Os municípios que compõem o Núcleo Regional de Toledo do Departamento de Economia Rural (Deral), ligado à Secretaria da Agricultura e Abastecimento (Seab), foram os que contabilizaram a maior perda na safra 2018/2019.
Juntos, os 20 municípios somaram 39,7% na quebra da soja, principal cultura de verão, em relação à expectativa inicial e 36% em relação à produção da safra passada.
Segundo o técnico do Deral, Paulo Oliva, a expectativa da região era produzir em torno de 3.450 quilos da oleaginosa por hectare, contudo, o resultado da safra foi de 2.259 kg/ha. “A região beira lago foi a que sofreu mais, por isso justamente o Núcleo de Toledo teve esse resultado de maiores perdas em relação às demais áreas do Estado”, menciona.
Por conta de a altitude ser menor mais próxima ao Lago de Itaipu, consequentemente a temperatura aumenta. Com isso, a intensidade do sol é maior, o solo mais arenoso e a planta perde umidade mais rápido. “Dois graus já fazem bastante diferença para a soja. Nas condições que tivemos em novembro e dezembro principalmente, vimos regiões passando mais de 45 dias sem chuvas”, relembra. “Nunca vimos soja sendo colhida antes do Natal e nessa safra aconteceu porque a planta secou. A consequência disso foi a perda em qualidade e produtividade, com grãos ainda verdes”, complementa Oliva.
Números
Cerca de 80% da área de 5,4 milhões de hectares cultivados nesta safra em todo o Paraná já está colhida. Na abrangência do Núcleo Regional de Toledo do Deral, nos 481.508 hectares semeados foram colhidas 1.087.726 toneladas de soja, que renderam uma média de 2.259 kg/ha. Na safra 2017/18, o resultado havia sido de 3.552 kg/ha.
Já o milho verão resultou em 8.418 kg/ha, semeado em uma área de 4.975 hectares e resultando na produção de 41.881 toneladas – 6% menor do que esperado de acordo com a projeção inicial da safra, conforme o Deral.
Em nível estadual, a quebra na safra de soja chegou à casa dos 15%, com produção de 16.254.411 de toneladas e rendimento de 2.989 kg/ha. No início da safra, a produção era estimada em 19,6 milhões de toneladas
Quebra deve levar a reflexões
Problemas climáticos como seca e o excesso de calor nas principais regiões produtoras, como é o caso do Oeste paranaense, são alguns dos fatores que levaram à quebra desse ciclo.
Estas, no entanto, poderiam ter sido minimizadas frente à adoção de práticas de manejo e conservação de solo que, apesar de legislação específica no Estado, têm sido deixadas para trás pelos produtores ao longo das safras. “A rotação de culturas é algo que não vemos na nossa região. Plantar soja no verão e milho no inverno é sucessão de culturas, que o agricultor vai fazendo ano após ano e a camada superficial do solo, até 20 centímetros, acaba adensando, o que traz diversos problemas”, pontua o fiscal da Agência de Defesa Agropecuária do Paraná (Adapar), Anderson Lemiska.
O primeiro deles, explica, está no fato de a raiz das plantas não conseguir ultrapassar essa camada compactada e o potencial de exploração ser diminuído. “Outro problema está na redução da capacidade de armazenamento da água da chuva”, comenta.
Além de causar situações como erosão, escoamento superficial e carreamento de solo, a falta de capacidade de armazenamento da água implica no desenvolvimento das plantas em situações de déficit hídrico, como ocorreu na safra 2018/19. “Uma planta que poderia suportar mais dias de seca, por exemplo, acaba tendo maior comprometimento, principalmente se o déficit hídrico ocorrer próximo ao florescimento e ao enchimento de grão”, enaltece Lemiska.
Consorciação do milho
O fiscal da Adapar diz que pela soja ser a principal cultura, promovendo alta rentabilidade ao produtor e pelo milho envolver as empresas de sementes e fertilizantes, além de ser a matéria-prima para produção de ração da atividade pecuária, realizar a rotação de cultura nesta cadeia é um desafio.
