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Pitoco A casa verde

Que tal uma história inspiradora, com lições para o mundo corporativo?

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Que ensinamentos traz para o mundo dos negócios e para as relações humanas o modesto imóvel que iniciou a Rede Irani na periferia de Cascavel?

Genesio, Daniel, Ivo, Preta e Salete, a segunda geração da família sob inspiração do patriarca Otávio Pegoraro (no detalhe)

Hoje, quando vemos produtos na gôndola com a marca do próprio supermercado, somos levados a pen¬sar: até onde poderá ir a verticalização do varejo?

Verticalizar é uma ferramenta do mundo corporativo, que pode ser traduzida por frases como “direto da fábrica” ou por ações empresariais que apontam para o fechar o ciclo de produção. Para usar o jargão do futebol, é cobrar o escanteio e correr para a área cabecear. Isso é novo e disruptivo? Não. Se fosse possível obter uma imagem aérea da pobre e desolada Porção Sul do município de Cascavel ambientada no ano de 1973, em um dia qualquer da semana, bem cedinho, o que veríamos?

Uma kombi se deslocando desde uma casa de alvenaria pintada de verde escuro até o ponto em que um grupo de “bóias-frias” aguardavam o caminhão que os levaria até as fazendas que passavam a cultivar algo relativamente novo naquele tempo: “moitas” enfileiradas que geravam um vagem lotada de pequenas esferas cor de palha: a soja.
A kombi estava em nome de Otávio Pegoraro. Ele criava uma vara de porcos aos fundos da casa verde. Dali vinham embutidos produzidos artesanalmente pela família descendente de italianos que acabara de migrar de Irani, região centro oeste de Santa Catarina: era salame, linguiça, torresmo… Aqui o fundador da rede Irani de supermercados já verticalizava o empreendimento, fechando o ciclo do porquinho ao torresmo e ainda apontava caminhos: ir até o onde cliente está, mesmo que o potencial comprador ostentasse bolsos rasos, como o mal pago trabalhador rural volante dos anos 1970.

Aquilo de comercializar com gente simples, bóias frias, operários, parecia sinalizar o que estaria por germinar na casa verde postada as franjas da BR 277, no Cascavel Velho. Ali, no porão da grande família, nascia a rede de supermercados.

A sinalização de vínculo com as comunidades periféricas se confirmou no primeiro passo da expansão do grupo, e no segundo também: em 1984 a casa verde ganhou uma réplica no Parque Verde e dois anos depois, no Jardim Floresta. Que característas esses bairros guardavam em comum? O que seu Otávio e filhos enxergaram nestas franjas distantes do centro? Isoladas a ponto de seus moradores usarem a seguinte expressão: “hoje vou para a cidade fazer compras”.

Cesar, Danielli, Daniel Jr e Cleber, a terceira geração em campo

Sim, parecia que Parque Verde e Floresta não estavam dentro da cidade. Mas ali nasciam núcleos urbanos vigorosos a partir de projetos habitacionais conhecidos como “casinhas de BNH”, cuja rápida densificação viabilizou as modestas operações de varejo da família Pegoraro.

Outra vez seu Otávio fez as vezes do artista célebre que repete o mantra: estar onde o povo está. Mais que isso: misturar-se ao povo, se tornar um deles. Desta forma a segunda geração da família foi morar nas “casinhas de BNH” – como o primogênito Ivo Pegoraro, esposa e três filhos moraram décadas na modesta morada do projeto de habitação popular do Parque Verde, local em que assumiu a condição de líder comunitário.

“Misturar-se” à comunidade era algo que vinha por transmissão hereditária de Santa Catarina, onde seu Otávio, ativista das causas de sua aldeia, foi eleito vereador antes de partir para o bravio Oeste paranaense.

Enquanto outras redes supermercadistas locais igualmente bem sucedidas buscavam a melhor área no centro para ostentar suas logomarcas e novas lojas, os Pegoraro fincavam raízes profundas no Parque Verde com Ivo e no Floresta com a Preta com base em um relacionamento que brotava natural neles por suas próprias origens: tratar os humildes com humildade.

A primavera chegou ao Parque Verde, floresceu e frutificou. O Floresta mostrou-se sustentável e promissor. Então foi preciso estabelecer novas casas verdes. Uma delas, imensa, marcou uma nota etapa: em 1994 a lojinha histórica que funcionava no porão da casa nas franjas da BR 277 foi transferida para amplas e modernas instalações no alto da Avenida Brasil aos cuidados dos irmãos Daniel e Genesio. Em 2020 era inaugurada a loja da Tancredo Neves.

Como a roda do tempo não pára e os ensinamentos do fundador prosseguem iluminando caminhos em direção a verticalização, o grupo acaba de anunciar o ingresso no segmento atacarejo, com o Portí Atacadista, obra edificada pelos meninos da Bastian e Lora nas imediações do Ceasa.

