Na tradição de muitas famílias da região Oeste cultiva-se a receita que une os quatro elementos da natureza – água, fogo, ar e terra – e os converte em verdadeiros blocos de transformação. É por meio das indústrias oleiras que tanto a área urbana quanto a rural têm meios de crescer e evoluir.
Há cerca de oito anos, a produção de cerâmicas passou por momentos de verdadeira provação e o setor teve de se reinventar para continuar provendo materiais para o avanço das construções.
“A construção civil vinha em queda, parada e não se vendia muito. O setor ceramista passou por uma verdadeira crise. Cerca de 14 indústrias fecharam no nosso sindicato. Hoje é perceptível uma falta de tijolos e telhas no mercado e isso se deve principalmente a essa quebradeira que aconteceu em 2013”, explica ao O Presente o presidente do Sindicato das Indústrias Cerâmicas e Olarias do Oeste do Paraná (Sindicer Oeste), Mauri Schirmer.
Em 2020, o setor mais uma vez se viu diante de adversidades no mercado com a pandemia do coronavírus. “Nós paramos a produção por cerca de duas semanas, as vendas diminuíram, mas, passando isso, conseguimos entrar nos eixos novamente. Afinal, o setor da construção civil não parou e de 60 dias para cá a demanda até aumentou”, enaltece Schirmer.
As adversidades, segundo ele, foram amenizadas por outros fatores que favoreceram a indústria cerâmica. “Em outros anos, sentíamos muita dificuldade em conseguir material de queima, principalmente no inverno. Nesse ano de estiagem, por outro lado, está sobrando material”, destaca, lembrando que uma questão recorrente no setor é a falta de mão de obra, haja vista o caráter pesado do trabalho.

Presidente do Sindicato das Indústrias Cerâmicas e Olarias do Oeste do Paraná (Sindicer Oeste), Mauri Schirmer: “Hoje, é perceptível uma falta de tijolos e telhas no mercado e isso se deve principalmente à quebradeira que aconteceu em 2013” (Foto: Divulgação)
REAJUSTE NO PREÇO
De acordo com o presidente do Sindicer Oeste, o tijolo registrou aumento no preço de 40%, conforme o Sindicato da Indústria da Construção Civil no Estado do Paraná (Sinduscon-PR). “Vínhamos há oito anos sem reajuste. Não é um abuso nos preços, está no patamar. Tivemos aumento em tudo, ferro, materiais de queima e similares, é consequência. Agora, trabalhamos com uma pequena folga, há uma margem de preço”, expõe.

Construção civil contribui para que a atividade oleira tenha boa demanda (Foto: Divulgação)
PERSPECTIVAS FUTURAS
Com a expansão do setor da construção civil, intimamente ligado à atividade oleira, surgiram alternativas ao uso de telhas e tijolos de barro, como é o caso dos blocos estruturais de concreto. Segundo o presidente do Sindicer Oeste, as indústrias de cerâmica não sentiram prejuízo com essa nova concorrência. “São obras diferentes para cada uso. Quem deseja vedação sonora, absorção da água e vedação, o bloco cerâmico ainda é a melhor escolha”, garante.
Para ele, as perspectivas do setor oleiro são positivas, considerando que há uma demanda crescente pelos produtos, que por vezes chegam a faltar no mercado. “A falta de produtos no Oeste acontece porque costumávamos receber materiais do Centro Sul. Contudo, as construções por lá aceleraram e não sobra material para outros lugares. Assim, as empresas daqui têm um grande mercado”, observa.
SUPORTE DA CONSTRUÇÃO CIVIL
Sócio-proprietário da Cerâmica e Madeireira São Luiz, de Pato Bragado, que está no mercado há 57 anos, Reinaldo Scherer avalia que a pandemia afetou todos os setores da economia, entretanto, aponta que a construção civil reagiu rápido, o que deu fôlego à atividade oleira. “A queda da taxa Selic influenciou muito, os juros caíram e as pessoas que tinham dinheiro aplicado começaram a investir em imóveis, o que nos rendeu uma procura muito grande de material. Tanto na região como em nível nacional, a construção civil impulsionou a economia”, salienta.
De acordo com ele, as indústrias de cerâmica que hoje vigoram na região são aquelas que conseguiram superar os anos de decadência. “A ação do sindicato foi muito importante. A união dos empresários fez com que adquiríssemos um olhar diferente em relação ao mercado. Participamos de muitas feiras, reuniões, eventos, qualificamos e automatizamos a linha de produção, remodelando toda a indústria cerâmica desde então. Hoje o setor cerâmico está equilibrado”, opina.