Uma das alternativas, entretanto, está na consorciação do milho com braquiária ou crotalária. “Outra opção ao produtor destinar uma parte da área para o plantio de aveia, trigo ou cobertura verde, escalonando a cada ano”, salienta.
Agricultura simplificada
Marechal Rondon, junto a outros municípios da região Oeste, como Toledo, Cascavel e Assis Chateaubriand, é um dos maiores consumidores de agrotóxicos. Para o fiscal da Adapar, porém, este é um fato não observado pelos agricultores, que realizam aplicações irregulares e desnecessárias de defensivos agrícolas que acabam prejudicando a microbiologia do solo e simplificam a agricultura. “O micro-organismo que é interessante para fazer a degradação da matéria orgânica, para competir com patógenos, deixa de existir. Em áreas que a Adapar realizou análise foliar do milho, foram encontrados 12 ingredientes ativos em uma folha de milho. Que biologia de solo vai ter, que insetos predadores, competidores?”, questiona.
Lemiska destaca que, nesta situação, começa a ocorrer a seleção de organismos mais resistentes, principalmente aqueles mais danosos às plantas. “Estamos observando nos municípios do Oeste percevejos, lagartas, estria bacteriana no milho, uma doença nova na nossa região, esses problemas fitossanitários novos, como o enfesamento do milho, que não está bem definido ainda, que é também um resultado dessa simplificação da agricultura”, observa.
O fiscal da Adapar compara que as plantas são melhoradas geneticamente para produzir mais, todavia, elas ficam mais sucessíveis ao ataque de pragas e doenças porque ficam menos resistentes. Por isso, ao passo em que o potencial de produção da planta aumenta, se ela está em um solo compactado, vai produzir menos porque é mais exigente em termos de água e nutrientes.
Conservação do solo
Práticas como a retirada ou rebaixamento de terrações também são observadas na região – algo que vai no caminho contrário das ações de conservação de solo que colocaram o Paraná na vanguarda como modelo em proteção do solo nas décadas de 1980 e 1990. “O terraço tem como função reter a água, infiltrar e armazenar. Quando ele é rebaixado ou retirado, a água passa por cima e o solo que podia ficar com uma caixa d’agua maior tem esse potencial muito reduzido”, enfatiza.
Lemiska também aponta para outra ação da agricultura que “simplifica” o processo: a aplicação de fertilizantes minerais. “Vemos pouquíssimos produtores que utilizam fontes orgânicas de nutrientes, como dejeto suíno, bovino ou de aves, apesar de termos um potencial enorme na região pela produção pecuária”, lamenta.
Ele afirma que a adubação orgânica, ao contrário da mineral, coloca mais micro-organismos no solo, resultando em maior aeração e liberação de nutrientes. “A simplificação do processo é uma comodidade para todos. O fertilizante, por exemplo, o comerciante tem a forma química que é mais fácil de transportar, armazenar e tem um prazo de validade mais estendido. Já o fertilizante orgânico tem um prazo de validade mais curto, tem odor”, aponta.
Produtor mais crítico
Lemiska comenta que os agricultores também não buscam realizar o manejo integrado de pragas e doenças, já que a aplicação de agrotóxicos é muito mais prática do que fazer o monitoramento de pragas. “Quem define a aplicação ou não é o agrônomo, mas o agricultor pode ser mais curioso e fazer monitoramento na lavoura. Se está em condição de seca, por exemplo, será que precisa aplicar fungicida na soja? Está mesmo na condição para desenvolver o fungo? A planta já está estressada sem água e será ainda mais estressada pela aplicação do agrotóxico, tendo diminuição do potencial produtivo”, expõe.
O agricultor, na visão dele, deve ser mais questionador, mais técnico e crítico. “As quebras de produtividade, seja por seca, por ataque de doença, queda de rentabilidade, estão embutidas nesse processo. A agricultura precisará se tornar mais competitiva nesse aspecto”, considera.
O Presente