Para gravar o Pitocast, o podcast do Pitoco, Leonaldo Paranhos deslocou-se pouco mais de 50 metros pelo Calçadão entre a redação do jornal e o estúdio na rua Souza Naves no meio da tarde do último dia 9. A breve distância alongou-se. Eleitores abordavam o político. Em duas ocasiões, pediram para ele voltar à prefeitura.
“Animal político”, o ex-prefeito estava em seu habitat natural. Entrou nas lojas, cumprimentou de mão estendida vendedores e clientes. Foi evasivo quando questionado pelos eleitores sobre 2028, atitude repetida no estúdio, quando confrontado com a possibilidade.
No entanto, quem o conhece mais de perto tem convicção absoluta que Paranhos virá para mais oito anos assentado naquela cadeira estofada do 3º andar do Paço Municipal.
E o Renato? E a mosca azul “imorrível” que frequenta o gabinete do Renato? “Não vejo essa foto, de eu disputando contra ele”, disse Paranhos, saindo pela tangente e pedindo mais tempo para a atual gestão resolver dilemas administrativos.
Disse que é legítima a pré-candidatura do vice, Henrique Mecabô, a deputado federal, cadeira que Paranhos também irá buscar nas urnas deste ano. Porém deixou um recado sutil nas entrelinhas, que também serve para Renato: “A composição que fizemos deu muito certo eleitoralmente, mas precisa dar certo também administrativamente”.
Paranhos obteve, no último dia 25 de maio, autorização da certidão de nascimento para colocar o adesivo de idoso no para-brisas do carro. Completou 60 anos preocupado com a longevidade. 6h30 da manhã está na mini academia que montou em sua residência, no elegante condomínio Treviso, porção Oeste do município.
“Eu estava perdendo massa muscular, ficando igual o Fredy Flintstone, com a canelinha fina. Após morar 72 dias na prefeitura no auge da pandemia, mudei o comportamento, percebi a finitude e nossas fragilidades mediante um pequeno vírus, então adaptei minha agenda para incluir religiosamente as atividades físicas”, disse.
Pitoco – Se era para escolher uma liderança do interior, de liderança e conhecimento limitados regionalmente para sucedê-lo, porque o governador Ratinho Junior optou pelo Sandro Alex de Ponta Grossa ao invés de Leonaldo Paranhos, de Cascavel?
Leonaldo Paranhos – Eu queria a indicação, desejava, sonhava. Era a grande oportunidade do Oeste do Paraná, mas é possível justificar. Pesquisas qualitativas encomendadas pelo governador avaliaram meu nome, do Sandro, Guto Silva, Greca, Alexandre Curi e Beto Preto. O questionário, entre outros itens, trazia um ponto fundamental: qual era o maior legado do governo Ratinho e que merecia ganhar continuidade? Deu infraestrutura. O secretário da pasta era o Sandro Alex, ele esteve a frente de obras fundamentais aqui na região, como duplicações, contorno Oeste, Terminal Rodoviário, Trevo Cataratas…
É meio forçado colar o Sandro Alex no Trevo Cataratas, não acha? É obra do pedágio, acordo de leniência…
Sim, mas quem estabelecia onde fazer as obras entre Foz do Iguaçu e Guarapuava era o governo do Estado em diálogo com o Ministério Público Federal. Gestionei inúmeras vezes junto ao secretário Sandro Alex para que essa leniência executasse o Trevo Cataratas. Até que em um encontro no Palácio Iguaçu o governador bateu-se o martelo. Naquela ocasião, o Sandro enfrentou barreiras para execução, já que a concessionária resistia em função da complexidade do trevo. Enfrentou os entraves e executou. O Sandro enfrentou outros desafios em que a coragem foi determinante, como a Ponte de Guaratuba, onde ele e o governador foram processados no CPF 36 vezes. Se fosse frouxo, Sandro jogava a toalha na primeira intimação, portanto tem perfil para chefiar o Executivo.

