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Paraná

Taxas de reprovação aumentam e alunos focam no aprendizado

Voltar à estaca zero. É isso que aconteceu para um percentual significativo de estudantes do primeiro ano do Ensino Médio em praticamente todas as instituições de ensino públicas da Comarca de Marechal Cândido Rondon em 2016. 

De acordo com dados apurados pelo Instituto Nacional de Estudos e Pesquisas Educacionais Anísio Teixeira (Inep) com base no Censo Escolar, a taxa de repetência no Ensino Médio no Paraná em 2016 ficou em 14,2% – no primeiro ano o número sobe para 21,1%. 
No âmbito da comarca rondonense, quem desponta nos resultados é Entre Rios do Oeste, com 23,4%. Em 2015, o índice de repetência estava em apenas 5,3%. O município beira-lago conta com um único educandário público e que prepara os alunos para saírem da escola, o Colégio Estadual Professor Ildo José Fritzen. Conforme a diretora da instituição, Margarete Klich Fritzen, o resultado do ano passado é oriundo da descrença do colegiado na aprendizagem dos alunos. “Estávamos muito desacreditados com o aprendizado dos alunos, por isso o colegiado decidiu em conjunto que os alunos que não tivessem o conhecimento seriam reprovados. Nós esqueceríamos um pouco as avaliações externas e focaríamos no conhecimento dos alunos”, explica. “Nós focamos no aprendizado do aluno e não na aprovação. As reprovações desta turma em específico apresentam avanços em 90% dos alunos neste ano, no interesse, na melhoria do desempenho deles em sala de aula”, diz. 

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Segundo a gestora escolar, no pensamento dos alunos, os índices de reprovação não existiam mais. “Eles pensavam que não se reprovava mais no nosso colégio, que passariam por conselho de classe”, cita.

O conselho de classe é um processo em que o aluno é avaliado por todos os professores e há a possibilidade de ele ser aprovado para a série seguinte mesmo não atingindo as notas necessárias, caso ele seja um estudante dedicado, esforçado, que não atingiu os objetivos, porém tem as condições para atingir no ano seguinte, então é aprovado pelo conselho de classe. “Já o aluno que tem capacidade intelectiva, mas não faz, não comparece na sala, chega atrasado, não copia o conteúdo… O que você quer de um aluno desses? O conselho de classe não aprova”, enfatiza. 

Apesar do índice de reprovação ter aumentado no ano passado, Margarete destaca que em 2015 o terceiro ano do Ensino Médio teve 90% dos alunos aprovados em universidades públicas. “Queremos que os alunos saiam do nosso colégio sabendo”, reforça. 
 

Desafios

De acordo com a diretora, uma das maiores dificuldades do colégio é fazer com que os estudantes, junto de seus familiares, limitem um horário para o estudo em casa. “O Brasil é o único país em que se estuda para prova, em que se estuda para semana de provas, porque nos outros países, isso faz parte do processo de aprendizagem do aluno. Somos o único país que tem apenas quatro horas de aula por dia”, critica. 

Margarete avalia que algumas famílias percebem que a educação e o conhecimento são o único modo de garantir melhor qualidade de vida para os estudantes, de melhorar suas escolhas e garantir mais oportunidades no futuro, contudo, alguns pais ainda deixam de participar do processo de aprendizagem dos filhos. “Estamos tentando envolver mais os pais nas escolas e mostrar para eles a importância do acompanhamento. Já temos muitos pais que estão preocupados, que acompanham os filhos, questionam a escola, mas queremos que eles venham não só quando são chamados ou quando aparece algum problema. Queremos que eles sempre estejam presentes na escola, que cobrem que o projeto político-pedagógico seja executado na prática”, ressalta. 

Outro desafio, segundo ela, está no uso dos aparatos tecnológicos por parte dos alunos. Apesar de considerar que são um bom material quando usados de maneira eficiente, a diretora expõe que hoje os smartphones, tablets e computadores são a maior distração dos estudantes. “Eles se limitam às redes sociais e jogos, não realizam pesquisas, leituras e atividades acadêmicas, o que é um problema muito sério”, comenta. 
 

Transição

Por muitas vezes os alunos saírem do Ensino Fundamental II e ingressarem no Ensino Médio permanecendo na mesma instituição de ensino, alguns estudantes não compreendem a dimensão das novas responsabilidades e cobranças que a reta final da caminhada escolar representam. No entanto, Margarete avalia que os alunos não entram despreparados no Ensino Médio, pois durante o nono ano há um trabalho de transição com os estudantes e também com os pais. “Mas os alunos levam muito na brincadeira. Não falta trabalho da equipe pedagógica e dos professores”, relata. 

