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Tarcísio Vanderlinde

Pediram um faz de conta

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O martírio de Eleazar é uma das mais belas e comoventes passagens morais da Bíblia. Aparece no livro deuterocanônico de 2Macabeus. Considerado de valor histórico por parte da cristandade, o relato do martírio do notável escriba possivelmente teria ocorrido entre os anos 167 e 160 a.C.

O texto fala de uma mudança cultural imposta goela abaixo aos judeus, sob o governo tirânico de Antíoco Epifânio. A gota d’água que levaria o escriba ao martírio resultou de sua resistência em comer carne de porco, prática cultural/religiosa observada pelos judeus ainda nos dias atuais. Preferindo a morte gloriosa a uma vida em desonra, Eleazar encaminhou-se espontaneamente para o suplício.

Seus amigos, que por conveniência já haviam aderido à mudança, tentaram persuadir Eleazar a simular o consumo da carne ilícita escondido junto à carne lícita que lhe seria servida discretamente. Agindo assim escaparia da morte e gozaria da benevolência do rei e dos amigos, com os quais nutria amizade antiga e que naquele momento aparentemente tencionavam protegê-lo. A estes, entretanto, Eleazar teria respondido:

“Na verdade, não é condizente com a nossa idade o fingimento. Isto levaria muitos jovens, persuadidos de que Eleazar aos 90 anos teria passado para os costumes estrangeiros, a se desviarem eles também por minha causa, por motivo da minha simulação, isso em vista de um exíguo resto de vida. Quanto a mim, o que eu ganharia seria uma nódoa infamante para a minha velhice”. E concluiu:

“De resto, mesmo se no presente eu conseguisse escapar à penalidade que vem dos homens, não me seria possível fugir, quer em vida quer na morte, às mãos do Todo-poderoso. Por isso, trocando agora a vida com coragem, mostrar-me-ei digno da minha velhice, e aos jovens deixarei o exemplo de como se deve morrer, entusiasta e generosamente, pelas veneráveis e santas leis”.

Dito isso, foi encaminhado ao suplício pelos mesmos amigos que o tentaram persuadir, agora estranhamente enraivecidos, os quais momentos antes lhe pediram um “faz de conta” para o rei e o público.

Já sob o suplício, Eleazar teria ainda dito: “Ao Senhor que tem a santa ciência, é manifesto que eu podendo livrar-me da morte, estou suportando cruéis dores no meu corpo ao ser flagelado, mas que em minha alma sofro-as com alegria por causa do seu temor”.

E teria sido assim que Eleazar passou desta vida. E não só aos jovens, mas a grande maioria do seu povo, deixou a própria morte como um exemplo de generosidade e memorial de virtude.

“O escriba” – Óleo de George Cattermole (1800-1868). Acessável em: pt.wahooart.com

Por Tarcísio Vanderlinde. O autor pesquisa sobre povos e culturas do Oriente Médio.

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