As condições climáticas foram por anos os principais problemas da agricultura. No entanto, quando o tempo parece favorecer as lavouras, outros indicativos colocam as plantações em risco: a doença proveniente da cigarrinha no Paraná e, em âmbito nacional, os altos custos de produção.
O custo de produção de um hectare neste ano deve crescer 45% tratando-se de soja e 50% para lavouras de milho, conforme comparação ao ano anterior elaborada pela Confederação Nacional da Agricultura e Pecuária do Brasil (CNA). Mais especificamente, regiões do Paraná e Mato Grosso devem acumular alta entre 60% e 70% no gasto médio.
Na ponta do lápis estão o combustível e os insumos agrícolas (fertilizantes, defensivos e equipamentos). No que diz respeito aos insumos, os preços elevados se devem ao cenário internacional, com a guerra entre Ucrânia e Rússia – que é uma das principais exportadoras de adubo ao Brasil -, e à crise energética e logística vivenciada em solo chinês, de onde vem parte dos defensivos utilizados nas terras brasileiras.
Aumento de preço
O recuo dos preços depende da resolução dos problemas internacionais e não há indícios de normalização, o que preocupa produtores quanto à alta dos preços. Segundo a agência de preços Argus, o MAP – fosfato monoamônico grandemente utilizado no Brasil na fertilização das terras -acumulou aumento de 35% entre fevereiro e março de 2020. Utilizada para reposição de nitrogênio na terra, a ureia teve aumento de 39% em comparação com o segundo semestre de 2021.
Os preços em alta fazem com que alguns produtores adiem a compra na esperança de valores mais atrativos próximos ao plantio. A situação, contudo, disparou um alerta no Sindicato da Indústria de Adubos e Corretivos Agrícolas do Paraná (SindiAdubos). “Vamos ter, certamente, dificuldade de entrega. Pode ser que alguns agricultores tenham demora no plantio pelo atraso na entrega de fertilizante”, frisa o presidente do SindiAbubos-PR, Aluísio Schwartz Teixeira.
Ele explica que não comprar com certa antecipação, como é de praxe, pode gerar uma superlotação nos espaços de armazenamento nos portos, impedindo que navios descarreguem, e atrasar o escoamento do produto.
Falta de insumos?
Além da alta dos preços, há receio quanto ao desabastecimento de insumos no Brasil como consequência à guerra no Leste europeu. Olhares mais experientes, no entanto, descartam essa possibilidade. “A especulação é mais prejudicial do que tudo, porque ela induz e gera um ambiente de incerteza, o que, por vezes, leva as pessoas a fazerem coisas imprudentes. Então, vive-se muito em função do que se fala e o cenário atual parece favorecer a especulação. Existe muita informação sem fundamento sendo difundida”, considera o diretor-presidente da Frimesa, Valter Vanzella.
Ele exemplifica o cenário com uma situação vivenciada por ele quando um produtor foi refém de especulações quanto ao abastecimento de produtos. “Quando eu era presidente da Copagril, saiu uma conversa de que faltaria sal e um associado foi à cooperativa comprar meia dúzia de sacas de sal. Ele consumia um saco e comprou seis somente porque pensou que faltaria. Esse raciocínio se aplica a essa projeção de desabastecimento de insumos. Muitos produtores já estão comprando para o ano que vem, antecipadamente, e aí vai faltar. Além disso, se houver uma compra desordenada o vendedor se sente confortável para aumentar preço e criar exigências”, avalia.

Abastecimento normal
O diretor-presidente da Copagril, Ricardo Chapla, reforça que os últimos dois anos e meio foram “bagunçados” para a economia e segue sem normalização devido à guerra no Leste europeu. “Muitos daqui nem sequer têm noção de que isso pode impactar o negócio e a produção brasileira. Houve muito descontrole em vários setores, entre eles os insumos. Quando falamos de insumos agrícolas no Brasil, a maior parte vem de fora do país. Com as crises internacionais, há incerteza sobre o que teremos pela frente. Contudo, até agora o abastecimento está praticamente normal”, menciona.
Chapla ressalta que há preocupação quanto ao abastecimento, mas é preciso ter moderação para não gerar uma reação precipitada. “Também existem alguns que se aproveitam com especulação para barganhar algo. O que sabemos de concreto é que a maior parte dos nossos insumos é importada e isso vai ser truncado em algum momento, o que não vai ser bom para a produção”, salienta.

Suinocultura: vítima de projeções erradas
A atual crise vivenciada na suinocultura também é fruto de projeções errôneas, afirma Vanzella. “O Brasil paga uma conta muito grande por parte da suinocultura, porque muita gente falou e outros acreditaram que a China levaria cinco ou seis anos para se recompor da peste suína africana que a afetou. As pessoas apostaram, mas não foi bem assim e agora temos suínos sobrando, baixo preço e custo alto”, exemplifica.
O diretor-presidente da Copagril, por sua vez, relembra que a suinocultura já superou outras crises, mas foram mais curtas. “As especulações trazem consequências muito maiores do que o pensado numa reação rápida. Depois precisamos fazer muita ginástica para mantermos a produção”, expõe.
O problema das especulações
O diretor-presidente da Frimesa indica que é preciso ter calma e discernimento diante do que se projeta, não agindo sem certificar-se das consequências. “O mundo vive uma turbulência e precisamos ter cuidado. Hoje há problema de desabastecimento em todos os setores. Tem máquinas que eles não entregam, porque faltam chips que a China não está produzindo. Então, o momento realmente é complicado e existe falta de coisas. Ainda não se confirmou um desabastecimento quanto aos insumos, mas, às vezes, no conjunto da obra, qualquer alteração no abastecimento pode ser sentida por meses”, ressalta.
Apesar da incerteza, ele afirma que caso o desabastecimento aconteça sempre há uma maneira de contornar a situação. “As coisas mudam muito rápido. Por exemplo, uns três meses atrás o produtor de leite estava berrando, porque os preços estavam ruins, mas hoje o preço está ruim para quem precisa comprar leite. Por isso a precipitação é um risco, pois as ações tomadas em cima de um afogadilho podem trazer consequências negativas”, opina.
Insumos para safras futuras
O diretor-presidente da Copagril diz que há otimismo para que a pressão internacional se normalize para garantir a estabilidade de safras futuras. “Para o plantio a ser efetuado a partir de setembro temos praticamente todos os insumos garantidos, mas pode ocorrer que algum produto falte de última hora, mas geralmente tem outro para suprir. Já trabalhamos e temos negócios para o próximo plantio do milho safrinha e a expectativa se volta para o fim do conflito entre Rússia e Ucrânia. Não temos certeza e precisamos avaliar o que vai acontecer nos próximos meses para trabalhar naquilo que pode faltar”, pontua.
Apesar dos contratempos, safra atual move expectativas positivas
Chapla comenta que a projeção para a safra em andamento é positiva. “O milho colhido até agora adianta que vai haver muita diferença entre lavouras em função de doenças. A questão climática até favoreceu, mas as doenças, especialmente a cigarrinha, tem tirado produtividade de algumas lavouras. No geral, a projeção para a nossa região é de uma produtividade boa, com grande volume de milho”, menciona.
Ele ressalta que a colheita deste ano deve ter como característica a sua extensão. “O plantio foi muito extenso, num prazo de 60 dias de um para outro. Então, a colheita vai ser uma consequência disso. Estamos preparados para colher e receber uma grande safra de milho, talvez uma das maiores dos últimos anos”, almeja.
O Presente