As indústrias cerâmicas da região Oeste do Paraná estão sobrevivendo aos infortúnios econômicos brasileiros graças ao aquecimento da construção civil, um dos poucos setores que não suspendeu, nem desacelerou, as atividades durante a pandemia.
Responsável pelo abastecimento de insumos indispensáveis nos canteiros de obras, o segmento ganhou fôlego com o aumento da demanda.
Segundo o presidente do Sindicato das Indústrias de Cerâmicas e de Olarias do Oeste do Paraná (Sindicer Oeste), Mauri Guido Schirmer, o bom momento do setor está atrelado ao aumento das vendas por conta da escassez de produto. “Principalmente por ter fechado várias indústrias cerâmicas na nossa região que passaram vários anos de crise”, declarou ao O Presente.
REAJUSTES
Para minimizar os recorrentes prejuízos ao longo dos últimos anos, os preços precisaram ser reajustados durante a pandemia. “Tivemos que reajustar os preços por causa do aumento da matéria-prima, combustível, salário, energia elétrica, pedágio, peças de reposição e material de queima”, relata.
Apesar da atual situação ser positiva, Schirmer destaca a elevação do custo de produção. “Os preços tiveram reajuste superior aos outros anos por consequência da procura e aumento absurdo do custo de produção”, ressalta.
De acordo com o presidente do Sindicer Oeste, quem vai dizer quanto tempo o setor permanecerá aquecido e os preços reajustados se mantenham é o mercado. “Não tem como trabalhar se não for com o preço que está agora”, salienta.

Presidente do Sindicer Oeste, Mauri Schirmer: “O momento é positivo para o setor por conta da construção civil estar em alta e não ter parado na pandemia” (Foto: arquivo pessoal)
MODERNIZAÇÃO
Para a produção acompanhar a demanda do setor da construção civil e com o déficit provocado pelo fechamento de algumas cerâmicas na região, muitas empresas precisaram rever seus conceitos produtivos.
Uma das mudanças encontradas foi modernizar a linha de produção, que passou a produzir mais com custo menor. “Muitas cerâmicas aumentaram a produção para atender o mercado e muitas, inclusive, modernizaram a produção para diminuir custos e obter mais resultados”, expõe Schirmer.
Na Cerâmica Stein, em Entre Rios do Oeste, há um ano 80% da produção foi automatizada. Além de reduzir o custo, a automação foi necessária devido à pouca oferta de profissionais no mercado, conforme relata o proprietário Romário Schaefer. “Foi preciso automatizar parte da produção porque falta mão de obra”, afirma.
Segundo Edson Strassburger, sócio-proprietário da Cerâmica Havaí, do município de Santa Helena, outra vantagem da automação é a padronização do produto, o que é uma exigência da construção civil. “Além do controle e precisão, a automação se destaca em qualidade do processo produtivo”, enaltece.
Ele diz que simultaneamente com a modernização é preciso estar atento à mão de obra especializada para operar maquinários modernos que necessitam de maior conhecimento dos colaboradores. “A automação exige um pouco mais do intelectual das pessoas para operar um robô ou uma máquina”, exemplifica.

Romário Schaefer, da Cerâmica Stein: “No início da pandemia foi assustador. Em março do ano passado chegamos a dar férias coletivas, mas logo as coisas normalizaram e hoje o produto está em falta no Brasil todo. Atualmente, está ótimo” (Foto: Sandro Mesquita/OP)
DESAFIOS
Para Schaefer a indústria ceramista enfrenta obstáculos que estão diretamente relacionados ao mercado e à política do país, e ainda causam incertezas no setor. “O desafio é preparar a empresa para estas variantes, produzir com qualidade e competitividade”, considera.
Conforme Strassburger, o início da pandemia gerou muita apreensão no setor, todavia, após o péssimo período vivido no mês de janeiro, as incertezas deram lugar ao otimismo. “Estávamos esperando que o mercado parasse, mas fomos surpreendidos com a demanda muito maior do que esperávamos”, menciona.
Na opinião do santa-helenense, outro desafio do setor é superar a imagem negativa dos produtos do setor ceramista, criada por conta de baixa qualidade existente em algumas indústrias do ramo. Segundo ele, priorizar somente o preço pode resultar em produtos de baixa qualidade. “Mas se colocarmos na ponta do lápis, esse mais barato gera um custo muito maior do que se você comprar um produto de qualidade”, frisa.

Edson Strassburger, sócio-proprietário da Cerâmica Havaí: “Esse um ano de pandemia foi muito positivo para o setor. Esperamos que continue bem. Tudo vai depender de um plano econômico que reflita na construção civil” (Foto: Arquivo/OP)
PROJEÇÕES
De acordo com presidente do Sindicer Oeste, a expectativa para os próximos meses é de que o setor continue em alta, mas para isso é necessário que a construção civil se mantenha estável. “A perspectiva é que a construção civil permaneça em alta para continuar produzindo e poder estruturar as indústrias para que quando o setor entre em crise consiga sobreviver”, aponta Schirmer.
Schaefer acredita que o déficit de moradias e o ótimo momento do agronegócio no país devem manter o setor em franca aceleração. “As expectativas são ótimas, e com o fim da pandemia a economia vai crescer ainda mais, gerar mais empregos e teremos mais gente com condições de construir. É só a política deixar”, entende o empresário entrerriense.
Na visão de Strassburger, o mercado deve se manter aquecido este ano, mas existe um pouco de receio para o próximo ano, uma vez que haverá eleições. “Esperamos que continue bem. Tudo vai depender de um plano econômico que reflita na construção civil”, avalia.
O empresário santa-helenense entende que o futuro do setor ceramista deve acompanhar as mudanças nos métodos de construção que estão aos poucos sendo inseridos no mercado. Para ele, o ramo cerâmico terá que passar por uma grande adaptação. “Quem não conseguir mudar e ficar no passado pode ter que fechar as portas”, evidencia.

Automação da produção foi um dos caminhos encontrados para o reequilíbrio financeiro do setor ceramista (Foto: Sandro Mesquita/OP)
O Presente