“As denúncias do Roman aconteceram na reta final, 15 dias antes da eleição de 2024. Ele assumiu um papel na campanha do Márcio Pacheco, por entenderem que estava desenhado para ganharmos no primeiro turno. O alvo escolhido não foi o Renato. O alvo fui eu.”
De toda forma, uma comparação direta entre o Sandro e você, apresenta assimetrias gritantes. Você foi eleito e reeleito no 1º turno em uma cidade da dimensão de Ponta Grossa. Depois reelegeu seu candidato também no 1º turno. Capacidade de comunicação, marqueteiro… É preciso insistir na pergunta com um adendo: não foram as denúncias que o ex-deputado Evandro Roman trouxe contra você e seu governo que tiraram seu nome do jogo?
As denúncias do Roman aconteceram na reta final, 15 dias antes da eleição de 2024. Ele assumiu um papel na campanha do Márcio Pacheco, por entenderem que estava desenhado para ganharmos no primeiro turno. O alvo escolhido não foi o Renato. O alvo fui eu. Não acredito que isso tenha afetado a decisão de agora do governador. Afinal, eu nem havia concluído ainda minha gestão na Prefeitura, e já veio a sondagem do Ratinho para que eu atuasse no primeiro escalão do governo. Acrescente a isso uma informação relevante sobre as denúncias: fui inocentado pelo Ministério Público e pelo Tribunal de Justiça do Paraná.
O governador tem citado o papel decisivo do Paranhos na eleição do Renato em Cascavel para dizer que ele, Ratinho, poderá fazer o mesmo em âmbito estadual. Sandro Alex reprisa Renato?
Acredito que sim. Não é uma pergunta difícil para a população. É simples: se o paranaense acha que o Paraná está indo mal, deve mesmo trocar o time e o modelo de governança. Mas se entende que o modelo vai bem e merece continuar, vai optar pelo que o governador está avalizando como sequência, vai optar pela indicação do modelo de continuidade.
Por falar em reprise, o prefeito Renato está sendo pressionado por pré–candidatos ao Congresso Nacional. Corre o risco de fragmentar forças e fragilizar o apoio? Não foi exatamente nesse ponto que nasceu sua desavença com o ex-aliado Roman?
Você traz a conversa para 2018, quando o Roman disputou a reeleição para deputado federal. Busquem no Youtube e irão encontrar meu apoio para um único candidato, exatamente o Roman. Outros amigos de outrora, também muito próximos, vieram pedir apoio, como o Carlos Moraes. Tive que dizer: não te apoiarei, tenho compromisso com o Roman.

Não é bem isso que o Roman fala…
O Roman perdeu a eleição no exercício do mandato, como incumbente. Eu sempre digo, mandato tem que cuidar, tem que regar todo dia. Fui eleito deputado com 27 mil votos, na eleição seguinte obtive 70 mil. Tem que ralar. Não digo que ele não trabalhou, pois trouxe recursos importantes para Cascavel.
O que faltou então?
Ele não conseguiu levar isso para a população apesar dos apoios que arregimentou. Houve também um voto que ele deu no Congresso em uma questão trabalhista, que gerou pesado desgaste. Perdeu e quis debitar para mim. E não rompeu somente comigo, rompeu também com o Sciarra, o Lange e o Ratinho, sempre procurando transferir responsabilidades que eram dele. Disputei 11 eleições, perdi muitas. No dia seguinte fui para a rua agradecer quem me apoiou.
Não foi o único amigo que você perdeu na caminhada, tem também o Carlos Moraes, o Moacir Vosniak, tudo gente que frequentou sua “cozinha” política. O Paranhos é um cara difícil ou cercou-se de amigos interesseiros?
Saí da prefeitura despido de qualquer ego com 87% de aprovação popular aferidos por três institutos diferentes. Elegemos o Renato no primeiro turno fechando um ciclo de três eleições que dispensaram o segundo turno. Isso comprova uma relação saudável com a maioria das pessoas. Mas não tem como passar pela prefeitura sem fazer inimigos.
Como assim?
