O Presente
Tarcísio Vanderlinde

Resíduo tóxico da história

calendar_month 24 de julho de 2026
4 min de leitura

O episódio só não obteve maior visibilidade porque as atenções mundiais estavam voltadas aos jogos da Copa do Mundo. Aproveitando os festejos dos 250 anos de independência dos Estados Unidos, 400 membros de uma milícia supremacista branca autodenominada “Frente Patriótica” (Patriot Front), reuniram-se na capital norte-americana para marchar pelas ruas gritando “Reconquistem a América”.

Bandeiras confederadas presentes no desfile indicavam um sentimento nostálgico dos tempos de escravidão nos Estados Unidos, anterior a guerra civil naquele país (1861-1865). Num estranho paradoxo, os membros da Frente Patriótica veem a imigração e a diversidade étnica como ameaças à sua visão de como deveria ser o país. A política de deportação de estrangeiros “indesejáveis” desencadeada pelo atual governo fortalece movimentos como o da Frente Patriótica. A segregação racial continua sendo uma ferida aberta nos Estados Unidos. Está longe, porém, de ser exclusividade daquele país, basta olhar para o nosso. Ainda há muita carteirada por aqui.  

De acordo com informações disponíveis no portal do Instituto Humanitas/Unisinos, a Frente Patriótica é formada por grupo supremacista branco com sede no Texas. Em seu ideário, afirmam lealdade à nação americana e defendem a criação de um novo estado que defenda o interesse de seus fundadores. Os participantes da marcha utilizavam chapéus com 13 estrelas brancas, representando as 13 colônias históricas que em 4 de julho de 1776, aprovaram a Declaração de Independência, rompendo os laços com a Coroa Britânica. O símbolo identitário do grumo é um ícone de origem romana, o “fascio de combate”, reapropriado pelo regime fascista italiano na primeira metade do século XX.

Fantasmas da história continuam nos assombrando neste planeta em conflito que vai assustadoramente perdendo sua hospitalidade. De acordo com a fonte consultada, a manifestação racista explícita dos “patriotas” foi considerada por Doug Burgum, secretário do interior como um movimento protegido pela liberdade de expressão no âmbito da democracia americana. É assim que que as coisas parecem caminhar.

Um chatbot nos lembra que o supremacismo pode ser considerado uma das mais perigosas manifestações da arrogância humana. Fundamentado na crença de que determinado grupo étnico, cultural ou religioso é naturalmente superior aos demais, ele produz discriminação, violência e exclusão. Determinadas expressões supremacistas recebem tratamento complacente ou são relativizadas em razão de interesses políticos, ideológicos ou culturais. Surge, assim, aquilo que pode ser denominado de “racismo tolerado”, resíduo tóxico não degradável da história.

Uma sociedade justa não combate apenas o racismo que lhe desagrada, mas toda manifestação de superioridade baseada na etnia ou origem. A coerência moral continua sendo o antídoto mais eficaz contra qualquer forma de supremacismo. Enquanto houver um racismo considerado aceitável, todos os demais encontrarão espaço para sobreviver. A verdadeira justiça somente floresce quando a igualdade deixa de ser um discurso conveniente e se torna um compromisso inegociável.Parte superior do formulário

Para deixar mais claro o assunto, segue uma historinha:

Embora a ordem de Jesus tenham sido de que o evangelho alcançasse o mundo inteiro, seus discípulos, todos judeus, tinham dúvidas iniciais se deveriam evangelizar os “impuros”, ou seja: os que não fossem de sua etnia. Foi somente a partir de uma visão sobrenatural, que Pedro mudou a atitude quanto a pregação. Ao se encontrar com Cornélio, considerado um gentio, embora justo, admitiu: “Agora percebo verdadeiramente que Deus não trata as pessoas com parcialidade, mas de todas as nações aceita todo aquele que o teme e faz o que é justo” (Atos dos Apóstolos 10:34-35).

Símbolo identitário do Patriot Front. Observe o “fascio de combate” estilizado no centro do ícone. Figura acessável em isdglobal.org

Por Tarcísio Vanderlinde. O autor pesquisa sobre povos e culturas do Oriente Médio.

[email protected]

@tarcisio_vanderlinde2023

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