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Pitoco

Oeste do Paraná na panela de caranguejos

calendar_month 25 de abril de 2026
10 min de leitura

Do Norte do Paraná a Curitiba, 90% de rodovias duplicadas; de Foz do Iguaçu à capital, 70% de pistas simples; entenda aqui fatores que explicam essa equação

Para entender o processo antropofágico de extermínio de novas lideranças de Cascavel vale uma analogia
com a panela de água fervente que recebe caranguejos fresquinhos, ainda vivos.

Quando um deles percebe o destino fatal, a morte certa, procura de todas as formas escalar as paredes da panela. Quando o fugitivo está próximo da salvação, o caranguejo que não tem a mesma habilidade puxa o de volta para o líquido escaldante e todos se transformam em jantar sapiens.

Na política local é assim também. Lideranças que poderiam fazer a diferença foram devoradas pelo tal “sistema”, que não tem cara, não tem sigla. É da cultura política. O infortúnio de inúmeros vice-prefeitos apagados pelos titulares dialoga também com essa realidade.

BOARETTO DELETADO

Para citar um nome, sempre mencionado entre aqueles que poderiam ter liderado Cascavel para muito além da mediocridade geral, basta ficar em Pedro Luiz Boaretto (in memoriam).

Presidente inovador da Associação Comercial e Industrial de Cascavel, homem de largos horizontes, Boaretto foi “dizimado” em uma convenção do MDB quando buscou a candidatura a prefeito pela sigla.
E hoje está relegado a nominar um trecho da marginal 277 no periférico bairro Cataratas.

A dificuldade de projetar novas lideranças em âmbito local fragiliza a representação política cascavelense no eixo Curitiba-Brasília.

RUA SEM SAÍDA

Cascavel e o Oeste do Paraná são historicamente anêmicos nas instâncias de poder. Para entender o fio condutor que traz até os dias contemporâneos, é preciso voltar mais de um século no tempo. Foz do Iguaçu, durante toda a primeira metade do século passado, era conhecida como “fim da estrada”. Era como por uma placa na BR 277 com os dizeres: rua sem saída.

O Oeste do Paraná conversava em espanhol e bebia tereré, dominado economicamente pelos obrageros argentinos, que aqui exploravam a erva-mate e a madeira. Era terra de los hermanos, para a qual Curitiba e Brasília e a própria soberania nacional surgiam de costas.

O “patinho feio” no mapa do Paraná nunca elegeu senador nem governador.

No máximo bancadas minguadas para o parlamento, algumas delas minadas pelo analfabetismo político e a mediocridade dos incumbentes, causa e efeito da panela de caranguejos.

Mário tirou o Oeste do armário Somente no quarto final do século XX a região que abrigava o “fim da estrada”, os grotões paranaenses, a periferia do Estado, conseguiu emplacar um governador.

O cascavelense afetivo Mário Pereira era vice de Roberto Requião, que renunciou ao mandato para disputar o Senado. Foi o tempo de uma gestação: 9 meses de um oestino no comando do Palácio Iguaçu. Ali foi possível entender o poder da caneta na filosofia da “farinha pouca, meu pirão primeiro”.

É fácil entender a matemática da equação orçamentária. Não há recursos para todas as demandas regionais. Como disse aquele argentino esquisitão: “no hay plata”. Então, região que elege o governador receberá mais recursos. Político tem que ficar bem na sua base, na sua aldeia.

NORTE FORTE

Basta associar os fatos. Quantos governadores a região Norte do Paraná, no eixo Londrina/Maringá, elegeu? José Richa, Álvaro Dias em vários mandatos, Beto Richa eleito e reeleito e Cida Borghetti. E agora tem outro candidato competitivo: Sergio Moro.

O resultado da leva nortista no Iguaçu: 90% da conexão rodoviária entre Londrina e Maringá com a capital Curitiba está servida de vias duplicadas. No “fim da estrada”, 70% da BR 277 entre Foz do Iguaçu e Curitiba amargam pistas simples.

BIC ESPREMIDA

Seria possível citar muitos outros exemplos, mas é importante entender os efeitos da posição oestina nos circuitos do poder nos raros momentos em que isso foi possível.

Mário Pereira espremeu a Bic até estrangulá-la: destinou centenas de milhões de reais para a consolidação da Unioeste, provendo a instituição dos tais “cursos nobres”, como Medicina, Odonto e Engenharia.