Tem que trabalhar com o coração em uma mão e o chicote na outra. A prefeitura é um ímã para puxar interesses pessoais. O cara ganhava licitação e queria entregar sem qualidade. Eu ia pessoalmente fiscalizar, filmava, mandava fazer de novo, segurava pagamento, esse cara não vai gostar de mim. Contratamos asfalto de 5 cm, entregavam três. Mandei para o Tribunal de Contas. Contratei serviço de pavimentação que só pagava depois de provas laboratoriais comprovarem a regularidade.
“Saí da prefeitura com 87% de aprovação popular aferidos por três institutos diferentes. Elegemos o Renato no 1º turno fechando um ciclo de três eleições que dispensaram o 2º turno. Isso comprova uma relação saudável com a maioria das pessoas. Mas não tem como passar pela prefeitura sem fazer inimigos.”
Naturalmente alguns amigos querem ser prestigiados no governo…
Tem os interesses pessoais, alguns até legítimos. O cara apoia e quer cargo depois, quer ser secretário, e as vezes não dá para colocar. Outros querem benefícios tributários, isenção de IPTU, áreas para construir suas empresas sem passar pelos critérios estabelecidos. Tive esses problemas, mas é meia dúzia em uma cidade de 370 mil habitantes. Contabilizar uma dúzia de pessoas que odeiam você por não terem interesses pessoais atendidos, é saldo positivo.
Como sua família reage aos ataques que você sofreu e ainda vem sofrendo, inclusive envolvendo alguns dos seus consanguíneos?
Incomoda, a família sofre. Já disputei 11 eleições, machuca, mas minha família sabe que o jogo é pesado. Mais ainda quando os ataques partem de pessoas ligadas a mim. Por que atacam? Porque deixei de atender suas expectativas lícitas? Não, a grande maioria ficou comigo, nunca liguei para um secretário pedindo para fazer algo duvidoso para alguém, pagar tal nota. Ligava cobrando rapidez, transparência e qualidade. Me incomoda perder amigos, é ruim perder amigos. Moacir era meu amigo, Carlos Moraes era meu amigo, tiveram alguma frustração por interesse pessoal contrariado.
Preocupa os processos que você responde e que ainda poderá responder? Há ameaças legais para seu futuro político?
Vamos entender melhor isso: 2017, 18, 19, 20, 21, 22, 23 e 24. São os anos em que governei Cascavel. Em todos eles, minhas contas estão aprovadas no Tribunal e pela Câmara Municipal. Isso é inédito, e nunca aconteceu uma aprovação com essa velocidade.
Entre as obras que você executou nesse período, qual delas é a menina dos seus olhos?
Quando revitalizamos e ampliamos a avenida Gralha Azul, no Guarujá, logo percebemos que não é obra para impactar o Jardim Floresta, no outro lado da cidade. Então é preciso também ampliar e revitalizar a avenida Papagaios. Quero dizer o seguinte: a melhor obra é aquela que está mais perto das pessoas. É para isso que gestores são eleitos, foi o que fiz.
“Tinha que descer do avião minutos antes da decolagem, crise de ansiedade severa. Fiz tratamento, reposição hormonal. Fui a um nutrólogo embora tivesse vergonha de falar sobre síndrome de pânico, achava que era frescura dizer do medo de ficar fechado no elevador.”
Difícil citar uma obra, mas me realiza muito a construção de 25 escolas e revitalização de outras 65 escolas e CMEIs, muitas delas com histórico de interdição pelas péssimas condições em que as encontramos.
Uma passada rápida no turismo?
Claro, quando cursei hotelaria e turismo na Unipar, 25 anos atrás, jamais imaginava que um dia eu seria o Secretário de Estado do Turismo. Eu e minha equipe visitamos os 399 municípios do Paraná. Em 2024 havia 294 convênios da pasta com os prefeitos. Em 2025, fizemos saltar para 1.408 convênios, com R$ 333 milhões em eventos e R$ 700 milhões em obras de infraestrutura turística, resultando em investimento de mais de bilhão.
Precisou colocar muitas horas voo nisso. Sua síndrome de pânico permitiu?
