A diversificação de atividades levou a família Becker, referência nacional na produção de suínos, a investir na piscicultura há três anos no Oeste do Paraná. O projeto, que começou com três tanques de engorda em uma propriedade rural ao lado da Granja Becker, em Quatro Pontes, evoluiu para uma operação estruturada com produção de alevinos, juvenis e engorda de tilápia, contratos antecipados de venda e capacidade produtiva que chega a dois milhões de peixes por ciclo.
O casal Bruna e Michel Becker gerenciam a Simple Fish, dedicada à engorda de tilápia: “Apenas os produtores resilientes e perseverantes permanecem em pé. Não existe lugar para aventureiros nesse ramo, onde tudo custa muito para começar e ainda mais para continuar”.
A atividade está estruturada em três frentes independentes. A primeira é a Piscicultura Santa Inês, idealizada pelo casal Milton e Inez Becker, responsável pela produção de juvenis. A unidade é gerida em conjunto com a filha Cristiane Becker e o genro Rômulo Peres Peres, que também mantêm uma segunda propriedade, de menor escala, voltada à engorda.
Já a Piscicultura Simple Fish, conduzida pelo filho Michel e pela nora Bruna, concentra a fase de engorda da tilápia. A unidade está instalada no distrito de Novo Três Passos, em Marechal Cândido Rondon, com 11 tanques em operação. E mais recentemente, Inez estruturou, em parceria com o filho Marcelo e a nora Claudia, a BeckFish, unidade dedicada exclusivamente à produção de alevinos. “O que nos motivou a entrar nesse novo ramo foi a busca pela diversificação de atividades. No início a ideia foi de uma pequena produção, mas o instinto empreendedor logo prevaleceu e, de uma dificuldade do setor, que é encontrar fornecedor de juvenil de tilápia, cada um começou a estruturar o seu negócio”, conta Michel, que possui formação em Medicina Veterinária.
Após os primeiros resultados da piscicultura na propriedade ao lado da Granja Becker, Milton e Inez implantaram a produção no sítio Santa Inês, dedicada exclusivamente à fase de juvenis. Em uma área de 10 alqueires, a unidade foi dimensionada para atingir até 2 milhões de peixes por mês. O sistema da propriedade inclui classificadora automática, máquina de vacinação e equipamentos que reduzem o estresse dos animais no momento da despesca. “O diferencial está na capacidade de entregar todos os peixes classificados por peso, além do uso de máquina vacinadora. Também firmamos parcerias para fornecimento de animais vacinados”, explica Michel.
A larga experiência na produção de suínos influencia diretamente a condução da piscicultura. Michel destaca que princípios de biosseguridade e manejo são comuns entre as atividades. “Suíno ou peixe, alguns princípios são os mesmos. O cuidado e manejo mantendo a biosseguridade da produção são fundamentais. Nos diferenciamos na integridade e vitalidade dos animais entregues quanto na gestão da produção”, menciona.
Estrutura produtiva
A estrutura produtiva da Simple Fish foi montada com foco em escala e padronização. Os tanques escavados são revestidos com geomembrana e contam com monitoramento contínuo por sondas.
A comercialização ocorre integralmente por contratos antecipados. Na engorda, a produção é direcionada à cooperativa Primato. Já os juvenis da Piscicultura Santa Inês são vendidos tanto para cooperativas quanto para produtores independentes, embora em menor volume. Atualmente, toda a produção está contratada.
Produção de alevinos
Piscicultura Santa Inês, em Quatro Pontes (PR), é destinada exclusivamente a produção de juvenis de tilápia
A BeckFish está localizada em Quatro Pontes (PR), ao lado da Granja Becker, referência nacional na produção de suínos. O engenheiro de produção agroindustrial Marcelo Becker lidera a operação técnica, sendo responsável pelos projetos, implantação de tecnologias e busca por eficiência produtiva. A gestão administrativa e financeira está sob responsabilidade da sua esposa, enquanto sua mãe atua com suporte na gestão e organização do negócio.
A unidade de alevinagem foi projetada para operar com controle total dos parâmetros produtivos. Todo o processo ocorre em estufas e tanques elevados, com monitoramento de temperatura, oxigênio e qualidade da água, além de automação de cortinas, sopradores e exaustores, integrados a um sistema com acesso remoto.
O ciclo produtivo é dividido em cinco fases distintas. A reprodução acontece em seis tanques elevados, organizados em hapas, onde são formados os casais e realizada a coleta manual dos ovos diretamente da boca das fêmeas. “Esse processo é feito diariamente, preservando a qualidade dos ovos”, afirma Marcelo.
Após a coleta, os ovos passam por desinfecção e seguem para incubação em laboratório, onde o ambiente simula as condições naturais para eclosão. Em seguida, permanecem em caixas até o consumo do saco vitelino e são transferidos para a larvicultura, fase em que se inicia a alimentação e o processo de masculinização. “Após cerca de 10 dias, as larvas vão para outro barracão, onde permanecem até concluir a masculinização, em berçários e hapas. Depois seguem para tanques circulares até atingirem o tamanho desejado para expedição”, detalha.
