Paraná

O futuro dos jornais em debate

Proprietários, executivos e jornalistas de 20 jornais do interior do Paraná que formam a Associação dos Jornais Diários do Interior do Paraná (ADI-PR) estiveram reunidos em um dos auditórios do Cietep/Fiep, em Curitiba, na terça-feira (26), para o 1º Congresso da entidade, que teve como tema “O momento do jornal e seu futuro”.

A programação foi aberta com o pronunciamento do presidente da ADI-PR, Nery José Thomé. Segundo ele, os jornais integrados à entidade, presentes em todas as regiões do Paraná, colocam nas bancas 188 mil exemplares diariamente. “Todos os nossos jornais têm portais e não queremos perder o bonde da história com as mudanças que acontecem de forma muito rápida. Penso que o jornal impresso ainda tem uns 20 anos de vida, no mínimo”, afirmou. “O que queremos é melhorar a parte digital e a integração com o impresso”, ressaltou, lamentando a recente decisão da Gazeta do Povo, um jornal que depois de quase um século de vida encerrou em maio deste ano a edição impressa, estreando uma nova publicação, semanal e em forma de revista, além de focar no mobile, voltado à publicação em plataformas móveis, como smartphones e tablets. “Uma pena tal decisão para o jornal mais antigo em circulação no Paraná. Perdeu a relevância”, avaliou.

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Por sua vez, o presidente da Associação dos Diários do Interior do Brasil (ADI-BR), Jedaías Belga, enalteceu uma pesquisa nacional publicada recentemente que indicou que 62% dos leitores preferem a mídia impressa entre todas as outras. Ele afirmou que a circulação impressa está aumentando no país e que atualmente três milhões de pessoas leem jornais diariamente.

Na visão do secretário da Comunicação e chefe de Gabinete do governador Beto Richa, jornalista Deonilson Roldo, para dar passos adiante é preciso saber o que o leitor quer. “O Washington Post foi comprado pelo Jeff Bezos, dono da Amazon, que é uma pessoa totalmente envolvida com o meio digital, e o que ele fez? Manteve a equipe e o impresso de um dos melhores jornais do mundo. Então, não adianta só querer velocidade”, pontuou.

Ele lembrou a quantidade de notícias falsas que são publicadas na internet é enorme e que o desafio atual para os jornais é transferir a credibilidade do impresso, que consolidou a marca, para o digital. “É preciso dedicação e fidelidade ao leitor”, frisou, acrescentando que antes de efetuar mudanças é preciso ter em mente que decisões impensadas conduzem ao desastre. “É possível, sim, ter o jornal impresso e o da internet”.

Canais de esclarecimento

Após os pronunciamentos, o evento teve sequência com um debate sobre o atual momento vivido pelo Paraná, mediado pelo presidente da ADI-PR, tendo como convidados o presidente da Federação da Agricultura do Estado do Paraná (Faep), Ágide Meneguette, e o superintendente da Fecomércio, Ernani Buchmann.

O presidente da Faep destacou na oportunidade que os jornais do interior são muito importantes para ajudar nas grandes questões do Paraná e do Brasil, principalmente como canais de esclarecimento ao público mais jovem. “A garotada de hoje não sabe o que é uma vaca. Acha que o leite vem de uma embalagem tetrapak. Não conhecem nada sobre o processo que vem antes”, criticou.

O superintendente da Fecomércio foi além. Afirmou que o Jornal Nacional, da Rede Globo, que tem uma das maiores audiências no jornalismo televisivo, foca seu conteúdo na transmissão de notícias que apontam na maioria das vezes para os problemas do Brasil, com foco nos grandes centros. “Eles não sabem o que acontece no país. Mas os jornais regionais sabem, e essa é a missão que lhes cabe”, declarou.

Só tecnologia não basta

Consultor digital do grupo Itaú-Unibanco, Fred Pacheco, mestre em Ciências pela Universidade Federal de São Paulo e liderança pela Ohio University, além de MBA na FGV e em Stanford, disse em sua palestra que só tecnologia não basta. Em primeiro lugar, afirmou, os jornais precisam ter conteúdo relevante, o que os torna um “negócio” bom e com potencial.

Ele chamou a atenção para o fato de o público jovem não saber distinguir notícia falsa de verdadeira. “Infelizmente, hoje, três em cada cinco notícias que entram na rede são falsas. Por isso o jornal impresso tem credibilidade, e digo isso amparado em pesquisa recente. O pulo do gato é aproveitar isso para vender conteúdo”, ressaltou.

Pacheco entende como loucura um jornal tradicional ficar apenas no digital. “Acho um absurdo. O contrário é melhor, agregando áudio, vídeo, etc”, frisou.

Tendências

Luis Rasquilha palestrou sobre “Viagem ao futuro: as megatendências e os drivers de mudança”. Craque em comunicação, marketing, administração e gestão da inovação, com 20 anos de experiência e o mesmo número de livros publicados, ele afirmou que “o futuro não é ruim”, sendo necessário, apenas, “dar passos para não desaparecer”.

Mas quais seriam esses passos?

Rasquilha, um português que morou em vários países e escolheu o Brasil para estabelecer a sede de sua empresa, afirmou que o Brasil é o segundo país mais conectado do mundo e que, a exemplo do que acontece numa cidade da Alemanha, logo os semáforos serão no chão para pedestres, já que estes só olham para baixo por causa do celular. “O jornalismo só vai conseguir esta atenção se tiver qualidade e os jornais conteúdo, além de mais interação entre o veículo e seu leitor”, expôs.

O palestrante disse que aposta na regionalização das notícias como ponto forte e meio de sobrevivência para cada jornal. Para ele, o fim do jornal tradicional, impresso, vai acontecer, mas não agora. “Ele vai longe, talvez até 2050, mas é preciso enxergar o que está sendo sinalizado”, afirmou.

Rasquilha criticou a decisão da Gazeta do Povo de encerrar a edição impressa. “Foi uma decisão muito arriscada. Eu não faria, ainda mais com um jornal com um século de vida e com um enorme público acostumado a ler da forma tradicional”, destacou. Ele recomendou aos donos de jornais pensar no futuro que está logo aí, pois tudo está acontecendo rápido demais.

A qualidade é que faz a diferença

O seminário terminou com a palestra de Andre Caron, que tem grande experiência na implementação de ativos em grandes portais nacionais. Para ele, mataram o jornalismo nacional. “Hoje não se vê mais grandes reportagens, matérias trabalhadas, apenas notícias factuais. Nas redações, a qualidade foi substituída pela quantidade. Os jornalistas experientes foram substituídos por jornalistas que estão começando, mais baratos”, declarou.

Como recado aos presentes ao congresso ele disse o seguinte: “não entrem na competitividade apenas por números, cliques, acessos, como aconteceu na imprensa brasileira. De que adianta isso?”, questionou. Na sua visão, é a qualidade das reportagens que vai fazer o impresso e o digital serem mais consumidos.

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