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Silvana Nardello Nasihgil

Sexo não é sinônimo de amor

Que o amor de verdade tenha amor e sexo e que o sexo vivido pelo sexo não seja confundido com amor

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Silvana Nasihgil

Por indicação de várias pessoas, estou assistindo um seriado na Netflix que se chama Sex/Life. Estou apenas na metade e já pausei várias vezes para pensar a respeito. Não estou sequer imaginando o final, e na reflexão que quero fazer agora, isso não vai importar.

Até onde já fui, identifico muitos elementos que hoje têm destruído famílias e vidas, tanto de quem vive como com quem se convive.

Têm se perdido muito facilmente o foco da vida e o projeto do existir. Nesse contexto, as fantasias encontraram um terreno extremamente fértil para adentrar.

Sem dúvida, o mundo das fantasias é extremamente curioso e motivador, e para quem acha que viver e ser feliz está ligado a sexo e frio na barriga, há elementos sobrando para incendiar a criatividade e a libido.

Eu concordo que frio na barriga é incrível, pois move todos os sentidos, esquenta e dá cor à vida. Mas eu discordo quando se faz necessário passar por cima de tudo e todos para viver tais experiências.

Observando os detalhes dos episódios do seriado, percebe-se um pouco do muito que as pessoas têm buscado para satisfazer aquilo que não conseguem explicar. A fuga da realidade cabe como uma luva para preencher os espaços deixados por uma carência gritante que não se contextualiza.

Diferente de tempos passados, a busca pela vida cheia de emoções tem sido construída abundantemente e sem muitos critérios. Muitas pessoas se juntam em pares e nem sabem por que, formam famílias no modo automático, crendo que ter família os coloca como partes de uma sociedade na qual terão mais credibilidade e menos cobranças. Buscam seguir a “receita de bolo”: nasça, cresça, estude, arrume um trabalho, se case e tenha filhos. Aceitam essa receita como obrigatória e seguem construindo no modo automático, sem qualquer previsão futura, vivendo para ver onde vai dar.

E a vida vai seguindo…

A facilidade com que as pessoas colocam terceiros em suas vidas é assustadora. Circular pelas relações é como fazer escolha em um cardápio; depende do restaurante e da fome. Nessa escolha do que comer o celular tem sido de grande auxílio. Não são poucas as vezes que se escolhe o “restaurante e o prato”, com o parceiro(a), os filhos ou até outras pessoas, sentados ou deitados ao lado.

Esse padrão de comportamento vem se replicando de forma assustadora…

É preocupante porque se perdeu o rumo, vêm se perdendo valores, respeito, as construções feitas pelo acolhimento, partilha, escuta, parcerias… e vivendo a banalização dos sentimentos onde o amor perde totalmente o seu poder. 

Sem saber onde se quer chegar e na busca por viver êxtases infindáveis, as pessoas se colocam em todo tipo de relações. Sem amor próprio e sem valores, se arrastam para o desconhecido e a vida vai embaçando e comprometendo todo o futuro.

Essas buscas não têm muito de racional, têm da necessidade de ser desejado(a), de viver emoções extras, de conquistar, de ser conquistado(a), movendo o instinto e deixando a racionalidade fora da questão.

Nesses comportamentos baseados em sexualidade eu não ouso dizer que se busca o amor, amar e ser amado(a), segue outros caminhos e tem critérios muito diversos.

O amor vem da responsabilidade emocional. Ele cria laços, é uma construção saudável que precisa de amor próprio e autorrespeito para chegar até o outro e movê-lo também.

Não podemos nos fazer de desentendidos e deixar de refletir: se sexo fosse o alicerce que sustenta a vida e sinônimo de amor em uma relação, não existiria a prostituição. Ela nos garante que sexo não é sinônimo de amor, que o sexo pode perfeitamente existir sem amor. Sexo por sexo e ponto. Então, é preciso não romantizar sexo quando colocado na vida para suprir faltas emocionais, por favor!

Indo mais além.  Quando o sexo e os instintos de sexualidade passam a comandar o existir, então a falta de libido seria morrer?

Vale a pena colocar a vida em risco, a família em risco, para satisfazer a libido?

A velha história da grama do vizinho… sempre mais verdinha. Enquanto se admira se esquece que se o vizinho deixar de adubá-la e regá-la, ela certamente irá murchar, secar e morrer. E nada impede que ele o faça, você poderá até sugerir que não, mas a escolha será dele.

Isso nos faz pensar que com os pés firmes no chão teremos muito mais chances de equilíbrio. Sexo é muito importante, é mágico, incrível, mas ele só é perfeito quando é o resultado de uma relação de afetos positivos. Porque só assim existe um antes, durante e depois.

A vida nunca exigiu tanto de nós, nunca nos avisou tanto para nos amarmos mais e nos dedicarmos com muito cuidado a nós e a quem amamos.

Que o amor de verdade tenha amor e sexo e que o sexo vivido pelo sexo não seja confundido com amor.

Que o amor venha para aquecer a alma e o coração, nos faça mais fortes, nos enlace com aqueles que amamos e nos encha de esperanças de dias cheios de paz.

Por Silvana Nardello Nasihgil. Ela é psicóloga clínica com formação em terapia de casal e familiar (CRP – 08/21393)

silnn.adv@gmail.com

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