Seu Otávio, homem da vida prática, foi criador de porquinhos, foi produtor de salames, foi pedreiro (ele próprio instalou azuleijos na casa verde e pôs a mão na massa para ampliá-la), foi carpinteiro (construiu as primeiras gôndolas e balcões) e sempre ao lado da parceira de uma vida toda, dona Josefina, foi também o empreendedor que deixou lições hoje consagradas nos maiores centros business do planeta: verticalize, agregue valor ao produto, insira-se na comunidade em que vive, respeite os humildes, vá até onde o cliente está.

A hora e a vez da terceira geração

Da casa verde do Cascavel Velho ao Porti Atacadista foi-se meio século de história. Aos Pegoraro foi colocado desafio atinente a toda empresa familiar: o que queremos de nossos descendentes? Herdeiros ou sucessores? O “x” foi marcado na segunda opção. E a terceria geração dos Pegoraro foi preparada nos bancos escolares e na escola da vida sob inspiração dos antepassados para assumir os rumos da rede. A segunda geração, Ivo, Daniel, Genesio, Marizete e Salete, seguindo a cartilha da boa gestão corporativa, levou seus saberes para compor o conselho de administração. Os meninos Cesar, Cleber, Daniel Junior e Danieli passaram a ocupar funções executivas dentro de uma transição que compatibiliza preceitos de empresa familiar com profissionalismo na gestão. “Não basta ter o sobrenome ou o sangue da família nas veias, é preciso desempenhar e entregar resultados”, resume Cesar Pegoraro, filho do primogênito do seu Otávio, Ivo.

A exemplo dos irmãos e primos, Cesar vem sendo preparado para a missão desde muito cedo. “Me recordo que aos 9 anos de idade recebi meu primeiro salário. Eram 23 reais, comprei um relógio, mas tive que parcelar, pois faltaram 7 reais para pagar a vista”, diz o executivo, hoje à frente da área de marketing do grupo. A seguir, acompanhe depoimentos do quarteto que – aconselhado pelos veteranos – sucede “seo” Otávio e dona Josefina na desafiante tarefa de repetir ou superar o desempenho de seus antecessores.

CESAR PEGORARO

Recordo dos meus pais, avós e tios acordando de madrugada e trabalhando até a noite em longas e exaustivas jornadas. São exemplos a inspirar. Vi meu pai trabalhando no açougue, meus tios empenhados. Tenho um quadro na sala que me faz lembrar isso todos os dias. Guardo comigo os ensinamentos do avô: cultivar uma escala de valores, respeitar etapas, um degrau de cada vez, não ter receio de descontinuar e começar tudo novamente com cada passo planejado.

DANIEL PEGORARO JUNIOR

Faço parte desta terceira geração e da nova administração. Desde cedo acompanho os negócios da família. Estudei cada etapa, cada processo, desde o pequeno negócio lá no início até o que nos tornamos hoje. Aprendemos a fazer o que é o certo, ou seja, não misturar negócios pessoais com a empresa, servir a empresa e não servir-se dela, e ter clareza do que temos de mais valioso: nossos clientes e funcionários. Formamos uma empresa jovem, agregando os valores da tradição que trouxemos dos fundadores com muita vontade de inovar, de crescer e fazer a diferença, gerando oportunidades para todos que queiram crescer com a gente.

CLEBER PEGORARO

À frente da Pegoraro Administração e Participações, somos responsáveis pela administração dos imóveis e centros comerciais que levam o nome da minha avó, Josefina, em justa homenagem. Sempre prezamos pelo crescimento sustentável, guiados pelos ensinamentos dos avós e nossos pais, com um propósito muito claro: criar oportunidades e à medida que forem surgindo, saber com conduzí-las e potencializa-las. As diversificadas operações comerciais anexas às lojas são excelentes oportunidades para empreendedores dos mais diversos setores e transformam cada uma de nossas operações em mini-shoppings, levando comodidade e diversidade para todo o entorno.

DANIELLI PEGORARO

A proximidade com as pessoas e com a comunidade, gostar de gente, são valores presentes na família. Meu avô foi líder comunitário no interior de Santa Catarina. A pedido da comunidade se candidatou e foi eleito vereador. O nôno, até os últimos dias de vida, era visto nas lojas fazendo o que mais gostava: abastecer seção de salame ou do leite barriga mole. Ele gostava genuinamente de estar com pessoas, ouvir clientes e colaboradores e passou essas características para meus pais. “Gente gosta de gente”, costuma dizer meu pai Daniel. É com esse espírito que, na condição de diretora de recursos humanos, quero inspirar meus colegas de trabalho. É gente que está aqui desde o primeiro emprego e hoje ocupa funções gerenciais. Oportunidades estão dadas aqui na empresa para quem quiser se desenvolver e crescer. Tenho amor e orgulho da nossa história, me inspiro muito nos meus pais, avós e familiares.

