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Tarcísio Vanderlinde

Ponto luminoso

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O evangelista Mateus narra que, após a morte de Herodes, a sagrada família voltou do Egito e foi morar em Nazaré, povoado situado nas colinas da baixa Galileia, cerca de cinco quilômetros ao Sul da cidade de Séforis.

Enquanto Séforis era uma rica cidade greco-romana durante o período da juventude de Jesus, Nazaré permaneceu obscura. Estendia-se por poucos hectares com uma população estimada em apenas 500 pessoas.

O historiador Flávio Josefo menciona em seus escritos mais de 40 cidades da Galileia sem citar Nazaré. Tampouco o Talmude faz referência a esta cidade entre os mais de 60 sítios urbanos que assinala na região.

A “insignificância” de Nazaré gerava comentários depreciativos, como os do religioso Natanael, anotado pelo evangelista João: “Nazaré? Pode vir alguma coisa boa de lá?”.

Não obstante, as narrativas bíblicas colocam Nazaré como um dos lugares geográficos mais relevantes associados ao ministério de Jesus. Tudo começou ali com o anjo Gabriel, que anunciou à Maria que ela ficaria grávida e daria à luz a um filho que seria chamado Jesus.

Em Mateus, Jesus é reconhecido pela multidão de Jerusalém como profeta: “Este é Jesus, o profeta de Nazaré da Galileia”.

Nazaré foi o lugar que Jesus cresceu, o ponto de partida para seu ministério público, e ironicamente o local de sua primeira rejeição.

Jesus é identificado nas narrativas evangelísticas como “Jesus de Nazaré”. Seus primeiros seguidores foram chamados de “seita dos nazarenos”. A referência a Nazaré também aparece no anúncio que Pilatos mandou colocar na cruz por ocasião da crucificação de Jesus: “Jesus Nazareno, o rei dos judeus”.

No local onde se acredita ter ocorrido a anunciação, construiu-se uma basílica considerada hoje a maior edificação cristã do Oriente Médio. Em seu interior manteve-se uma estrutura antiga em forma de edícula reconhecida como “a gruta da anunciação”.

Escavações arqueológicas levadas a efeito sob a basílica confirmam Nazaré como uma antiga aldeia agrícola. As escavações também revelaram diversos sepulcros judaicos, alguns dos quais ainda selados com pedras rolantes, semelhantes àquele no qual Jesus foi sepultado.

Descobriu-se ainda uma sinagoga do III século contendo imagens e símbolos judaico-cristãos no assoalho em forma de mosaico. Acredita-se que a construção tenha sido feita sobre a estrutura da sinagoga que Jesus frequentou em sua mocidade e onde posteriormente proclamou sua identidade messiânica. 

De uma vila considerada insignificante, Nazaré tornou-se ao longo dos séculos um ponto luminoso para onde convergem peregrinos procedentes dos mais diversos recantos do planeta motivados pela fé no profeta que morou ali.

Gruta da anunciação em Nazaré (Foto: acervo do autor)

Por Tarcísio Vanderlinde. Ele é professor sênior da Unioeste

tarcisiovanderlinde@gmail.com

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