Para tanto, enfrentou a reação corporativa de influentes categorias profissionais que preferiam cultivar uma espécie de “reserva de mercado”.

Antes do Mário, nos anos 1970, o então prefeito Jacy Miguel Scanagatta havia colocado Cascavel no mapa do Paraná através de uma articulação com o então governador, Jaime Canet. Inúmeras vezes ele citou a linha direta com o Iguaçu para explicar as primeiras obras estruturantes da cidade.

Curiosamente, quando Mário Pereira buscou um mandato no Congresso Nacional após a governadoria, acabou padecendo na chapa quente da panela dos caranguejos.

Pinguinha e tapinha

Gugu não faz o tipo carismático do varejinho político que frequenta a “bodega” da periferia pagando pinguinha para o eleitor e distribuindo sorrisos fabricados no espelho com tapinhas nas costas.

Porém, articula habilmente. De suplente de vereador em Cascavel à presidência da Câmara, de suplente de deputado à liderança do governo Ratinho Junior na Assembleia, foi um pulo. Dali a pouco o cascavelense já era “prefeito” do Poder Legislativo, com vasta rede de conexões políticas no Executivo e no Judiciário.

Como Alexandre Curi, presidente da AL, não irá disputar a reeleição, Gugu Bueno caminha a passos firmes para ocupar aquela cadeira, fato inédito na representação política do Oeste que, em outros tempos, falava espanhol e abrigava a placa “rua sem saída”.

PITACO DO PITOCO

Ter poder e saber usá-lo são coisas nem sempre confluentes. Gugu sabe usar o poder que tem. Por ação e influência dele, o Iguaçu destinou mais de meio bilhão de reais para Cascavel, no Oeste do Paraná. Nunca Curitiba aportou tanto dinheiro aqui.

Vale lembrar: há uma pauta bilionária na agenda política da próxima legislatura: os contornos Norte e Sul de Cascavel. Sem Bic, sem saída…

Gugu é promissor. Não será surpresa ver o cascavelense na chefia do Poder Legislativo.

Para tanto, no entanto, terá que enfrentar o efeito “panela de caranguejos”, como já dito, fenômeno capaz de vaporizar promissoras carreiras de líderes cascavelense.

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NOSSOS MICROPODERES

Olhei para aquele telhadão do terminal rodoviário e disse para a doutora Laura: caem bem ali algumas fotovoltaicas

Homenageados pela Câmara Municipal com o presidente do Legislativo, Tiago Almeida: havia um ecochato entre eles

Fala-se muito em propósito. Na outra ponta está a vida descompromissada, embalada na tela infinita da futilidade.

Dia desses a assessoria do presidente da Câmara envia um convite muito gentil: votos de louvor pelos 29 anos do Pitoco. Pensei: será concedida a palavra ao editor? Se sim, o que ele dirá da tribuna do Legislativo?

Contar a história e relatar nossas miúdas qualidades seria aborrecer a escassa plateia. Então decidi responder uma questão que um leitor havia levantado dias antes: – o que você faz com o poder que o jornal traz?

Bem, na hipótese que haja de fato algum nível de influência, o tal poder, vamos lá. Relatei na entrega dos louvores o quanto incomodei o então presidente da Câmara, Márcio Pacheco, para elegermos a árvore símbolo de Cascavel.

Deu ipê de qualquer das cores, é lei. Enchi as paciências do Gugu, quando presidia o Legislativo local, até que ele instalasse uma usina solar no prédio do egrégio poder.

Atazanei o Paranhos já nos primeiros dias do primeiro mandato de prefeito, lá em 2016, até que ele adquirisse os primeiros 15 ônibus elétricos para a frota.

TELHADÃO ESTÁ NU

Me ocupo agora de incomodar a doutora Laura, da Transitar, para que amplie a eletrificação no transporte coletivo, e que inclua as viaturas da companhia no processo. Ao encontrá-la recentemente na inauguração da reforma no Terminal Rodoviário, mostrei para ela o gigantismo daquele telhado, que parece pedir para receber umas centenas de módulos fotovoltaicos.

Fiquei então sabendo que o telhadão foi excluído da reforma, e portanto não suportaria o peso da placas. Que pena. Prometo, com meus pequenos poderes advindos do jornal, continuar estimulando nossos gestores na imediata questão da transição energética.

A propósito, secretária Bia, por que razão toda a frota da Secretaria de Meio Ambiente ainda é movida por “suco de dinossauro”?