Sócio-proprietário da Cerâmica São Luiz, Reinaldo Scherer, de Pato Bragado: “A queda da taxa Selic influenciou muito, os juros caíram e as pessoas que tinham dinheiro aplicado começaram a investir em imóveis, o que nos rendeu uma procura muito grande de material” (Foto: Divulgação)
SELO TERRA BRUTA
O empresário diz que mesmo com os novos produtos empregados na construção civil, as telhas e tijolos de argila vêm de uma cultura familiar e seguem normas de medida e resistência para garantir a qualidade. “Quando se fala em sustentabilidade, os blocos cerâmicos são compostos pelos quatro elementos: água, fogo, ar e argila”, menciona Scherer, que produz cerca de 400 mil telhas e tijolos mensalmente em sua empresa.
A fim difundir o padrão de qualidade dos produtos, aponta o industrial bragadense, criou-se o Selo Terra Bruta Paraná. “Nós, do Sindicer, com apoio do Sebrae (Serviço Brasileiro de Apoio às Micro e Pequenas Empresas), formatamos um selo de qualidade que certifica produtos que seguem as normas vigentes. A cada três meses, esses produtos passam por novos ensaios para comprovar que seguem os padrões. Vale mencionar que nós somos a maior região do Brasil onde há mais empresas do setor certificadas no Inmetro (Instituto Nacional de Metrologia, Qualidade e Tecnologia)”, enaltece.

Selo Terra Bruta certifica produtos com qualidade nas indústrias cerâmicas. No Brasil, região Oeste do Paraná é a que possui mais empresas certificadas pelo Inmetro (Foto: Divulgação)
RECUPERAÇÃO
Proprietário da Cerâmica Stein, de Entre Rios do Oeste, Romário Schaefer conta que a produção de sua indústria caiu pela metade com o início da pandemia. “Tivemos que fechar por 15 dias e o medo tomou conta dos setores. O mercado foi devagar e reduzimos em cerca de 50% a produção. Hoje, contudo, já recuperamos e o setor começou a reagir”, afirma.
Nos últimos oito anos, Schaefer mensura que aproximadamente 30% das cerâmicas do Paraná fecharam. “Para se ter uma ideia, em 2013 a energia elétrica estava em R$ 0,18 por quilowatts e em mais ou menos um ano e meio passou para R$ 0,52, ou seja, quase triplicou. Isso levou muitas empresas a saírem do setor cerâmico. As empresas que conseguiram suportar esse e outros obstáculos estão no mercado até hoje”, pontua o empresário.
Ele ressalta que a Cerâmica Stein se diferencia nesse quesito das demais empresas do ramo. “Nossa indústria produz 50% da energia que consome proveniente do biogás. Somos a primeira empresa do setor que faz uso do biogás no Brasil. Estamos desenvolvendo estudos e até fim do ano devemos ter 80% da energia consumida retirada dos biodigestores”, revela.

Proprietário da Cerâmica Stein, Romário Schaefer, de Entre Rios do Oeste: “Nossa indústria produz 50% da energia que consome proveniente do biogás. Estamos desenvolvendo estudos e até fim do ano devemos ter 80% da energia consumida retirada dos biodigestores” (Foto: Divulgação)

Na Cerâmica Stein, cerca de 50% da energia utilizada é proveniente do biogás produzido na propriedade (Foto: Divulgação)
O Presente