O Presente
Fátima Baroni Tonezer

Entre o medo de sair e a dor de ficar

calendar_month 4 de maio de 2026
4 min de leitura

Por que algumas mulheres permanecem onde se machucam?

Às vezes, não é o relacionamento que cria a dor. Ele apenas desperta algo que já estava dentro. Muitas mulheres reconhecem que estão em relações que machucam, sentem o desgaste emocional, percebem o quanto estão se perdendo, mas, ainda assim, não conseguem sair. E então surge a pergunta silenciosa, carregada de culpa: “Por que eu continuo aqui?”. A resposta, quase sempre, não está apenas no presente.

O QUE VOCÊ APRENDEU SOBRE AMOR SEM PERCEBER

Experiências emocionais da infância e da adolescência moldam, de forma profunda, a maneira como uma mulher se relaciona. Crescer sem validação emocional, precisar agradar para ser aceita, assumir responsabilidades precoces ou receber afeto de forma inconsistente deixa marcas. Essas vivências constroem crenças silenciosas sobre amor, valor pessoal e pertencimento, crenças que seguem ativas na vida adulta.

Com o tempo, essas experiências deixam de ser apenas lembranças e passam a funcionar como filtros. A mulher aprende, muitas vezes sem perceber, que precisa se esforçar para ser amada, que suas necessidades podem ser “demais” ou que o amor vem acompanhado de insegurança. E então, o que ela vive no presente começa a ser interpretado a partir dessas referências antigas.

Neste momento a dor deixa de ser questionada e o sofrimento começa a ser relativizado. O desconforto é minimizado, a dor é justificada e situações emocionalmente desgastantes passam a ser toleradas por mais tempo do que deveriam. Não porque não machucam, mas porque, de alguma forma, fazem sentido dentro daquela lógica emocional construída ao longo da vida.

Muitas mulheres não permanecem por falta de percepção. Permanecem porque, em algum lugar dentro delas, amar ainda está associado a suportar, ceder e insistir. Existe uma confusão silenciosa entre amor e adaptação e, aos poucos, renunciar a si mesma passa a parecer parte natural de qualquer relação.

POR QUE DECIDIR PARECE TÃO DIFÍCIL?

Diante disso, decidir não é apenas uma escolha racional entre ficar ou sair. É um processo emocional que envolve confrontar crenças profundas, muitas vezes dolorosas. Pensamentos como “talvez eu esteja exagerando”, “relacionamento é assim mesmo” ou “se eu sair, vou ficar sozinha” não surgem por acaso. Eles refletem uma estrutura emocional construída ao longo de anos.

O que muitas vezes é interpretado como indecisão é, na verdade, um conflito interno legítimo. Uma parte da mulher deseja mudança. Outra parte, mais antiga, teme as consequências dessa mudança. Porque sair não é apenas perder o outro é também se afastar de uma forma conhecida de se sentir e de se relacionar. Sair não é só ir embora.

O conhecido, mesmo quando machuca, pode parecer mais seguro do que o desconhecido. Permanecer, nesse contexto, não é sinal de fraqueza ou falta de amor-próprio, mas de coerência com uma história emocional que ainda está ativa. Existe um sistema interno tentando manter aquilo que foi aprendido como forma de proteção.

Quando essa dinâmica é compreendida, o olhar muda. O julgamento dá lugar à compreensão, e a culpa começa a perder força. Isso não significa aceitar o sofrimento, mas reconhecer que ele tem uma origem e, portanto, também pode ser transformado.

O primeiro passo é tornar visível o que antes era automático. Identificar padrões, reconhecer repetições e compreender de onde vêm certas crenças é essencial. Esse processo exige coragem, porque implica olhar para si mesma com honestidade sem se culpar, mas também sem se abandonar.

A partir daí, novas construções se tornam possíveis. A mulher pode aprender que suas necessidades são legítimas, que estabelecer limites é uma forma de cuidado e que o amor não precisa ser sustentado por medo, falta ou esforço constante. Aos poucos, algo se reorganiza por dentro. Decidir, então, deixa de ser um ato isolado e passa a ser consequência de um reposicionamento interno. E esse movimento, embora gradual, é profundamente transformador.

Liberdade emocional não começa quando você sai. Começa quando você entende por que ficou. Na próxima semana, vamos falar sobre algo essencial: decidir não é agir de uma vez e respeitar o tempo emocional faz parte do processo de saída.

Se este artigo tocou você, guarde e releia quando o medo bater forte. E compartilhe com outra mulher que também precisa saber. E siga @psicofatimabaroni para mais conteúdos sobre autoestima e relacionamentos.

Até a próxima.

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Fátima Sueli Baroni Tonezer é psicóloga, formada em Psicologia na Universidade Estadual de Maringá (UEM). Sua maior paixão é estudar a psique humana. Atende na DDL – Clínica e Treinamentos – (45) 9 9917-1755

 
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