A diretora comenta que talvez a retenção dos alunos tenha sido uma falha, todavia foi a forma encontrada para dizer a eles que precisam estudar, ler e se dedicar às atividades escolares mesmo quando elas não valem nota. “Se o aluno não estiver preparado para passar para a próxima série, ele não vai passar. Esse é o posicionamento de todo o colegiado”, conclui.  
 

Para melhorar

Marechal Cândido Rondon também teve um salto significativo nos índices de reprovação do Ensino Médio no comparativo de 2015 para 2016: de 7,9% para 15%, respectivamente. 

Apesar de não ter registrado a maior taxa de reprovação no comparativo entre os dois anos, o Colégio Estadual do Campo Margarida alcançou a taxa de reprovação de 17,6% no ano passado, subindo os 12,5% de 2015. O maior índice está para o Colégio Estadual Monteiro Lobato, que chegou a 26,5% em repetências em 2016 – os dados de 2015, no entanto, não constam no site do Inep. 

A variação, de acordo com a diretora do Colégio Estadual do Campo Margarida, Dorotéa Barbosa Krummenauer, é resposta para um questionamento. “O que vamos fazer para melhorar?”, diz. 

Entre as instituições públicas do Paraná, o colégio figura entre as instituições com as maiores médias nas provas objetivas do Enem 2015, ocupando a 7ª colocação em nível estadual. O bom resultado, entretanto, não esconde a necessidade de melhorar outros índices. “Já percebemos que estamos trabalhando com uma qualidade melhor e talvez no próximo ano essa taxa de reprovação venha a somar com o nosso trabalho, talvez ela diminua”, observa Dorotéa. 

Na visão da gestora educacional, a retenção do aluno na série é mérito dele mesmo, que não cumpre com suas obrigações de estudante apesar de as instituições possuírem uma política de acompanhamento. “A equipe pedagógica acompanha tanto professor quanto aluno. Se ele faltou, não fez trabalho ou foi mal na prova, ofertamos uma recuperação paralela imediata, mas muitas vezes ele não quer”, aponta. 

Com cerca de 90% dos alunos vivendo na zona rural, Dorotéa concorda que existem lacunas a serem preenchidas na instituição, porém, reforça o pensamento de que o aluno que sai do Ensino Fundamental está, sim, preparado para enfrentar o Ensino Médio, apesar de o índice de reprovação ser alto no primeiro ano. “No nono ano já fazemos um trabalho de transição, é claro que algumas disciplinas vêm como um turbilhão de informações, mas o que falta muito é o comprometimento do aluno”, acredita. 

A estratégia para vencer os desafios para que o índice continue caindo na unidade escolar é algo que, segundo ela, já está sendo executado. “Realizar o atendimento individualizado, estar com o aluno, ouvir o que ele precisa. Enquanto educadores achamos que está dando certo, mas quando conversamos com o aluno ele diz ‘por que não pode ser diferente?’. E ouvindo ele, já conseguimos no primeiro trimestre deste ano uma redução em notas abaixo da média”, observa Dorotéa. 

De acordo com a secretária municipal de Educação, Márcia Winter da Motta, no Ensino Médio os estudantes têm mais independência, ou seja, diferente do Ensino Fundamental, eles já podem ficar sozinhos em casa. Em alguns casos, enquanto os pais acreditam que eles estão em sala, na verdade eles estão em casa. “O início do trabalho também reflete nesses índices. A partir dos 16 anos, eles começam a entrar no mercado de trabalho por vontade própria, para ter sua própria renda”, opina.

Enquanto educadores, comenta, tanto professores quanto equipe pedagógica questionam-se: o que mais precisa ser feito? “O professor em nenhum momento perde a esperança. Ele sempre busca onde está sendo a falha, faz projetos para envolver os alunos, construir o conhecimento cada vez mais e melhor, incentivando-o a permanecer na escola”, expõe. 

Por outro lado, há um problema de estruturação da família, que acaba não incentivando na permanência dos filhos na escola. “Talvez alguns não se preocupem tanto quanto o professor com os seus próprios filhos”, avalia Márcia.  
 

O que está em primeiro lugar?

O município de Mercedes é outro que acumula resultados de repetência no Ensino Médio que chamam a atenção. Em 2015, o índice do Inep ficou em 3,9%, subindo para 14,5% em 2016. O resultado é formado pelo Colégio Estadual Leonilda Papen, único do município que oferta a modalidade de forma gratuita. 

