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Padre Marcelo Ribeiro da Silva

Alguns valores para costurar o tecido social

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Infelizmente, a luta eleitoral costuma manipular os valores, tanto para justificar a polarização e a destruição do outro, mas também para fazer marketing, cobrindo a míngua dos planos de governo com a defesa de alguns princípios.

Outra coisa, um religioso, seja padre ou pastor, não é uma autoridade política, embora cresça o assanhamento de religiosos para a luta política. N

Não me atrevo a achar que o fato de ser religioso me dá autoridade para meter o bedelho na política. Ela é uma ação muito complexa e demanda perícia na construção de consensos, mas, por outro lado, a política também não é uma autoridade sobre os valores, devendo, portanto, contar e não só se usar daqueles que fomentam e testemunham os valores sociais.

Refleti no meu texto anterior, de uma forma geral, sobre a importância dos valores na costura do tecido social. Destaquei que os programas políticos funcionam como a agulha no ato de coser a costura e os valores são as linhas com as quais se amarram os retalhos da sociedade. Bem, a reflexão que compartilhei com vocês precisa agora ganhar identidade e concretude, pois apontar a insuficiência de uma realidade não implica de forma inevitável que ela venha a ser transformada.

O primeiro dos valores a ser destacado é a própria ação política. Lanço a todos uma pergunta que o papa Francisco nos dirigiu na Fratelli Tutti:

“Poderá o mundo funcionar sem a política?”.

Em decorrência do que ele disse, pergunto: a quem serve o enfraquecimento e a demonização da política?

Enfraquecer a representação social serve para submeter a sociedade aos ditames de poderes que não são os populares: o domínio internacional da especulação financeira e a cooptação do povo por ideologias.

Levemos a sério a política. Não obstante a possibilidade de dificuldades e retrocessos, ela é o meio pelo qual um povo gera processos sociais de fraternidade e justiça para todos.

O segundo valor é a integração social. Ele nos fala do desafio de incluir os vulneráveis e descartados nas preocupações sociais; são eles os que primeiro a precisar do Estado, para eles se justifica a relevância de um Estado ativo. Uma sociedade não se costura profundamente se lhe falta como valor universal a preocupação com os fracos e marginalizados; essa é uma sabedoria que atravessa os tempos, que esteve na boca dos profetas e dos santos, sobretudo, encontrou-se no programa evangelizador de Jesus: evangelizar os pobres, libertar os presos, curar os doentes, devolver a dignidade aos oprimidos (Lc 4, 18).

Uma outra coisa, o preconceito de culpar os pobres pela sua pobreza não faz justiça às causas da miséria. Esse preconceito é uma ferida social que precisa ser curada.

O terceiro valor é a solidariedade. Ela é o valor que nos ensina a agir e viver em comunidade. A solidariedade converte os indivíduos em agentes sociais pelo serviço generoso e lhes ensina a corresponsabilidade com o bem social. Os solidários mostram que é possível sermos agentes de transformação na comunidade local. Eles nos indicam que é possível buscarmos algo que seja sólido e diga respeito a todos. Desse modo, costuram a realidade mais capilar e delicada do tecido social: a confiança que fortalece o vínculo local e a cooperação como espírito da vida comunitária.

O quarto valor é o trabalho. A obsessão em reduzir os custos trabalhistas está provocando o efeito do desinteresse e da insatisfação com o trabalho. Cada vez mais técnico e impessoal, o sentido atual do emprego pode levar o trabalhador a não se perceber ativo e fecundo no processo de desenvolvimento social. É muito importante continuarmos a dar passos na direção de uma nova cultura do trabalho. Ele não é apenas o ganha pão de cada família, mas atividade pela qual nos expressamos, empregamos nossa criatividade, dignificamos nossa vida e contribuímos com nossos esforços para o desenvolvimento local e, finalmente, nacional.  

O quinto valor é a família. Nossa motivação social mais fundamental passa pelo bem e proteção da família. Ela é a célula principal da configuração social. Sua influência perpassa tudo o que a sociedade é capaz de produzir e sonhar, de modo que quando a família não vai bem, nada vai bem também. Corremos o risco de esgarçar o tempo da família. Quando diminuímos o tempo de convivência familiar diminuímos as oportunidades de vinculação humana-afetiva. Essa é a típica intervenção de alto risco e com grande capacidade para fazer sucumbir todo o projeto que sustenta nosso tecido social, afinal, sem família, sem saudável vinculação humana, sem bons relacionamentos sociais, o que sobra?

Um aglomerado de indivíduos, mas não um povo.

Por Marcelo Ribeiro da Silva. Ele é padre da Diocese de Toledo
Reitor do Seminário São Cura D’Ars
Doutorando em Filosofia – Unioeste

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