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Tarcísio Vanderlinde

Boicote sacerdotal  

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Alfred Meltraux, historiador que se debruçou sobre o trabalho de Cristóbal de Molina (sacerdote que catalogou os hinos incas), faz referência a um destes hinos curiosos preservados por Yamqui, cronista nativo do século XVII.

Ele afirma que o hino pertence à mesma tradição literária já anteriormente pesquisada por Molina. Meltraux observa que, “pela profundidade de pensamento e lirismo sublime, o hino preservado por Yamqui é comparável aos mais belos salmos”.

O que estes hinos de fato revelam? Revelam as convicções de Pachacuti de que Inti (o sol) tinha limitações. Nas palavras do antropólogo Don Richardson, “Pachacuti tomou o testemunho que extraíra diretamente da criação e o colocou ao lado da quase extinta memória de sua cultura: Wiracocha, o criador onipotente de todas as coisas”.

Ao recuperar a memória de Wiracocha, Pachacuti convoca os sacerdotes de Inti para um concílio a ser realizado no templo de Coricancha, em Cusco. As dúvidas sobre a universalidade de Inti foram expressas por Pachacuti no conclave. Richardson apresenta fontes de estudos anteriores que destaca a proclamação de Pachacuti sobre o caráter de Wiracocha que pode ser assim sintetizado:

Wiracocha é o antigo, remoto, supremo e não-criado. Não necessita de satisfação vulgar de algum consorte. Guerreiros e arcanjos celestiais rodeiam sua solidão. Ele criara todos os povos pela sua palavra. Ele é o destino do homem, ordenando seus dias e sustentando-o. É o princípio da vida. Traz a paz e a ordem. É abençoado em seu próprio ser e tem piedade da miséria humana. Só ele é capaz de julgar e absolver os homens, capacitando-os a combater suas tendências perversas.

Em decorrência da declaração conciliar, Inti passa a ser considerado apenas uma entidade criada. As orações agora deveriam ser dirigidas a Wiracocha. Richardson observa que, “como resultado do concílio, Pachacuti compôs hinos reverentes a Wiracocha, os quais, por fim, passaram a fazer parte da coleção de Molina.

A mudança do foco de adoração de Inti para Wiracocha, no entanto, provocaria ruídos na classe sacerdotal. Nem todos estavam dispostos a seguir as deliberações do Concílio de Coricancha.

Uma das dúvidas na mente sacerdotal era saber como reagiriam as massas diante da mudança. Entre uma atitude cínica, incrédula ou até mesmo de um levante social, tudo era hipoteticamente possível. O resultado é que acabou prevalecendo o status quo, e a adoração a Wiracocha ficou confinada a círculos restritos da nobreza inca.

O boicote dos sacerdotes de Inti impossibilitou que a revelação de Wiracocha se universalizasse na sociedade governada por Pachacuti.

 

O autor é professor sênior da Unioeste

tarcisiovanderlinde@gmail.com

 

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