Sexualidade, masturbação, feminilidade e masculinidade tóxica, vazamento de imagens íntimas, crescimento e crise existencial. A nova produção da Netflix quebra de tabus de uma forma genial e eficaz. Com pouco tempo de lançamento, a série britânica já é uma das mais assistidas da história da plataforma Netflix, e tem agradado a crítica tendo 91% de aprovação no Rotten Toamatoes) e ao público. De acordo com os dados revelados pela Netflix, os números de sua primeira semana apontam que a trama deve alcançar 40 milhões de usuários, no período de um mês, caso mantenha o ritmo de popularidade atual.
Mas porque essa comédia sobre educação sexual e problemas adolescentes se tornou um fenômeno tão rápido? O que ela tem de diferente? Ao julgar pela sinopse, ou até mesmo pelo trailer, “Sex Education” parece ser realmente só uma “comédia sobre educação sexual e problemas adolescentes”, mas ela é definitivamente muito mais que isso.
O personagem Otis (interpretado por Asa Butterfield) é um adolescente socialmente inapto que vive com sua mãe, uma terapista sexual e tem apenas um amigo, que conhece desde os 9 anos: Eric, que é homossexual e torce para se tornar popular na escola. Apesar de não ter perdido a virgindade ainda, Otis é uma espécie de especialista em sexo. Junto com Maeve, uma colega de classe um tanto problemática e rebelde, ele resolve montar sua própria clínica de saúde sexual para ajudar outros estudantes da escola.
Em meio a esse enredo central, vários temas de extrema importância são abordados de forma magnífica e compreensível a todos os olhos. Listamos algumas coisas que podemos aprender com a série e que fazem dela ser uma das melhores produções da Netflix.
Todo mundo está passando por alguma barra que você não sabe nada sobre.
Ao mostrar as diversas realidades de personagens muito bem construídos, a série mostra claramente que todo mundo, sem exceção, tem problemas. Até mesmo aquele que parece ter a vida mais incrível, passa por coisas que jamais podemos imaginar. E dessa forma, a série cria uma atmosfera de empatia, sororidade e compreensão, fazendo o expectador repensar o impacto de seu julgamento precoce.
O sexo perfeito é algo superestimado e não existe “jeito certo”
Ao trabalhar como terapeuta sexual as escondidas, Otis passa a atender as mais variadas pessoas com os mais variados problemas em relação ao ato sexual. Masturbação, neuras com o corpo, fingir para agradar o parceiro e tantas outras. Mas a linha que liga todos os problemas é o ideal do sexo perfeito, todos os pacientes de Otis se sentem na obrigação de transar antes de ir para faculdade e de fazer tudo para que seja “perfeito”, assim como nos filmes pornográficos. A série vai aos poucos desconstruindo a ideia de que existe uma maneira perfeita para o sexo rolar, e que todos tem seu tempo, as coisas são muito diferentes de filmes encenados e cada um tem que descobrir a sua maneira.
A ajuda pode (e deve) vir de qualquer lugar
A empatia desenvolvida pelos personagens ao longo da trama é algo admirável. Em uma determinada cena relacionada ao vazamento de nudes femininos, todas as garotas e garotos se colocam a frente para ajudar a vítima, mesmo depois de eles mesmo terem rido e comentado sobre a foto. A empatia é algo que se constrói e para isso é necessário repensar as próprias atitudes. Em “Sex Education” não há vilões ou heróis, nem personagens totalmente ruins ou bons, todos são humanos passando por altos e baixos e se descontruindo aos poucos para ajudar a todos. É o caso principal de Otis, que era apenas um menino qualquer e que começa a ajudar todos a partir de seus conselhos. Qualquer um pode te ajudar e você pode ajudar qualquer um, basta olhar para dentro.
Não tem nada melhor do que ser você mesmo e se orgulhar disso
A jornada dos personagens tentando descobrir, mas principalmente construindo quem são ao longo da série é memorável. O personagem Eric (interpretado por Ncuti Gatwa) vai descobrindo sua personalidade em conjunto da sua sexualidade e através da fé, um retrato brilhante sobre a homossexualidade perante a sociedade, família e religião. Além de outros personagens que vão se desconstruindo e entendendo sua própria força e personalidade, “Sex Education” ensina que se perdermos tempo tentando ser o que não somos, podemos nos perder para sempre, ou seja, não existe nada melhor que ser você mesmo e se orgulhar disso.
As mulheres são vítimas de abuso todos os dias e é de extrema importância falar sobre isso
Quando falamos em abuso sexual, a principal imagem do estupro vem em mente, mas as mulheres sofrem diversos abusos e diversas formas de violência todos os dias, o que acaba por limitar diversas das ações que são normalizadas para os homens. A série mostra situações de vazamento de imagens íntimas, a pressão sexual em cima de jovens moças, a hostilização do corpo feminino, a questão do aborto e a sororidade. Tudo de uma forma direta e frisando mostrar ao público como a construção social afeta diariamente a vida das mulheres e o quanto é difícil se manter nessa sociedade machista e corrosiva.
Representatividade importa e debates são necessários
A série é uma das produções com mais representatividade da história. Tem casais LGBTQI+, incluindo um casal de lésbicas que são mães de um personagem de destaque, tem personagens de diversas nacionalidades, indianos, negros, mexicanos, além da desconstrução em volta da masculinidade tóxica e personagens femininas complexas. E todos os debates levantados pela série fazem refletir como o tabu nos impede de ir para frente e discutir sobre os males que importam. Um prato cheio contra discursos conservadores e bloqueio de informação vindo de uma das plataformas que trouxeram a acessibilidade para a arte, possibilitando o alcance máximo desse debate.
Estas são algumas das análises e conselhos que podemos tirar da primeira temporada de “Sex Education”. É uma das melhores produções da Netflix e deveria ser assistida por todos aqueles que já passaram por dilemas adolescentes e sexuais, por quem gosta de abrir a mente e para quem está procurando seu lugar nesse tanque de tubarões que é o mundo. Um acerto em cheio da plataforma. Agora só nos resta reassistir e esperar pela próxima temporada, que ainda não foi confirmada pela Netflix.
Com Barulho Curitiba