DE PACOTEIRO A GERENTE

Dario Zimmerman era um adolescente em fevereiro de 1989 quando ingressou na acanhada loja do Irani no bairro Floresta. Era pacoteiro. Mas era também inquieto e curioso. Sempre que possível dava uma geral na loja, jogava em várias posições: repositor, auxiliar de padeiro, açougue, feira, operador de caixa, depósito.

Os gestores da unidade do Floresta, Preta, Genesio e Salete perceberam ali um colaborador diferenciado e passaram a lhe abrir oportunidades, até que em 2012 Dario assumiu a gerência da loja já ampliada.

“É inacreditável ver o que era a rede e em que se transformou hoje. Coube a mim abraçar as oportunidade e crescer junto”, diz Dario, hoje gerenciando a loja da Tancredo Neves.

“Coisa que gosto de fazer é trabalhar em supermercado, gosto de mexer com gente, compartilhar conhecimento, capacitar e promover pessoas. É disso que gosto. Em fevereiro próximo completo 35 anos no Irani, meu primeiro e único emprego”, disse.

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O pré-sal caipira

Projeto bancado por Itaipu em parceria com o município de Toledo transforma uma encrenca ambiental – dejetos de quase 1 milhão de porcos – em solução energética

Dirigentes de Itaipu e o prefeito de Toledo, Beto Lunitti, celebram a lâmpada acesa pelo “cocô do porco”: primeira unidade tem capacidade para transformar em energia os dejetos de 41 mil suínos

Maior produtor de suínos do País, o município de Toledo passou a contar, a partir do último dia 11 de outubro, com uma Central de Bioenergia para tratamento de dejetos de 41 mil animais, criados por 15 produtores da região. Na central, esse material se transformará em biogás para geração de energia elétrica suficiente para abastecer 1,5 mil residências de médio porte. Também serão produzidos no local 330 metros cúbicos de digestato (biofertilizante), que serão distribuídos para os próprios suinocultores e a comunidade em geral.

O projeto é uma parceria da Itaipu Binacional, que investiu R$ 19 milhões na iniciativa, com o Parque Tecnológico Itaipu (PTI-Brasil) e o Centro Internacional de Energias Renováveis (CIBiogás), responsável pela implantação e operação da planta.

Nesta fase, de operação assistida, todos os equipamentos são monitorados em um ambiente controlado até a execução da operação continuada, que irá

acontecer após a inauguração do proje¬to, em 2024.

TOLEDO NA ONU

O diretor-geral brasileiro da Itaipu, Enio Verri, observou que o Oeste do Paraná tem na agropecuária uma das suas principais atividades econômicas e a produção de biogás, a partir do tratamento dos dejetos, torna-se uma solução viável do ponto de vista social, econômico e ambiental. “A poluição que poderia contaminar o solo, os rios e – por consequência – o reservatório da usina de Itaipu é transformada em energia e renda”, disse.

Verri acrescentou que pretende apresentar a experiência da Central de Bioenergia de Toledo, no tratamento dos dejetos da suinocultura, na Conferência do Clima, da Organização das Nações Unidas (ONU), que neste ano acontece de 30 de novembro a 13 de dezembro em Dubai.

O prefeito de Toledo, Beto Lunitti, agradeceu o apoio de Itaipu e lembrou que o município foi um dos que apoiaram criação do CIBiogás, há dez anos. “Hoje, essa Central de Bioenergia é a realidade daquilo que foi discutido lá atrás. Porque Itaipu teve essa visão de futuro, que se intensificou na atual gestão, para que a gente possa potencializar a vocação que temos na produção de proteína animal.”

PRÉ-SAL CAIPIRA

O diretor presidente do CIBiogás, Rafael González, deu detalhes sobre o processo de biodigestão na Central de Bioenergia e destacou que a planta está preparada para receber mais um gerador e dobrar a capacidade de produção. “Temos o pré-sal no litoral brasileiro, mas aqui no Paraná temos também o pré-sal caipira, transformando a nossa proteína animal em energia”, comparou.

A Central de Bioenergia de Toledo (CBT) foi construída em um terreno de 55,3 mil metros quadrados, doados pela Prefeitura, e conta com três biodigestores com capacidade para processar 9,5 mil metros cúbicos de dejetos. Esse volume é suficiente para produzir, na fase inicial, 5 mil metros cúbicos de biogás, que irão movimentar dois geradores, cada um com potência instalada de 335 kW. A central está ainda estruturada para receber, diariamente, até seis tonelada de carcaças de suínos mortos, que não foram abatidos e são impróprios para o consumo, além de outros tipos de materiais apreendidos por órgãos como a Polícia Federal, a Receita Federal e o Ministério da Agricultura e Pecuária (Mapa).

Por Jairo Eduardo. Ele é jornalista, editor do Pitoco e assina essa coluna semanalmente no Jornal O Presente

pitoco@pitoco.com.br

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