Quando o medo da solidão mantém mulheres em vínculos que as ferem
Muitas mulheres permanecem em relações infelizes não porque estejam felizes, mas porque têm medo do que imaginam encontrar fora delas. O sofrimento dentro do vínculo é conhecido. A solidão, não. E, para muitas, o desconhecido assusta mais do que aquilo que já machuca diariamente.
Esse é um movimento silencioso e frequente. A mulher reconhece que a relação está fria, desigual, distante ou emocionalmente desgastante. Sente falta de parceria, diálogo, acolhimento e presença verdadeira. Em alguns casos, já não existe admiração, intimidade ou paz. Ainda assim, ela permanece.
NEM SEMPRE PERMANECE POR AMOR
Às vezes, permanece por medo.
O medo de envelhecer sozinha. O medo de não encontrar outra pessoa. O medo do julgamento social. O medo de decepcionar a família. O medo de lidar com finais. O medo de descobrir que perdeu tempo demais. O medo de precisar reconstruir a vida quando já está cansada.
Existe também uma fantasia coletiva perigosa: a de que estar sozinha significa fracasso. Muitas mulheres cresceram ouvindo que o valor feminino está ligado à capacidade de formar e manter um relacionamento. Assim, quando pensam em sair de uma relação ruim, não enfrentam apenas a separação. Enfrentam crenças antigas sobre valor, pertencimento e identidade. Sentem a culpa de não dar conta, não ser “boa o suficiente”.
Em outros casos, o medo da solidão não fala do presente, mas da infância. Mulheres que viveram abandono emocional, instabilidade afetiva ou carência profunda podem sentir a ausência do outro como ameaça intensa. Nesses casos, a companhia, mesmo insuficiente, parece mais segura do que o vazio que antigos abandonos deixaram.
CONFLITO: EMOÇÃO VERSUS PSICOLÓGICO
Por isso, algumas relações se tornam emocionalmente pobres, mas psicologicamente difíceis de abandonar.
É importante compreender que solidão e solitude não são a mesma coisa. Solidão é sentir-se desconectada, inclusive ao lado de alguém. Solitude é a capacidade de estar consigo sem se perder. Muitas mulheres já vivem a solidão dentro da relação, mas temem a solitude porque nunca aprenderam a confiar na própria companhia.
Há relações em que a mulher está acompanhada, porém invisível. Divide a casa, a rotina e compromissos, mas não divide intimidade real. Não é vista em suas dores, desejos ou necessidades. Ainda assim, chama isso de segurança porque teme o silêncio de uma vida nova.
A PRESENÇA AUSENTE
Romper com esse ciclo exige coragem emocional. Não apenas para terminar uma relação, quando esse for o caso, mas para rever a crença de que qualquer companhia vale mais do que a própria paz. Quebrar a crença que “melhor mal acompanhada do que sozinha”.
A travessia pode assustar. Todo recomeço carrega incertezas. Mas também carrega possibilidade.
Muitas mulheres descobrem, somente depois de um tempo, que o vazio que tanto temiam era menos doloroso do que a ausência de si mesmas dentro de uma relação esvaziada.
Ficar só por um período pode doer. Permanecer onde se desaparece costuma doer mais.
Talvez uma das perguntas mais importantes não seja “como vou ficar sem alguém?”, mas “como tenho ficado comigo mesma enquanto permaneço aqui?”. Quando essa pergunta é respondida com honestidade, mudanças começam a se tornar possíveis.
Na próxima semana vamos conversar sobre o apego a fantasia idealizada de um relacionamento. Se este artigo tocou você, guarde e releia quando o medo da solidão bater forte. E compartilhe com outra mulher que também precisa saber. E siga @psicofatimabaroni para mais conteúdos sobre autoestima e relacionamentos.
Até a próxima.

Fátima Sueli Baroni Tonezer é psicóloga, formada em Psicologia na Universidade Estadual de Maringá (UEM). Sua maior paixão é estudar a psique humana. Atende na DDL – Clínica e Treinamentos – (45) 9 9917-1755