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Vilson Schwantes afirma que não voltará para a política de Mercedes

calendar_month 7 de junho de 2019
12 min de leitura

 

Na eleição de 2004, Mercedes viu “a hora da virada”. Pelo menos é o que conta o ex-prefeito do município, Vilson Schwantes. Sem ter ocupado cargos políticos até então, considerando-se externo a este cenário, ele foi convidado a colocar seu nome nas pesquisas e o resultado surpreendeu. Não só a população, mas principalmente ele mesmo.

Ainda que muito apoiado pela comunidade, que buscava no professor de Matemática a disciplina e a organização necessárias para colocar as contas da prefeitura em dia, após oito anos de mandato Schwantes deixou o cenário político e voltou a dedicar sua carreira exclusivamente às salas de aula. “Se eu ganhasse, estaria prefeito, mas depois voltaria a ser professor. E foi o que eu fiz. Foi um momento muito rico da minha vida, fiz muitas amizades e conquistei reconhecimento, mas minha bandeira sempre foi a de que a alternância é fundamental na política”, afirma.

Em entrevista exclusiva ao Jornal O Presente, Schwantes relembra a participação no desenvolvimento do município, as expectativas para as próximas eleições municipais e avalia o atual cenário político e econômico brasileiro.

 

O Presente (OP): Quando candidatou-se a prefeito, o senhor não era uma pessoa que transitava na política de Mercedes, não havia ocupado cargo de vereador ou mesmo no Executivo municipal, e ainda assim venceu a eleição de 2004 com 231 votos de diferença. Como se deu a sua entrada na política?

Vilson Schwantes (VS): Eu considero que a vida é feita de momentos. Cada pessoa tem um estilo de viver a vida e eu, não sei se por conta da minha formação, sou extremamente disciplinado, organizado e focado naquilo que eu faço, naquele momento histórico da minha vida entrei na política por um “acidente de percurso”. O meu grupo, na época, vinha de eleições perdidas e decidiu trocar os candidatos. Eu não era da política, não fui vereador nem ocupei cargos públicos, mas era uma pessoa envolvida com a comunidade.

Eu atuava como professor, havia sido diretor em Três Irmãs, minha esposa, Eloísa, nasceu lá e também havia sido diretora da escola, eu jogava futebol na comunidade, então eu tinha certa visibilidade e o partido foi se aventurar com o professor. Foi uma luta para me convencer, assim como a minha esposa também, mas aceitei colocar meu nome na pesquisa achando que iria perder, tendo em vista que os demais candidatos já eram muito conhecidos neste cenário. Na época eu lecionava à noite, não teria como fazer campanha, mas os amigos e colegas conseguiram e quando eu apareci com meu discurso e uma postura bastante focada e a população me considerava uma pessoa séria, eu venci. Foram 231 votos de diferença para o Guinther Radoll (PSDB), que era o outro candidato e, até aquele momento na história do município, foi a maior votação.

 

OP: A sua intenção foi partir para uma reeleição na época?

VS: Eu me programei para ficar quatro anos, mas acabaram se tornando oito. Eu continuei em sala de aula, na época na Faculdade Luterana Rui Barbosa (Falurb) em Marechal Cândido Rondon, mas tinha como premissa que, se ganhar, eu estarei prefeito, mas depois sou professor. Me aconselhei com várias pessoas que considero bastante equilibradas, porque sou totalmente contrário a radicalismos, e por essas conversas e pelo meu próprio pensamento, não poderia, depois de oito anos, ficar como um cachorrinho que caiu da mudança. Então conversei com a equipe de governo, verificamos a legalidade e continuei lecionando durante os oito anos na Falurb, especialmente porque em sala de aula você precisa de um certo traquejo que eu não queria perder se me afastasse totalmente.

 

OP: Depois que deixou a chefia do Executivo, por que não considerou continuar com uma carreira política ativa?

