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Padre Marcelo Ribeiro da Silva

Eleição e os valores sociais

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Bons leitores, na proximidade das eleições, instrumento de participação social na construção do projeto nacional, venho, com certo tremor, compartilhar com vocês alguns pensamentos. Tenho por convicção que o fato de eu ser um religioso demanda de mim uma postura apartidária, mas que não me dispensa de pensar os valores que desejo ver fomentados e robustecidos pela ação política. Toda a formação que recebi da Igreja, quer dizer, dos católicos que mantêm os seminários, desemboca no compromisso de levedar a realidade social com a força do Evangelho.

Um povo é um conjunto de pessoas que vivem em comunidade e seus valores. Chegamos a ser povo por uma vinculação forte em valores que temos como importantes em comum. A coesão social se mantém pela força desses valores, que conseguem costurar pontos de união entre as diversidades.

Entre os meios e agentes de costura estão os programas políticos. Lembro-os disso para nos ajudar no exame de consciência a respeito dos valores com que estamos costurando o tecido social.

Que tipo de linha estamos usando para coser o Brasil?

Se a linha for ruim, vai adiantar culpar a agulha pela fragilidade da costura social?

Sem bons valores, há modo maneira de alçar bons projetos?

Um passo atrás, caros leitores, para enxergar em nosso ambiente aquilo que está cosendo nosso tecido social. O papa Francisco, na Fratelli Tutti, propõe a imagem da “globalização da indiferença” como retrato da nossa realidade social, a indiferença como produto daquilo que estão buscando nos fazer acreditar serem valores para nós: a) o dinheiro como símbolo do sucesso; b) o consumo como símbolo da felicidade; c) o prazer como símbolo da satisfação humana.

Por favor, sem qualquer presunção de minha parte de exercer juízo moral, pois eu também vivo sob influência dessa mesma costura. Há nela o grave risco de acharmos que no bem-estar pessoal está o segredo da vida humana, que ele é capaz de pacificar o coração humano e sustentar a unidade do tecido social. Não, o fim do consumo é o deleite, o fim dos valores é o desejo, o bem do consumo alcança o eu, o bem do valor alcança o nós, o produto do prazer é a indiferença e o produto do valor é a fraternidade.

Portanto, se queremos alçar um voo mais alto do que apenas reproduzir a pasteurizada cultura global, se nosso orgulho nacional redivivo se inspira não apenas em nossa pujante capacidade produtiva, se houver verdadeiro interesse de nossa parte pelo bem comum, estamos sempre em tempo de abrir um amplo diálogo sobre os valores da fraternidade e amizade social.

Ainda, alguém poderia dizer: mas padre, não é a guerra de valores que está prejudicando a nossa política?

Bem, vou lhe dar meia razão. Concordo que a manipulação dos valores está contribuindo na polarização política, servindo como títulos vazios para justificar todo tipo de ação. Mas, nisso está a razão para um diálogo sobre os valores na política, para que o emprego vazio ou desfigurado dos valores sociais não continue legitimar o fato de darmos nas eleições um cheque em branco à política dos sem valores.

Por Marcelo Ribeiro da Silva. Ele é padre da Diocese de Toledo
Reitor do Seminário São Cura D’Ars
Doutorando em Filosofia – Unioeste

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