O ciclo completo, da coleta do ovo até a entrega de alevinos acima de uma grama, leva entre 45 e 60 dias. As fêmeas têm ciclo produtivo de aproximadamente 21 dias, e o processo exige monitoramento rigoroso para evitar perdas, já que ovos e larvas são altamente sensíveis. “Todo o processo é bastante complexo. Cada fase exige condições específicas de água e manejo. Qualquer desvio pode gerar mortalidade elevada”, diz Marcelo.

Sistema intensivo permite produção contínua
A gestão da BeckFish é feita pela Inez, Claudia e Marcelo Becker: “Pensamos em todos os detalhes para garantir biosseguridade, evitando contaminações e a proliferação de doenças”
A BeckFish opera integralmente em sistema de recirculação de água (RAS), com tratamento específico em cada etapa. A reprodução utiliza biofiltros e tratamento biológico, enquanto o laboratório conta com filtragem física, radiação UV e ozônio. Já o setor de larvas e pós-larvas possui uma estação de tratamento de água própria, com possibilidade de intervenção química. “Temos como princípio o controle total das águas e a reutilização do máximo volume possível, com consciência ambiental de preservação. Toda a água utilizada vem de poços artesianos”, afirma Marcelo.
A produção em ambiente controlado permite operação ao longo do ano, sem dependência de condições climáticas. Diferentemente dos sistemas convencionais, que concentram a reprodução no verão, a estrutura em estufa garante regularidade na oferta. “Em fase inicial, a Beck Fish chegou a atingir 2,4 milhões de larvas em um único mês. Esse número tende a ser muito superior com o novo plantel sendo formado. Estamos ampliando em cerca de três vezes”, ressalta Marcelo.
Capacidade produtiva
Na etapa seguinte, os juvenis de tilápia da Piscicultura Santa Inês são direcionados para sistemas de engorda, entre eles da Simple Fish. A estrutura inclui tanques escavados com geomembrana, monitoramento contínuo e equipamentos automatizados para classificação e vacinação.
A capacidade instalada permite a produção mensal de até 2 milhões de juvenis com 35 gramas. Já o volume anual de peixes de 1 quilo pode chegar a dois milhões.
A comercialização ocorre por contratos antecipados. A produção de engorda é destinada integralmente à cooperativa Primato, enquanto os juvenis atendem cooperativas e produtores independentes. Atualmente, toda a produção é comercializada.
Ração e energia pressionam custo
A reprodução na BeckFish acontece em seis tanques elevados, organizados em hapas, onde são formados os casais e realizada a coleta manual dos ovos diretamente da boca das fêmeas
O custo da ração aparece como o principal componente da operação, especialmente na fase inicial de crescimento, quando os peixes passam de 0,5 grama até cerca de 35 gramas. Nesse estágio, é necessário o uso de ração de alto valor nutricional, o que eleva o custo semanal da produção.
Além da alimentação, entram na conta despesas operacionais com colaboradores, energia elétrica e manutenção de equipamentos. “A energia e a manutenção representam o maior custo da produção. Muitas vezes precisamos trocar equipamentos por problemas na distribuição de energia”, relata Michel.
A dependência energética é considerada crítica para a atividade. A oxigenação da água exige funcionamento contínuo de aeradores, o que impede qualquer interrupção no fornecimento. “Na piscicultura de larga escala não pode faltar energia. Temos que ter geradores para suprir a demanda, pelo menos por um período curto. E o diesel também tem aumentado junto com a tarifa elétrica”, pontua o médico-veterinário.
Crédito restrito
Outro entrave citado pelo Michel é o acesso a crédito. Segundo ele, as taxas de juros elevadas têm inviabilizado novos investimentos, incluindo expansão, manutenção e modernização das estruturas existentes. “Tem se tornado inviável qualquer novo investimento ou ainda a reforma do que já existe”, diz.
Ele também aponta a concorrência com produtos importados como fator de pressão adicional. Na avaliação do produtor, há assimetria regulatória entre a produção nacional e o pescado vietnamita que chega ao mercado brasileiro. “Precisamos cumprir cada vez mais normas rigorosas e ainda competir com produtos importados que não passam pelos mesmos padrões e chegam com preço mais baixo e qualidade duvidosa”, enfatiza.
Predadores e resiliência no campo
Entre os desafios operacionais, o ataque de predadores ainda é um problema recorrente e de difícil controle. “Diria que é o único que não podemos resolver”, ressalta Michel.
Diante do conjunto de custos elevados, exigências regulatórias e limitações de crédito, Michel avalia que a permanência na atividade exige resiliência. “Apenas os produtores resilientes e perseverantes permanecem em pé. Não existe lugar para aventureiros nesse ramo, onde tudo custa muito para começar e ainda mais para continuar”, afirma.
Profissionalização da cadeia
Marcelo salienta que a estrutura da BeckFish foi idealizada com foco no longo prazo, diante da expectativa de maior organização e exigência técnica na cadeia de peixes, especialmente na tilapicultura. “Pensamos em todos os detalhes para garantir biosseguridade, evitando contaminações e a proliferação de doenças. Trabalhamos com foco na qualidade do produto, com atenção à genética, ao manejo e à sanidade. Nos baseamos na experiência da Granja Becker, construída ao longo de décadas na suinocultura, para aplicar esse nível de organização e eficiência também na produção de peixes”, afirma.



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