VS: Recebi convites, mas para mim a política é de momentos. Entretanto, a seriedade, conhecimento e, acima disso, o respeito são necessários sempre. Ser prefeito foi um momento muito rico da minha vida, fiz muitas amizades e conquistei reconhecimento, inclusive da oposição da época, porque eu tinha um diálogo muito aberto. Hoje tenho liberdade para transitar onde quero, mas a minha bandeira sempre foi a de que a alternância é fundamental na política. Eu acredito que tive grande aceitação da comunidade por conta desse meu perfil, que é a conduta que sempre tive na minha vida. A população buscava um gestor mais disciplinado e, enquanto professor de Matemática, havia essa ideia de que eu colocaria as contas em dia. Por um lado foi bastante positivo, mas, por outro, enfrentamos grandes desafios. A Lei de Responsabilidade Fiscal é de 2000 e eu assumi em 2005. Nos quatro anos que me antecederam, as contas do município foram totalmente desaprovadas e essa transição de mandatos culminou também com o falecimento do ex-prefeito Lídio José Schneider. É claro que o prefeito não é o responsável por cumprir a Lei de Responsabilidade Fiscal, há toda a equipe que precisa se envolver e estar atenta a todas essas questões. Quando assumi foi necessário um trabalho para colocar tudo nos eixos. Montamos uma equipe muito técnica, fizemos consultorias jurídicas e muitos “nãos” foram ditos a presidentes de associações, por exemplo. Todavia, o cidadão gosta da seriedade, da verdade, a tratativa olho no olho e se preciso dizer não, explicar porque é não e que há coisas que a lei não permite. Eu sempre mantive esse perfil e brinco que, se voltar hoje como candidato a prefeito, não tenho dúvidas de que possa vencer a eleição. Mas não tenho a mínima pretensão de fazer isso.

 

OP: Então está oficialmente aposentado da vida pública? Não considera voltar ao cenário político em nenhuma circunstância?

VS: Não quero mais porque tive minha oportunidade. Sou a favor da alternância de poder porque penso que todas as pessoas têm capacidade, só precisam de oportunidade. Jamais fui favorável a uma pessoa querer perpetuar-se na política.

 

OP: Mas enquanto docente, sendo professor em quatro cursos na Unioeste, a carreira segue?

VS: Quando terminei meu mandato, eu tinha oito horas no Estado. Já estava há oito anos em licença sem vencimento, fiz os processos necessários e voltei para a Unioeste, onde entrei no quinto concurso, em 1990. Quando retornei fui recebido com bastante respeito, tive um acolhimento muito bom, algo que até me surpreendeu. Eu já poderia estar aposentado também das salas de aula, mas diversas questões me influenciam a permanecer. Minha esposa, também professora, não está aposentada, então não poderemos viajar por muito tempo, fazer um cruzeiro ou ficar mais tempo na praia. Além disso, há questões familiares, cuidamos de uma matriarca que precisa de um acompanhamento bastante próximo. Brinco que reclamamos de tudo, menos do trabalho na universidade. Aqui, desde que você faça com responsabilidade, é muito bom de trabalhar. A minha relação com os alunos é muito boa porque eles sabem quando o professor trabalha com amor e gosta do que faz, ainda que em disciplinas mais ásperas. Me sinto mais vivo trabalhando em meio a essa juventude.

 

OP: O senhor se mantém no Movimento Democrático Brasileiro (MDB), partido ao qual era filiado quando prefeito?

VS: Continuo, mas não sou praticante, nem apaixonado.

 

Ex-prefeito de Mercedes nas gestões 2005/2008 e 2009/2012, Vilson Schwantes é graduado em Matemática e mestre em Educação, sendo professor titular na Unioeste nos cursos de Ciências Contábeis, Administração, Agronomia e Zootecnia. A carreira iniciou em 1978, como professor da Escola Getúlio Vargas, no interior do município (Foto: Mirely Weirich)

 

OP: Ainda que fora do cenário político de Mercedes, enquanto cidadão, o senhor acompanha o momento político e econômico que vivemos no Paraná e também no Brasil. Pela sua experiência, como avalia hoje as conjunturas estadual e federal?

VS: Mercedes é um lugar pequeno, mas o funcionamento da gestão, guardadas as devidas proporções, é igual à do Estado e no órgão federal. Uma das coisas que aprendi na gestão de Mercedes foi que, enquanto o nosso sistema de governo não mudar, eu não me iludo mais. Há vários aspectos que vejo com descrença hoje e já não me iludi mais na eleição passada. Por uma viagem de família, acabamos não votando no segundo turno, a primeira vez que deixei de votar na vida, mas veio muito a calhar, porque não tinha nenhuma vontade de votar. Muitas pessoas esperavam grandes mudanças com o novo presidente e hoje, passados cinco meses do novo governo, comentam que não viram muita da mudança que era esperada. Eu, no entanto, já não tinha essa mudança como expectativa no ano anterior. O ente político, seja no município, Estado ou no governo federal, vai manter a conduta que teve em sua vida toda na gestão, ele carrega esse caráter e personalidade consigo. O atual presidente Jair Bolsonaro foi, em toda sua vida, uma pessoa intempestiva, com conversas ríspidas à base de palavrões. É um comportamento como o dólar: de manhã sobe, à tarde cai, no fim da manhã sobe de novo… mas governar dessa forma, na minha visão, em um sistema democrático nunca funcionou. O que funciona na democracia é a boa conversa, ceder para poder avançar, retroagir um passo para avançar dois. Esse nunca foi o perfil do presidente e eu estou preocupado porque teremos muitos momentos de turbulência até o fim desse mandato.

