Manter a paz entre grupos que pensam religiosa e politicamente diferente será sempre um desafio, principalmente se tiver envolvidos muçulmanos e judeus. É sintomática a atual fase pela qual passa o Oriente Médio com seu mega paiol de pólvora, aviões, mísseis e drones letais. Há, contudo, uma história de relacionamentos inter-religiosos e intersociais sobre o assunto que pode surpreender.
No passado, existiu um lugar chamado Sefarad, que mais tarde seria associado ao de Hispânia. O termo aparece uma única vez na Bíblia e era utilizado pelos judeus para designar a península ibérica. A presença judaica na região de Sefarad data desde o primeiro século da nossa era.
Os Sefaradim, judeus de Sefarad, estiveram sob o domínio dos visigodos e quando estes se converteram ao cristianismo, passaram a sofrer restrições em suas atividades religiosas e sociais sendo obrigados a adotar a fé cristã. Até o final da hegemonia gótica na península, os judeus viveram como uma minoria discriminada por uma legislação opressiva.
Quando os muçulmanos conquistaram a Península Ibérica, em 711, os judeus tiveram a oportunidade de participar ativamente no estabelecimento do novo poder ascendendo a altos postos governamentais e administrativos. A convivência entre culturas muçulmana e hebraica permitiu e levou a uma simbiose cultural que se refletiu na criatividade judaica peninsular.
O período denominado “Idade de Ouro”, entre os séculos XI e XIII, se caracterizou por um extraordinário intercâmbio entre as três religiões monoteístas: o cristianismo, o islã e o judaísmo, promovendo um renascimento das artes, da literatura, das ciências e da filosofia jamais visto anteriormente. A atmosfera de tolerância em Sefarad levou a que se tornasse um dos centros importantes da Europa Medieval atraindo sábios de outros reinos a fim de atuarem em suas escolas e universidades.
Contudo, a harmonia entre as populações peninsulares sofreu por várias vezes abalos devido a movimentos fundamentalistas como o dos Almorávidas. A partir do século XIV grandes alterações ocorreriam no relacionamento entre judeus e cristãos, fato que afetaria visceralmente a estabilidade das comunidades sefaraditas. O desenlace do processo que assinalaria a sua decadência, dar-se-ia com a instalação da instituição inquisitorial, na segunda metade do século XV. A mudança tornaria a vida judaica praticamente impraticável em Sefarad.
A longa trajetória histórica da presença judaica na Espanha se encerraria dramaticamente com o Édito de Expulsão promulgado pelos reis Fernando e Isabel, em 31 de março de 1492. Dispersos, criaram novas comunidades na Europa, África do Norte e Oriente Médio, levando consigo a espiritualidade gerada durante séculos em Sefarad e preservada pelo Ladino, dialeto com sotaque espanhol ainda falado nos dias atuais.
O legado de Sefarad indica que a convivência com diferenças é possível e pode trazer benefícios surpreendentes aos envolvidos. Uma nova “Idade de Ouro” seria bem-vinda no ambiente palco de palavras impactantes pronunciadas há cerca de dois milênios por um judeu: “Bem-aventurados os pacificadores, porque eles serão chamados filhos de Deus”.

Por Tarcísio Vanderlinde. O autor pesquisa sobre povos e culturas do Oriente Médio.
@tarcisio_vanderlinde2023
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