A imagem de um comerciante de ferro-velho entregando um maço de dinheiro para um investigador com distintivo da Polícia Civil na camiseta é a prova, de acordo com o Ministério Público (MP), do pagamento de propina na investigação do Grupo de Atuação Especial de Combate ao Crime Organizado (Gaeco), do MP, sobre o esquema de cobrança de propina da Delegacia de Furtos e Roubos de Veículos (DRFV) de Curitiba. (assita ao vídeo aqui)
As imagens, os depoimentos de envolvidos e gravações de conversas telefônicas foram obtidas com exclusividade para o programa Fantástico de domingo (18). Na quinta-feira (15), o MP apresentou denúncia contra 23 pessoas sendo quatro delegados, 15 investigadores, um agente de apoio e três comerciantes.
Segundo as investigações, havia um esquema na DFRV da capital paranaense de cobrança de propina paga por donos de lojas de autopeças e ferros-velhos para que policiais e delegados não denunciassem irregularidades como o comércio de peças roubadas e sem notas fiscais.
Segundo o Gaeco, a média mensal de arrecadação com propina era de R$ 30 mil, chegando a R$ 50 mil em algumas ocasiões. Ainda conforme o Gaeco, em troca de pagamentos mensais, os policiais permitiam que as revendas desmontassem e vendessem as peças de carros roubados em Curitiba e Região Metropolitana.
As imagens foram apreendidas no computador do dono de uma loja de autopeças durante uma operação do Ministério Público. Os promotores também apreenderam a contabilidade do crime, um caderno com os nomes e os valores da propina, com um policial.
Nas gravações de conversas telefônicas de delegados, que foram feitas com autorização da Justiça, o delegado Gerson Machado, que chefiou a Delegacia de Furtos e Roubos de Veículos, critica a forma como a delegacia funciona. Porque aquela Furtos de Veículos é um antro de corrupção porque o delegado tem que entrar ali e se arregar com tudo que é dono de desmanche.
Em outra conversa, ele acusa o delegado Luis Carlos de Oliveira, chefe da Divisão de Crimes contra o Patrimônio, de receber dinheiro do roubo de carros. Oliveira é apontado pelo Ministério Público como mentor do esquema criminoso. O meu chefe lá, o Luis Carlos, queria que eu liberasse os caras das lojas para cortar carro dia e noite. Os caras tinham oferecido 70 mil reais pra ele.
Cortar carro na linguagem policial é desmanchar veículos roubados para vender as peças. Em entrevista na sexta-feira (16), ele apresentou outra versão. Que fique bem esclarecido aqui para a opinião pública, que em momento algum eu fiz qualquer denuncia no papel contra o delegado geral, ou contra o divisional. Os policiais sempre estão trazendo informações para o delegado de polícia”.
Por telefone, o delegado Luis Carlos de Oliveira negou as acusações. Não existe nada que comprove a minha participação em esquema criminoso.
O delegado Gerson Machado também negou que recebeu propina. Na minha gestão, não aconteceu isso e eu provo através de documentos, afirmou na sexta-feira. Porém, o comerciante, que aparece nas imagens entregando dinheiro a um policial civil, contou ao MP que pagou para o delegado Gerson Machado liberar pelas que estavam apreendidas na delegacia.
Depoimento do comerciante Ele [delegado Gerson Machado] falou assim: Não, vamo… Quero 50 conto (sic) pra liberar as caixas.
Outros dois delegados da Delegacia de Furtos e Roubos de Veículos também foram denunciados pelo Ministério Público, Marco Antônio de Goés Alves e Anderson Cassio Ormeni Franco. Eles se manifestaram sobre a denúncia ainda na quinta-feira.
O delegado Anderson Franco disse que não iria comentar a investigação dos promotores para não criar atrito com outros órgãos públicos pelo o que chamou de “falsa acusação”. O delegado Marco Antonio de Goes afirmou que tem um trabalho sério na Polícia Civil e que certamente será absolvido.
Um dos investigadores e um dos comerciantes envolvidos falaram, também em depoimento ao Ministério Público, que o dinheiro que aparece na imagem era para pagar convites para o baile de formatura do policial. Mas eles entraram em duas contradições uma quanto ao valor pago e outra relacionada à data da formatura.
Não chegava a R$ 1.000, disse o comerciante. Enquanto o investigador afirmou que o valor não chegava a R$ 45.
Ao ser questionado pelo promotor sobre a data da formatura, que foi em dezembro de 2010 um ano e dez meses antes do flagrante, em dezembro de 2011 , o investigador alegou estar constrangido. Eu estou me sentindo constrangido. Eu queria encerrar por aqui e falar na presença do meu advogado.