Isso é extremamente ruim porque toda a economia gira em torno de decisões políticas, inclusive na iniciativa privada. Já deu para sentir e isso vai continuar. Quem é investidor, tanto interno como externo, numa economia que oscila tanto tem um nível de confiabilidade muito baixo. Para dar certo, precisaríamos de uma pessoa mais equilibrada, ponderada e mais harmoniosa. Estou bastante descrente da política brasileira prospectando para o futuro, não falando em nome de candidatos. Esse sistema é podre na essência. A democracia nem é tão velha assim, mas está corroída de negociatas, propinas. Como alguém vai ser presidente disso? Eu admiro quem tem a coragem.

 

OP: Nessa conjuntura de oscilações e principalmente desafios aos gestores, pode-se considerar que o Paraná, comparado aos demais Estados, está em uma situação mais confortável?

VS: O governo estadual, assim como o federal, teve a oportunidade de enxugar a máquina no começo do mandato e não o fez. Agora sofremos as consequências. Se pensarmos que, pela lei, 8% do orçamento vai para o Legislativo, tanto no município, quanto em Estados e no país, 20, 30 anos atrás, as receitas do Executivo eram muito menores do que hoje e o gasto do Legislativo também era menor. Se apenas imaginarmos: nesses 30 anos, em quantos milhões aumentaram as receitas municipais, estaduais e federais e compararmos com a estrutura do Poder Legislativo, que amentou talvez zero vírgula alguma coisa.

Quando não tem um governo que começa enxuto há problemas. O que pesa hoje é o custo do governo. O Estado, quando o novo governador entrou, não enxugou a máquina. O presidente da República tentou no começo, com o corte de alguns ministérios, mas que aos poucos já estão voltando. Tudo isso tem reflexo em greves que já estão começando. O Governo do Estado está há três anos sem realizar reajustes aos professores. Isso porque não tem caixa. No governo federal, o Bolsonaro tinha um perfil de que iria pôr ordem enquanto militar, era o que a maioria acreditava. Eu, particularmente, nunca acreditei. O estilo dele não funciona. Você precisa convencer com argumentos, bom senso e clareza. Presidencialismo é um sistema democrático que funciona nos discursos e nos livros, porque na negociação é corrupto.

 

OP: E falando em entes políticos, o Oeste do Paraná perdeu dois dos seus principais nomes que representavam a região no governo estadual. O senhor acredita que foi algo ruim ou, por outro lado, mostra que os atores políticos regionais precisam despertar?

VS: Foi algo extremamente ruim. Quando saio de Mercedes observo o viaduto construído em Marechal Cândido Rondon, por exemplo, foi uma obra bastante questionada na época, questionada, mas um dos investimentos que só saíram porque havia liderança política local com os “caciques”. Começava pelos prefeitos, que trabalharam juntos para fazer acontecer, mas os deputados da região estavam sempre ao lado. Hoje quando passo em Toledo e, mesmo com essa crise instaurada, sem recurso para nada, vemos a obra da BR-163 andando, mas chegando em Cascavel, congestiona no primeiro entroncamento. Essa é uma mostra clara da importância que a representatividade política no Estado faz diferença. Quando eu era diretor em Mercedes, o falecido ex-vereador Valdir Verona queria falar de política comigo, mas eu dizia que política e educação não deveriam se misturar. Ele me disse: tudo é política, e hoje compreendo melhor. Se a população quer uma rodovia feita, melhora na saúde, na educação, na infraestrutura: tudo depende de atos políticos. A minha bandeira continua sendo a de que precisa existir alternância de poder. O que faltou no caminho, para a nossa região, foi isso. Os deputados do Oeste acreditavam que a vida toda precisariam ser eles atuando. Faltou chegar os novos nomes.

 

OP: Quanto ao governo de Mercedes? As eleições municipais acontecem no ano que vem. Como será esse cenário, na sua opinião?

VS: Eu mantenho o discurso que tive enquanto estava na gestão: espero que sempre tenhamos na linha de frente pessoas de bem, que realmente tenham o espírito humanitário e comunitário como foco principal para gerir. Mercedes é o lugar que eu escolhi para morar com a minha família, eu gosto deste município e é onde tenho meus amigos. É uma cidade que quero bem e onde provavelmente vamos viver para sempre. Os gestores precisam entender que também são servidores municipais, e que enquanto servidores precisam servir, não serem servidos. Se decidirem que querem dedicar um determinado período de suas vidas para, com amor, servirem à comunidade que gostam e escolheram morar, que o façam. Foi isso o que eu fiz e não me arrependo de nada. Mas se me perguntar se é fácil, claramente a resposta é não.

 

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