Para o diretor da instituição, Italo Zanelato, a avaliação externa não reflete totalmente a realidade da unidade escolar. As taxas de abandono, por exemplo, existem porque os adolescentes são muito imediatistas, por isso, quando ingressam no Ensino Médio, já querem trabalhar, ter uma vida ativa e renda própria, deixando a sala de aula em segundo plano. “O desinteresse é o maior problema e por isso temos esses resultados de o maior índice de reprovação ser no primeiro ano. Esse resultado é o reflexo das atitudes dos alunos”, aponta. 

Apesar de o colégio atuar em parceria com a Secretaria de Assistência Social por meio de programas para auxiliar as famílias, tendo em vista que muitas estão desestruturadas emocionalmente e financeiramente, fazendo com que os adolescentes precisem trabalhar para complementar a renda familiar, a falta de turmas no período noturno na instituição representa um desafio para a melhora dos resultados. “Hoje temos apenas um terceiro ano no período noturno e não sabemos como será nos próximos anos. Provavelmente vamos perder essa turma porque há baixa demanda e os alunos serão lotados no diurno”, menciona. 

Zanelato reforça que a mentalidade de muitos estudantes é de que poderiam estar trabalhando no horário em que estão na escola, o que acaba gerando o desinteresse, falta de entrega de trabalhos, tarefas e falta de dedicação nas provas. “Precisaríamos abrir mais turmas no período noturno. Não resolveríamos todos os problemas, mas melhoraríamos os resultados, não pelo ensino ser melhor ou diferente, mas o acompanhamento pedagógico é diferenciado, o olhar para o aluno, as oportunidades em sala, é outra visão porque são alunos que trabalham”, enfatiza. 
 

Ano atípico

O resultado de 2016 é considerado por Zanelato como um ano atípico, tendo em vista que o colégio não possui altos índices de reprovação recorrentes. “É algo complicado porque é o parâmetro para avaliar a escola na questão do ensino”, pontua. 

Ele avalia que também existem certas defasagens que são irreparáveis, como perdas que os alunos tiveram no Ensino Fundamental I, que não foram supridas no Fundamental II e acabam refletindo no desempenho do estudante no Ensino Médio. “Recebemos estudantes da Escola do Campo de Mercedes, de outros municípios e até mesmo alunos brasiguaios, e em alguns casos percebemos uma disparidade do aluno que já é nosso e um que vem de fora”, comenta. 

A fronteira, destaca, é outro empecilho para a permanência do aluno em sala. A possibilidade de os jovens conseguirem trabalho informal com o contrabando na região beira-lago faz com que muitos se desestimulem a permanecer em sala de aula em prol da conquista financeira.

“Eles trabalham à noite, durante a madrugada com o descaminho, e é complicado mantê-los em sala”, lamenta Zanelato. 
Por outro lado, o gestor escolar ressalta que a instituição não é conivente com alunos desinteressados e que não se preocupam com a escola. “Ele vem para escola só para não acionar a Ficha de Comunicação do Aluno Ausente (Fica) e nós não somos coniventes com isso. Entendemos algumas situações, mas também não podemos aprovar um aluno que foi desinteressado o ano inteiro, sendo que aplicamos medidas pedagógicas para ele se recuperar”, enaltece. 

 

Parcerias

Em Mercedes, Zanelato explica que o educandário possui parcerias firmadas com o Conselho Tutelar e a Assistência Social para a recuperação dos estudantes por meio do programa Reeducando, que foca o trabalho de psicólogas e assistentes sociais no acompanhamento de famílias desestruturadas. “Com o Conselho Tutelar, temos o contato constante dos jovens que deixam de vir à escola. Passamos os nomes e eles vão atrás, e essas parcerias têm surtido efeito positivo, porém, o aluno que não quer estar na escola, não vai vir”, reforça. 

Um coletivo de palestras que serão realizadas na instituição também focará a importância do envolvimento dos pais na vida dos estudantes. De acordo com o diretor, muitos pais não sabem ser pais, não têm o entendimento que precisam cobrar, impor, dar limites. “Eles não veem a escola como essencial, só veem como um lugar que o filho tem que passar. Muitos acreditam que pelo filho estar no Ensino Médio ele já é adulto, mas ele ainda precisa ter horário, ainda mais se ele trabalha no contraturno”, frisa Zanelato. 

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