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Tarcísio Vanderlinde

Deuses em excesso

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Tucídides, historiador grego que narrou a Guerra do Peloponeso, inclui em seus escritos dados sobre a peste que assolou Atenas no ano 428 a.C.. Artigo recente da revista Scielo destaca trechos atribuídos a Tucídides sobre a gravidade daquela epidemia:

“Jamais se vira em parte alguma açoite semelhante e vítimas tão numerosas; os médicos nada podiam fazer, pois de princípio desconheciam a natureza da enfermidade e, além disso, foram os primeiros a ter contato com os doentes e morreram em primeiro lugar. A ciência humana mostrou-se incapaz; em vão se elevavam orações nos templos e se dirigiam preces aos oráculos”.

Com datação diferenciada, o antropólogo Don Richardson reproduz versão romanceada da peste que impactou Atenas envolvendo a intervenção do sábio cretense Epimênides.

A história é contada a partir do momento em que os sábios de Atenas, não sabendo mais o que fazer, resolvem buscar a contragosto o estrangeiro Epimênides para resolver a questão.

Ao chegar a Atenas, Epimênides se impressionou com o politeísmo praticado na cidade. Para ele, eram deuses em excesso. Seu acompanhante, no entanto, assegurou a insuficiência daqueles deuses para solucionar tão grave crise. Era preciso, talvez, um deus mais poderoso.

Após preliminares que envolveram um experimento místico com ovelhas, Epimênides determinou que no local em que cada ovelha tivesse dobrado o joelho se edificasse um altar ao deus que ainda faltava. Sob a determinação do sábio, escreveram em cada altar as palavras “ao deus desconhecido”.

Após sacrificarem as ovelhas sobre os altares, perceberam que no dia seguinte a praga havia arrefecido, não havendo mais qualquer doente depois de uma semana. Naquele momento Atenas encheu-se de louvor ao deus desconhecido que fora providencialmente arquitetado por Epimênides.

O tempo passou, a peste foi esquecida, as crenças antigas voltaram com força e a maioria dos altares dedicados ao deus desconhecido acabaram sendo vandalizados.

Por intervenção de alguns anciãos que mantinham na memória o evento, resolveu-se tomar providências para que ao menos um daqueles altares pudesse ser preservado como testemunho do milagre para as gerações futuras.

Conforme Atos dos Apóstolos, teria sido este o altar encontrado por Paulo em suas pregações aos Atenienses alguns séculos depois.

De forma semelhante ao sábio cretense, ao alegar ter percebido a religiosidade dos atenienses pela quantidade de deuses encontrados na cidade, Paulo fala aos seus interlocutores ter também topado com um altar onde estava escrito “ao deus desconhecido”.

Aproveitando a experiência Epimênides, Paulo declara: “Esse que adorais sem conhecer é precisamente aquele que eu vos anuncio”.

 

O autor é professor sênior da Unioeste

tarcisiovanderlinde@gmail.com

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