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Fátima Baroni Tonezer

Agir apesar do outro: saindo da comparação social e da procrastinação

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“Quem não sabe o que busca, não identifica o que acha”. Comecei esse texto com a frase de Immanuel Kant (1724 – 1804), um filósofo alemão, como forma de dar início a uma reflexão que contempla os temas dos dois últimos artigos (Procrastinação não é preguiça e Se você não for notável, será esquecível). Isto porque o momento atual é repleto de comparações, receitas “baratas” de sucesso “snapshot”, ou instantâneo, sem o emprego de estratégias e esforço, e, principalmente, de resultados imediatos, prazer e felicidade “Ad aeternum”, para todo o sempre sem nenhum esforço pessoal.

Aqui podemos incluir conceitos muito divulgados, como gratidão, positividade… que nos remete à “pouca ação igual a muito resultado”. Viver dessa forma “contemplativa”, buscando respostas nos astros, alivia um sentimento difícil de ser digerido. Do que estou falando? Do medo de fracassar. E esse medo é travestido com muitas desculpas. Quebrar a bolha da passividade inclusa nessas desculpas é doloroso, mas necessário. O discurso de que não é possível ou não consigo por causa da convivência com pessoas tóxicas, chefes cruéis etc.

E não estou dourando a pílula e dizendo que isso é mentira ou mimimi. Sim, o mundo está cheio de pessoas tóxicas, que não só perpetuam atos cruéis, mas que vendem fórmulas mágicas disfarçadas de “positividade”, que colocam a pessoa que recebe (ou compra) numa situação de passividade e escassez. Do chefe tirano aos traumas infantis, da violência doméstica a guerras, das políticas públicas ao descaso com a vida humana, problemas e dificuldades que não podem ser desmerecidas e subvalorizadas, que precisamos enfrentar e denunciar. Existem coisas que precisam ser mudadas no mundo externo. E coisas que precisam ser reformadas dentro de cada um. Daí a aplicação da frase inicial…

QUEM NÃO SABE  O QUE ESTÁ BUSCANDO, NÃO IDENTIFICA QUANDO ENCONTRA!

É preciso tirar o olhar do externo e trazer para o interno. Conseguir enxergar que o outro vai continuar sendo tóxico, magoando, é difícil, demorado e essencial. Deixar de seguir e acompanhar e curtir, baixar a régua da comparação para sua vida, entender que postar fotos “maquiadas” de fantasias não vai levar ao desfecho buscado. Vai, sim, manter a repetição e o sofrimento. Logo, é preciso parar a sabotagem e agir na direção do seu desejo e da suas necessidades internas.

Para parar a comparação e a procrastinação, o primeiro passo é olhar o que faz sentido para o “eu” de agora. Isto porque muitos sonhos da infância não se encaixam mais no seu mundo atual, com demandas e necessidades do presente. Reconhecer minhas emoções, o medo, a insegurança, os traumas. E temos muito medo de não sermos bons o suficiente, de errar, de fracassar.  O erro é visto como fracasso. E então vem a desistência, que dá a sensação de “alívio”, pois se não faço, não erro. E se não erro, não fracasso. Equação enganosa.

Ao desistir, fracassamos. O desistir vem acompanhado de culpa, frustração, baixa autoestima. Como lidar com a desistência? Aprendendo a lidar com nossa mente, mais especificamente com nossos pensamentos. É deixar de acreditar no pensamento como verdade absoluta. É aprender a questionar nossos pensamentos. Nem todo pensamento advém de um fato. Aliás, com a prática aprendemos a descontruir os pensamentos e agir mais de acordo com nossos valores e metas. Dá trabalho, exige muito treino e esforço, mas é possível!

PARA REALIZAR É PRECISO PARAR DE SONHAR!

E sonho entendido aqui como fantasia, como busca de prazeres imediatos. Aprender a identificar as armadilhas mentais, que sabotam nossa vontade de agir e crescer. De que armadilhas mentais estou falando? Das nossas crenças mais nucleares, aquelas verdades absolutas que foram construídas ao longo da nossa vida, desde a infância. E essas crenças nos colocam numa improdutividade, seja da vida profissional, seja da vida pessoal. Esses sabotadores criados por essas armadilhas mentais são vários, mas vou me ater a dois, que são o planejamento e a busca de conhecimento.

A busca de conhecimento (já falei disso aqui) é um gatilho mental usado para nos venderem coisas milagrosas com a isca da escassez, que bate direto na nossa crença de incapacidade, de insuficiência. E lá se vão muito tempo e dinheiro, comprando cursos, estudando, fazendo procedimentos estéticos e dietas para um dia, finalmente, ser amada, aceita e ser “bom o suficiente”.

O outro ponto é o planejamento. Tenho uma ideia, um lugar onde quero chegar, um resultado, imagino tudo e vou pra ação. E esqueço que todo projeto tem um processo, uma jornada, que por mais que eu planejo e faça planilhas, algumas coisas vão acontecer fora do planejamento, simplesmente porque não tenho controle de tudo, as tais demandas do mundo, pessoas, políticas, clima e inúmeras situações que podem ocorrer no caminho e atrapalhar o progresso do projeto.

E esses “acontecimentos” externos reforçam a procrastinação e a ideia de que não dou conta, só na minha vez essas coisas acontecem. E isso abre espaço para o medo de fracassar, que desemboca na falta de motivação. Porque parece que é fácil, mas todo resultado esconde muito cansaço, frustração, escolhas. Para chegar lá, de passar no concurso a ter sucesso nas redes sociais, a que se renunciar a muitas coisas, festas, fim de semana, descanso, viagens, trabalhar doente, ser “multitarefas” no início. E aceitar que vamos errar. Muitas vezes. E está tudo bem não estar tudo bem. Está tudo bem não acertar sempre.

Fracassar é diferente de desistir. Desistir dá a falsa sensação de que eu escolhi parar, que tive controle. Só que quem fracassa, fez. Não deu certo, mas pelo menos tem a oportunidade de procurar outro caminho, porque já percebeu que esse aí não funcionou. Desistir, além de não ensinar nada, reforça a insegurança e o medo. Há mais coisas para conversar aqui. Nos vemos na próxima semana?

Até a próxima.

Fátima Sueli Baroni Tonezer é psicóloga, formada em Psicologia na Universidade Estadual de Maringá (UEM). Sua maior paixão é estudar a psique humana. Atende na DDL – Clínica e Treinamentos – (45) 9 9917-1755

@psicofatimabaroni

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