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Tarcísio Vanderlinde

O enigma do Monte Ebal

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Enquanto rovers vasculham o solo marciano à procura de vestígios que possam dar sustentabilidade a uma eventual permanência humana naquele planeta, arqueólogos continuam a se defrontar com achados na Terra capazes de questionar saberes sistematizados há séculos.

É o que pode ter acontecido com a descoberta de uma pequena tabuleta de chumbo contendo um texto em forma de “quiasma” no Monte Ebal, Cisjordânia, no ano de 2019. Quiasma pode ser definido como uma estrutura literária em que palavras da primeira frase são repetidas na segunda ou seguintes de forma explicativa ou inversa.

O objeto encontrado tem mexido com a imaginação dos que se interessam por esse tipo de assunto e também por aqueles que se dedicam a elucidar acontecimentos de um mundo que já ficou distante do nosso.

Embora o achado tenha ocorrido há três anos, só em março de 2022 é que o objeto passou a ter uma maior divulgação. Para alimentar o mistério, a tabuleta está sendo chamada de “amaldiçoada” numa alusão ao que nela está escrito e ao local onde foi encontrada.

De acordo com as narrativas bíblicas, no Monte Ebal construiu-se um altar e foram proferidas diversas maldições durante as campanhas de Josué na conquista da Terra Prometida.

A datação do objeto está sendo estimada entre 1.200 e 1.400 a.C.. Se os dados forem confirmados, o objeto pode ser o primeiro registo do nome de Deus em proto-hebraico, assim como também pode indicar que os israelitas eram alfabetizados quando entraram na Terra Prometida e foram capazes de documentar os eventos ocorridos nos tempos bíblicos.

A tabuleta está sendo considerada um artefato incomum, mas carece de estudos conclusivos. É o que considera Gershon Galil, professor da Universidade de Haifa. O profissional tem contribuído com esforços para decifrar o texto interno oculto da tabuleta com base em digitalizações de alta tecnologia realizadas em Praga, na Academia de Ciências da República Tcheca.

Para Scott Stripling, outro arqueólogo envolvido com o achado, a descoberta pode não apenas estremecer os limitados conhecimentos que a humanidade tem a respeito de Deus e das histórias bíblicas como também trazer diferentes pontos de vista sobre estas narrativas, porque até o momento, segundo ele, muitos estudiosos defendiam a teoria de que a Bíblia só teria sido escrita centenas de anos após a datação do texto descoberto na tabuleta.

É lícito pensar que, enquanto se idealizam projeções para habitar outros planetas, ainda pode haver importantes enigmas a serem decifrados em nosso próprio mundo.

 

O autor é professor sênior da Unioeste

tarcisiovanderlinde@gmail.com

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