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Padre Marcelo Ribeiro da Silva

O risco do ativismo político das igrejas nas eleições

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O ativismo político de igrejas nas campanhas eleitorais deste ano colocou a religião no radar da Justiça, e o caldo dos discursos não parece nada bom.

O abuso de poder religioso no processo eleitoral já havia sido considerado tangencialmente em julgamento do Tribunal Superior Eleitoral (TSE), em julho deste ano. Na oportunidade, na tese do relator, ministro Edson Fachin, queria-se viabilizar uma forma de cassação de mandato por abuso de poder religioso – e ela foi vencida por 6 votos a 1. Contanto, não faltaram argumentos indicando que a autonomia das comunidades religiosas não é ilimitada, recordaram a proibição da propaganda eleitoral nos templos e mais uma vez demarcaram a linha que separa a atividade religiosa da atividade política.

Bem, de julho para cá muitas coisas aconteceram, situações que terão sua devida repercussão em momentos e espaços menos conflitivos que os destes dias eleitorais. Confesso encontrar-me preocupado com as implicações desse engajamento das igrejas no pleito eleitoral.

Não entendo de política como deveria, mas de discurso religioso acho que entendo um pouquinho mais. Penso que já comi algum pó na estrada da análise do fenômeno religioso. Por exemplo, sei como uma religião usa-se da linguagem apocalíptica para subir o tom do discurso, sei da força de persuasão das pregações quando falam da batalha derradeira e do juízo final, também dos interesses não tão religiosos na dita luta do bem contra o mal.

Sinceramente, penso que instrumentalização das igrejas para favorecer a causa política apenas acelera o processo de secularização da religião; esse filme não é novo.

Ao capítulo da luta por uma finalidade mais política da religião, segue-se o desgaste da religião pela política. Não custa lembrar o que nos ensinou o papa Bento XVI no livro Jesus de Nazaré sobre o “Reino de Deus”. Ele não se identifica com quaisquer propostas institucionais ou programas políticos; ele transcende a política, transcende os regimes e transcende, inclusive, a história.

Dito isso, passemos a considerar o papel dos religiosos nos pleitos eleitorais. Houve um clamor de muitos católicos para que os padres tomassem posição político-partidária nesse segundo turno. Acho que o exemplo do político Kelmon, que se diz padre, tenha assanhado o desejo por pastores mais aguerridos, que entrem na batalha de acusações entre candidatos. Acontece que a reserva dos religiosos não é um simples ato de prudência em vista de manter a concórdia nas comunidades, mas, sobretudo, uma atitude de defesa da verdade.

Na batalha das “narrativas”, em que o uso da mentira se tornou um instrumento primordial para a argumentação política, em que a regra do pleito eleitoral é o não ter regras, que palavra os religiosos podem dizer que não venha a avalizar essa política do fake?

Jesus foi conduzido a Pilatos por força de um julgamento mentiroso. Ele guardou o silêncio diante do governador romano, em particular, depois que eles conversaram sobre a questão da verdade. Jesus tinha dito: “Quem é da verdade escuta a minha voz” e Pilatos o questionou: “O que é a verdade?”. Essa questão termina sem resposta, pois a pergunta do político romano não parece realmente sincera.

Sabemos que a Verdade anunciada pela Igreja não se impõe com truculência ou coação e que os valores decorrentes da Verdade convencem por força de serem verdadeiros, e, segundo a evidência da verdade, eles devem passar pelo juízo livre da consciência de cada pessoa e serem admitidos pessoalmente numa experiência de conversão, quer dizer, de reorientação da vida à Verdade.  

Nesse sentido, esperemos dos religiosos apenas aquilo que lhes compete dizer: que exortem as pessoas a examinarem suas consciências à luz dos valores que acreditam, ponderem os discursos dos candidatos com as suas práticas e façam suas próprias escolhas.

Não tiremos das pessoas a possibilidade de escolherem segundo o que lhes acusam suas consciências.

Não avalizemos a cultura do ataque; ela começou na política e está se estendendo para os ambientes sociais.

Não deixemos com que a guerra das narrativas nos coloque uns contra os outros. A Igreja é para todos e nela somos chamados a sermos irmãos, não adversários.

No amanhã do Brasil os religiosos não estarão imunes de responder às ações político-partidárias que empreenderam.

O tempo mostrará quais foram por valores e quais foram por interesses. 

Por Marcelo Ribeiro da Silva. Ele é padre da Diocese de Toledo
Reitor do Seminário São Cura D’Ars
Doutorando em Filosofia – Unioeste

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