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Tarcísio Vanderlinde

O elo que une tradições conflitantes

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O inconformismo do general inglês Charles Gordon em relação à localização do local onde Jesus teria sido crucificado, morto, sepultado e ressuscitado é discutido em tese doutoral defendida na Universidade de São Paulo (USP), em 2018, por Magno Paganelli de Souza, sob o título: “A história recente do turismo religioso brasileiro e seu papel no conflito Israel-Palestina”.

O autor problematiza fontes sobre peregrinações à Terra Santa desde o século IV, com atenção ao turismo de massa e sua apropriação política e religiosa nos dias atuais. A tese mostra que a incursão de Gordon em Jerusalém, em finais do século XIX, cria uma segunda tradição sobre os locais que marcaram os últimos momentos de Jesus.

Ao retornar para a Inglaterra de uma missão nas Ilhas Maurício, em 1882, Gordon rejeita o convite do Rei Leopoldo II para assumir o comando do Congo Belga. Prefere passar um período de descanso e estudos no Norte da África e Oriente Médio.

Passando pela Terra Santa, fez ampla exploração geográfica de sítios religiosos, o que o levou a suspeitar sobre a “verdadeira” localização do local onde Jesus teria sido crucificado, morto e sepultado.

Uma formação geológica adjacente ao monte Moriá, em Jerusalém, com uma clara imagem de um enorme crânio humano na face da rocha o convenceu, e também a outros, de que havia descoberto o local da crucificação.

Sabe-se que a descoberta de Gordon não resiste aos rigores de pesquisas arqueológicas mais recentes que consideram a Igreja do Santo Sepulcro, visitada por peregrinos desde os tempos de Helena, mãe do imperador Constantino, o local mais provável da morte e ressurreição de Jesus. Mas a tradição inaugurada por Gordon tem força.

Enquanto cristãos de linhas mais tradicionais visitam a Igreja do Santo Sepulcro na cidade velha de Jerusalém, cristãos de vertentes cristãs mais recentes se dirigem a um outro lugar bem próximo do primeiro (menos de um quilômetro), onde hoje funciona o protetorado britânico que controla o sítio no qual o general Gordon teria identificado o Gólgota, o horto, o reservatório de água, o lagar e a tumba escavada na rocha, tal como parecem estar descritos nos evangelhos.

Apesar das divergências geográficas e de tradições conflitantes, admite-se a existência de um elo que une cristãos de diferentes linhas. Parece não haver discordância quanto à ressurreição de Jesus, tenha ela acontecido no local da Igreja do Santo Sepulcro ou no Jardim descoberto por Gordon. Nos dois lugares aparece um túmulo vazio aos visitantes.

 

O autor é professor sênior da Unioeste

tarcisiovanderlinde@gmail.com

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