Por enquanto continua sendo permitida demonstrações de fé nos gramados de futebol. Manifestações de ordem política ou racial, contudo podem trazer sanções. Enquanto boa parte da população mundial se liga em futebol ou na religiosidade que emerge dos gramados, permanece um curioso apagão nas mídias sobre o exercício restritivo da fé cristã em cerca de 60 países.
Segundo o relatório World Watch List da organização “Portas Abertas”, ao final de 2025, mais de 380 milhões de cristãos no mundo enfrentavam níveis elevados de perseguição e discriminação por causa da sua fé. Isso equivale a aproximadamente 1 em cada 7 cristãos no planeta. Dados mais recentes indicam que o número de perseguidos continua subindo.
A perseguição pode assumir diversas formas: restrições legais, discriminação social, prisão, expulsão de comunidades, destruição de igrejas, sequestros e, em casos extremos, assassinatos. O grupo religioso radical Boko Haram, que atua principalmente na Nigéria, é um dos principais responsáveis pela violência contra cristãos. Muçulmanos considerados apóstatas, ou não ortodoxos pelo grupo, também são alvos de perseguição.
A expressão latina “Extincto nomine Christianorum” (Extinto o nome dos cristãos) tornou-se um símbolo histórico da pretensão de eliminar o cristianismo da face da Terra. Tradicionalmente atribuída ao imperador romano Diocleciano, que promoveu uma das mais severas perseguições contra os cristãos no início do século IV, a frase revela não apenas um projeto político e religioso, mas também uma profunda incompreensão acerca da natureza da fé que buscava destruir.
A frase revela a ilusão recorrente dos poderes humanos de acreditar que ideias, convicções e valores podem ser eliminados pela força. Diocleciano possuía exércitos, leis e autoridade imperial. Os cristãos, por sua vez, eram frequentemente pessoas comuns, sem influência política e muitas vezes privadas de qualquer proteção jurídica. À primeira vista, o resultado parecia previsível: o império esmagaria um movimento religioso considerado inconveniente. Contudo, a história seguiu um caminho diferente.
A tentativa de extinguir o cristianismo revelou uma contradição basal. Quanto mais intensa se tornava a perseguição, maior era a visibilidade dos cristãos e de sua mensagem. Os relatos de mártires que enfrentavam prisões, torturas e a morte nos estádios sem renunciar à fé despertavam admiração, curiosidade e, em muitos casos, novas conversões. O poder imperial conseguia atingir corpos, mas não convicções. Assim, a frase que pretendia celebrar uma vitória tornou-se, ironicamente, um testemunho de fracasso.
Ao longo da história, governos, ideologias e movimentos tentaram eliminar grupos religiosos, culturais ou políticos considerados ameaçadores. Em muitos casos, o desejo de uniformidade produziu exatamente o contrário: fortaleceu identidades, gerou resistência e transformou perseguidos em símbolos de perseverança.
Ainda persiste a crença de que a força pode substituir o diálogo e que a repressão pode apagar convicções pessoais. “Extincto nomine Christianorum” nasceu como uma declaração de triunfo, mas a história a transformou em um monumento à fragilidade do poder diante das ideias. Seu significado traz a lembrança de que a intolerância frequentemente produz o oposto do que pretende alcançar.

Por Tarcísio Vanderlinde. O autor pesquisa sobre povos e culturas do Oriente Médio.
@tarcisio_vanderlinde2023
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