Zigmunt Bauman, um dos clarividentes cientistas do nosso tempo, observa que matar com drone têm algumas vantagens assépticas no tipo de guerra que virou espetáculo midiático da modernidade líquida. Uma delas, é que não perturba a consciência de quem aperta o botão. Ela isenta o operador da culpa moral que o assaltaria caso fosse incumbido de selecionar os condenados a executar.
Bauman lembra fragmento do filósofo Walter Benjamin, crítico da ideia de progresso, coisa que continua ainda muito difundida em nossos dias. O texto em destaque é “O Anjo da História”, e leva em conta os horrores vividos pela população civil vítima da 2ª Guerra Mundial: “Não somos impelidos por um futuro luminoso, insistiu Benjamin, mas repelidos, empurrados e forçados a correr pelos horrores sombrios do passado”.
Mas o que aconteceu com este anjo, indaga Bauman; uma vez que se trata de discutir sua reencarnação? O autor responde: “Como tantas outras intenções, projetos, funções e promessas de ação coletiva administrada pelo Estado, disfarçados de ‘progresso’, ele foi privatizado”. É curioso perceber como os debates atuais em torno da IA e do uso da internet convergem com a crítica do autor: “A internet não rouba nossa humanidade, ela a reflete. A internet não entra em nós, ela mostra o que temos por dentro”.
Um dos aspectos mais cruéis da modernidade líquida se revela aos jovens na forma de ausência de perspectivas para o futuro. Os recém-diplomados podem se defrontar com um final incerto após anos de formação acadêmica. Antes havia a crença de que o ponto de chegada dos pais seria o ponto de partida dos filhos. Com o acréscimo de contingentes redundantes, o que se vê agora é a possibilidade real de mobilidade social descendente a despeito da qualificação profissional que se carrega.
O futuro é ainda mais incerto à medida que universidades abandonam a pesquisa e se voltam para formações rápidas associadas ao volátil mercado de consumo: “Havia uma luz brilhante, ofuscante, no fim de cada um dos poucos túneis que seus predecessores foram forçados a atravessar no curso de suas vidas; agora, em vez disso, há um túnel longo e sombrio atrás das poucas luzes que piscam, tremulam e se apagam depressa na vã tentativa de romper a escuridão”.
Diante das análises sombrias da modernidade líquida que marca o jeito Bauman de pensar, não se poderia deixar de concluir sem lembrar sua posição otimista em meio ao caos, que consta num texto que se tornou grande sucesso do autor no Brasil e no mundo. Trata-se do best seller “Amor líquido” (Liquid Love):
“Nosso consolo (o único disponível, mas também – permitam-me acrescentar – o único de que a humanidade necessita quando cai numa era sombria) é o fato de que a história ainda está conosco e pode ser construída. De fato. A história não terminou, de modo que escolhas ainda podem ser feitas – e inevitavelmente serão”.

Por Tarcísio Vanderlinde. O autor pesquisa sobre povos e culturas do Oriente Médio.
@tarcisio_vanderlinde2023
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