Sim, ouço sempre que me tornei um eco-chato. Não me incomodo com isso. Estou usufruindo de meus micropoderes. Uma gota no oceano pode ser desprezada como pequena e insignificante.

Porém, com uma gota a menos o oceano seria menor.

Em tempo: obrigado, presidente Tiago Almeida, pela especial deferência. E trate de iniciar a eletrificação da frota oficial do Legislativo. Pacheco e Gugu se renderam aos micropoderes do Pitoco quando eram vereadores, foram bafejados pelas forças imperscrutáveis da natureza e hoje são deputados…

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ENDIVIDAMENTO RECORDE; COMO SAIR DAS DÍVIDAS?

Educação financeira passa pelo comportamento e na relação com o dinheiro, diz especialista

Márcia Bedin: educação financeira passa pela forma como cada pessoa se relaciona com o dinheiro

O Brasil acaba de registrar novo recorde de endividamento: 80,4% das famílias estão endividadas, sendo que 29,6% já estão com contas atrasadas. Nesse cenário, falar sobre dinheiro deixou de ser apenas um tema econômico e passou a ser também uma questão comportamental. Para a educadora financeira Márcia Bedin, compreender a relação emocional com o dinheiro é o primeiro passo para organizar a vida financeira.

Ex-jornalista, Márcia conta que sua entrada no universo da educação financeira nasceu de experiência pessoal. Apesar de ter uma boa renda, ela percebeu que não conseguia equilibrar as contas: “Eu gastava mais do que ganhava. A gente até sabe que precisa gastar menos, mas como fazer isso? Foi quando comecei a buscar conhecimento”.

Ao descobrir que poderia sair das dívidas e até começar a investir, veio o questionamento que mudaria sua trajetória profissional. “Eu pensei: como as pessoas não sabem disso? Se eu tivesse aprendido isso na infância, quantas escolhas eu teria feito diferente?”

A partir de então, Márcia passou a atuar no mercado financeiro e buscou especialização em economia comportamental para compreender melhor como as pessoas tomam decisões relacionadas ao dinheiro. “Educação financeira vai muito além de contas e planilhas. Ela passa pelo comportamento e pela forma como cada pessoa se relaciona com o dinheiro.”

ENDIVIDAMENTO

O “analfabetismo” financeiro se explica em números. “Hoje nós temos cerca de 82 milhões de brasileiros inadimplentes”, afirma Márcia, que contextualiza: “Existe a dívida boa, que é aquela feita com planejamento e que pode trazer retorno. O problema é a inadimplência. São pessoas que não conseguem pagar água, luz ou despesas básicas da casa. Isso é preocupante.”

O que fazer? Pequenos gastos e controle do orçamento

Para reorganizar a vida financeira, Márcia Bedin recomenda começar pelo básico: observar para onde o dinheiro
está indo. Porém, ela alerta que apenas
anotar gastos não resolve o problema.

“Não adianta anotar por anotar. É preciso olhar para o que foi gasto e se perguntar: ‘o que eu posso fazer de diferente a partir daqui? Quando isso vai mudar?’”

É comum a pessoa se preocupar com as grandes despesas, mas os pequenos gastos recorrentes podem ter grande impacto no orçamento. Assinaturas esquecidas, serviços pouco utilizados ou compras automáticas no cartão de crédito são exemplos comuns. “São 20 reais aqui, 50 ali… E, quando você começa a fechar esses pequenos buracos, percebe que pode dar um novo destino para esse dinheiro”, orienta Márcia. Outro ponto importante é começar a investir, mesmo que com valores pequenos. “Muita gente pensa que precisa ter mil ou 50 mil reais para investir. Não precisa! Comece com 10 ou 20 reais. O importante é mostrar
para o seu cérebro que é possível fazer

O que fazer?

Pequenos gastos e controle do orçamento algo diferente com o dinheiro.”

EM CASA

Uma das maneiras mais eficazes de transformar a cultura do endividamento é ensinar crianças desde cedo a lidar com dinheiro. “Crianças a partir de sete anos já podem começar a ter consciência dos gastos do dia a dia”, afirma a educadora financeira Márcia Bedin.

Ela sugere incluir os filhos em pequenas tarefas, como ajudar na lista de compras ou acompanhar os gastos no mercado, para entender que tudo tem valor, e a administrar a própria mesada.

Por Jairo Eduardo. Ele é jornalista, editor do Pitoco e assina essa coluna semanalmente no Jornal O Presente

pitoco@pitoco.com.br

 
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