granjas para pagar. A nossa situação ficou insuportável. Se o governo não olhar por nós, seja com anistia, mais prazo ou juros subsidiados, vai ser o caos na suinocultura” (Foto: Sandro Mesquita/OP)

 

Quebradeira no setor

De acordo com o presidente da Associação Municipal de Suinocultores (AMS) de Marechal Rondon, Sérgio Barbian, a situação da suinocultura tende a se agravar cada vez mais se nada for feito. “As dívidas pendentes vão aumentando, porque os estoques seguem em alta e alguns produtores até ficaram na mão, sem integração. Os produtores independentes são os que mais amargam dificuldades, porque precisam arcar com as despesas e, às vezes, nem conseguem despachar a produção. No entanto, a crise é tanta que até na produção integrada há problemas, porque os preços são repassados cada vez menores”, expõe.

Ao O Presente, ele ressalta que o principal problema é o excesso de suínos, porém, ainda assim, a diminuição do plantel não é tão fácil. “O porco tem um ciclo longo e até que você abata fêmeas vai um tempo. Não tem como diminuir prontamente. É difícil encontrar algo que poderia ajudar o setor no momento que esteja ao alcance dos produtores. Resta à classe política a prorrogação de dívidas e o estímulo ao consumo da carne suína”, enfatiza.

Barbian prevê que a crise no setor deve levar ao fechamento de granjas no município. “É preciso esperar um posicionamento do governo. Em longo prazo, é preciso reestabelecer a saúde financeira das granjas e as empresas precisam limitar a produção”, frisa.

Presidente da AMS, Sérgio Barbian: “É difícil encontrar algo que poderia ajudar o setor no momento que esteja ao alcance dos produtores. Resta à classe política a prorrogação de dívidas e o estímulo ao consumo da carne suína” (Foto: Raquel Ratajczyk/OP)

 

Pedido de ajuda

Diante da situação calamitosa, o Sindicato Rural Patronal de Marechal Rondon, juntamente com os sindicatos de Palotina e Cascavel, elaborou um ofício e o enviou ao Ministério da Agricultura e à Frente Parlamentar da Agropecuária. No documento, as entidades tecem um panorama sobre a suinocultura e as dificuldades enfrentadas pelos produtores da região.

Segundo informações cedidas ao O Presente, na segunda-feira (06) suinocultores rondonenses tiveram uma reunião com o deputado federal Fernando Giacobo, em Cascavel, a fim de pleitear um encontro com o Ministério da Agricultura, da Economia e, quiçá, com o presidente da República, em Brasília.

 

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