De vez em quando dá uns piripaques ainda, tive problema muito sério quando era deputado. Tinha que descer do avião minutos antes da decolagem, crise de ansiedade severa. Fiz tratamento, reposição hormonal. Fui a um nutrólogo embora tivesse vergonha de falar disso, achava que era frescura dizer do medo de ficar fechado no elevador. Superei, agora estou voando com menos problemas.
A reportagem do Pitoco flagrou em breve caminhada com você no Calçadão de Cascavel as pessoas pedindo para você voltar a ser prefeito. É para 2028 essa demanda?
O Renato fará um bom governo, as pessoas tem que ter paciência. Vejo muito falarem de buracos nas ruas. Entre aqueles que passam pelos binários que recapamos, como da Recife e Kennedy, poucos lembram de como era antes, a buraqueira que era. Isso é natural. Agora, quando a roda bate no buraco, o primeiro nome que vem depois do palavrão é o nome do prefeito. Mas isso será resolvido, temos recursos liberados para atacar o problema. Agora, não é fácil, são 11 milhões de metros quadrados de asfalto, grande parte bem antiga já. Vai passar e teremos um bom governo.
“O apoio do Flavio Bolsonaro já teve mais peso. Hoje está prejudicando a campanha do Moro. Não tem como ignorar esse envolvimento com o banco Master. Isso cola, é um câncer político, está pegando forte na opinião pública e irá mais longe ainda…”
Você driblou a questão e deixou um buraco na resposta. Você é candidato a prefeito em 2028?
Não vejo essa foto, eu disputando contra o Renato. Salvo que o Renato não seja candidato a reeleição e o grupo me convoque para dar continuidade. Só se for assim, mas se o Renato for candidato com condições de ganhar a eleição, estaremos juntos.
E logo vem aquela conversa que beneficia você nessa equação: “quem pontuar melhor na pesquisa será o candidato do grupo…”
Pode acontecer isso, mas eu e o Renato temos que ter maturidade, fizemos campanha colados. Eu disse “votando no Renato tá votando em mim”. Não vejo eu e ele disputando. Já passamos esse filme aqui quando eu era vice disputando contra o Edgar que era o prefeito. Não foi bom para cidade. Quando líderes brigam é ruim. Uma eleição contra o Renato seria briga. Não trabalho com essa possibilidade, estaremos juntos.
Sua pré-candidatura a deputado federal colide com o projeto do vice, Henrique Mecabô…
Não haverá conflito. A composição que fizemos deu muito certo eleitoralmente, mas precisa dar certo também administrativamente. Disputar para deputado federal é decisão pessoal dele. Eu o apoiei para vice-prefeito, mas a decisão dele será respeitada. Jamais vou mudar minha percepção sobre o Henrique, jovem preparado, determinado que gosta do que faz, tem todo direito de ser candidato.
Por que o governador Ratinho Junior saiu do jogo presidencial?
Ele fez pesquisa qualitativa. Percebeu que não havia espaço para debater projetos, apenas Lula ou Bolsonaro, polarização. Ninguém discute saúde, educação, reformas, era só direita ou esquerda. Ratinho mostrou a pesquisa para o grupo e disse: Não existe isso, se vou falar do modelo Paraná para o Brasil, o cara vai perguntar: “você é Lula ou Bolsonaro?”. Também percebeu que para ganhar a eleição no Paraná a presença dele é insubstituível. Uma coisa é o Sandro vir a Cascavel na campanha, outra coisa é vir com o Ratinho.
O apoio do presidenciável Flávio Bolsonaro a Sergio Moro para o governo do Paraná será determinante na disputa ao Palácio Iguaçu?
Já teve mais peso. Hoje está prejudicando a campanha do Moro. Não tem como ignorar esse envolvimento com o banco Master. Isso cola, é um câncer político, está pegando forte na opinião pública e vai mais longe ainda, implicando gente grande do Judiciário, Executivo e Legislativo. É um quadro ruim para eles, momento difícil de superar.

Por Jairo Eduardo. Ele é jornalista, editor do Pitoco e assina essa coluna semanalmente no Jornal O Presente
