Fale com a gente

Fátima Baroni Tonezer

Expectativas, saúde mental, viver!

Publicado

em

Estamos chegando ao final de janeiro, mês que foi definido como “Janeiro Branco” em alusão aos cuidados com a saúde mental. Ter saúde mental parte da premissa de um combo: cuidados físico, mental e emocional. Saber lidar com nossas emoções, trabalhar nossa regulação emocional, isto é, perceber o que estamos sentindo, reconhecer e aceitar os sentimentos e qual estratégia vamos usar para lidar com o fato desencadeador da emoção.

Não aprendemos a lidar com nossas emoções, mas podemos, agora, independentemente da idade que temos, desenvolver esse recurso. E para falar desse assunto tão fundamental que é saúde mental, proponho uma reflexão hoje.

VOCÊ TEM RELACIONAMENTOS OU CONTATOS?

Assistindo às notícias do réveillon no mundo, chamou-me a atenção o fato de que muitas pessoas que se empenharam em viajar para algum lugar – praia, Nova Iorque ou qualquer outro lugar – no exato momento que o relógio zerou e marcou o início do novo ano, do novo ciclo, com muitas possibilidades de fazer diferente, fazer a mudança que deseja que aconteça na própria vida, estavam com o celular em punho para filmar o espetáculo. Não viveram o espetáculo, mas filmaram como prova de que estavam lá.

Você já parou para pensar no porquê isso está acontecendo? Tem uma cena que se tornou emblemática num show do Coldplay, quando ele aparentemente cai no palco e ao se levantar pede que as pessoas desliguem e guardem seus celulares e aproveitem o show para cantar e dançar, para estar ali vivendo o presente.

E DAÍ, O QUE ISSO SIGNIFICA?

Que atualmente a maioria das pessoas estão mais ocupadas em filmar e fotografar eventos e lugares e menos em viver esses momentos. É preciso mostrar onde estou, em tempo real, postando stories, e não vivendo o que está acontecendo. Mais importante que as memórias, reais e afetivas, do evento, é a quantidade de “likes” e comentários que vou conseguir com a postagem. É produzir e consumir conteúdos, não viver.

Tem um documentário na Netiflix com a Brené Brown, pesquisadora e escritora estadunidense, no qual, em certo momento, ela conta que um dia, após pegar a filha na escola, foram passear no lago e andar de pedalinho. Em dado momento a filha parou de pedalar e fechou os olhos. Preocupada, ela pediu o que estava acontecendo, se ela estava bem. A filha respondeu: “estou fotografando esse momento para guardá-lo na memória”. Isso é viver o presente, é desfrutar o que está acontecendo, é estar em presença.

Coisas guardadas na memória do celular ou na “nuvem” são frias, insossas, porque não foram vividas, só filmadas ou fotografadas.

VIVER PARA SER FELIZ!

Já comentei em outro artigo deste ano que a Netflix fez um documentário em 2023, o “Blue Zones”, que visitou cinco cidades em diferentes lugares do mundo para mostrar como vivem pessoas longevas, saudáveis e felizes. E a conclusão do documentário é que para além da qualidade dos alimentos, da prática de atividade física e sono, o que realmente faz a diferença é a qualidade dos relacionamentos. É o encontro de gente com gente, para conversar, ajudar, lembrar fatos antigos, dar risadas, preparar e comer em companhia, em família. E família não é só quem tem o mesmo sangue. São pessoas com as quais temos afinidades e histórias para compartilhar.

O que torna uma pessoa feliz é a qualidade das relações que ela tem. Cultivar um relacionamento dá trabalho, necessita de investimento de tempo para estar presente, escutar o outro, perceber e aceitar o outro dentro dos limites do outro, fora das minhas expectativas. Mas investir tempo no outro pode criar o sentimento de que enquanto estou lá, ouvindo e dividindo experiências e ajudando, não estou fazendo alguma coisa para mim. Não estou ganhando, não estou no centro, estou ficando por fora.

A FELIDICADE NÃO ESTÁ NAS COISAS, ESTÁ NAS PESSOAS!

Nessa busca desenfreada por coisas, pelos resultados, de alcançar objetivos mundanos, não percebemos que nos distanciamos da saúde mental e do bem-estar. Porque a cada coisa alcançada surgem mais duas ou três a serem buscadas para então estar completo. Mas nunca está. E nessa busca desenfreada, deixamos de desfrutar o que já conseguimos e validar essas conquistas, independentemente do tamanho. E ser grato por elas.

Isso tem um impacto muito grande em nossa saúde mental, abalando nossa autoconfiança e autoestima, prejudicando o amor-próprio, nos colocando sempre no jogo da comparação e nos afastando daquilo que faz sentido para nós.

Nas próximas semanas vamos continuar conversando sobre emoções e autoestima, amor-próprio e o efeito nefasto da comparação. Te espero na próxima segunda!

Até a próxima.

Fátima Sueli Baroni Tonezer é psicóloga, formada em Psicologia na Universidade Estadual de Maringá (UEM). Sua maior paixão é estudar a psique humana. Atende na DDL – Clínica e Treinamentos – (45) 9 9917-1755

Copyright © 2017 O Presente