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Cascavel, terra da galinha

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Citando dados do IBGE por município, portal da Globo classifica a Capital do Oeste, que tem 60 frangos para cada habitante, como “cidade mais animalesca do Brasil”

Você percebe que temos muitos veículos no trânsito de Cascavel? Temos mesmo. São 272,5 mil, muitos deles barulhentos e fumacentos. 75% dos carros, segundo contagem de tráfego contratada para revitalização da Avenida Carlos Gomes, carregam uma única pessoa, o condutor.

Mas, e frangos? São 77 galináceos para cada veículo. Ou 60 bicudos para cada cascavelense. São 21 milhões de frangos aqui. Não foi possível aferir se o ex-deputado Frangão foi contabilizado neste número, ou se foi recenseado em Brasília.

As comparações entre frota, habitantes e frangos foram produzidas pelo G1 nacional, o portal da Rede Globo, com base nos mais recentes recortes divulgados pelo IBGE relativos ao Censo 2022.

A Globo foi além: disse para o Brasil inteiro que “Cascavel é a cidade mais animalesca do país”. Para tanto, cruzou milhares de dados, investigou município por município, e chegou ao seguinte número: os cascavelenses convivem em seu vasto território com 21,3 milhões de bichos.

Animais que miam e latem não estão nesta conta. Nem mesmo as sogras ofídicas. Foram levados em consideração, além da “frangaiada”, somente suínos (126 mil); gado (60,8 mil); codornas (17 mil) ovelhas (7,1 mil) e cabras (331). Capivaras foram ignoradas. E esqueceram de acrescentar as tilápias, que são muitas.

E por que “terra da galinha” no título? Porque foi assim que os urbanos jornalistas – guris de apartamento do G1 – definiram esses bichos de penas e bicos. Por esta leitura, não temos aviários, e sim galinheiros.

Não é difícil entrevistar a fonte primária de informação do IBGE, os cascavelenses que moram na roça, afinal menos de 5% da população vivem na zona rural. Porém, é factivel dizer que o recenseador não foi de puleiro em puleiro contar as penosas. Daí que pode haver uma margem de erro, o que não diminui a relevância da avicultura no município.

PENAS DE OURO

O município é grande territorialmente, o maior das regiões Oeste e Sudoeste, e está entre os sete maiores do Paraná. Por essa razão comporta grandes planteis.

Evidência neste sentido vem do avicultor Clovis Bombarda, ex-prefeito de Corbélia. O sítio de 7,8 hectares dele está a 25 quilômetros do centro de Cascavel, nas vizinhanças do Reassentamento São Francisco.

Ali, em três aviários, um deles com 150 metros de extensão, Bombarda cria 66 mil frangos. Campeão de manejo, premiado pela Copacol, ele obtém até R$ 1,50 de lucro por cabeça – embora esta rentabilidade seja variável como uma pena branca exposta ao vento de trevés no aeroporto de Cascavel. Com esse desempenho, o ex-prefeito pode obter um resultado de R$ 99 mil a cada 50 dias – ciclo do pinto ao frango entregue com cerca de 3 quilos para o abate. Ou seja, não se trata de voo de galinha, pois a parceria dele com a cooperativa permite viabilizar a pequena propriedade.

Se os contadores de galinha do Censo e do G1 estiverem certos, mesmo aplicando uma rentabilidade média menor (suponhamos, cerca de R$ 1,30 de lucro por cabeça), os 21 milhões de franguinhos cascavelenses injetam R$ 27,3 milhões na economia local a cada 50 dias. Vale dizer que após receber camadas de valor agregado nos frigoríficos esse valor se multiplica na moeda forte da exportação e alimenta uma vasta cadeia econômica, onde até a titica da galinha vira dinheiro.

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Pé do frango, iguaria gourmet para os chineses

O franguinho produzido e agroindustrializado em Cascavel pela Lar e Coopavel viaja em containers refrigerados pela Ferroeste até Paranaguá. De lá saculeja 45 dias por mares revoltos até as arábias dos petrodólares e principalmente para o maior cliente dos avicultores cascavelenses, a China.

Segundo dados do Departamento de Agricultura dos Estados Unidos, anualmente, a China importa do Brasil em torno de 700 mil toneladas de pés de frango, uma iguaria considerada “gourmet” por lá.

Não é querer pegar no pé, digo na pata da capivara, mas do ponto de vista quantitativo, não faz sentido fazer deste roedor gigante o mascote de Cascavel.

Ou é a cobra ou é a galinha! Se depender do apelido do presidente da Sociedade Rural do Oeste, o Peninha, esta fatura está liquidada.

Em tempo – Vale dizer que nem toda galinha cascavelense vai para o container. Milhares delas cumprem o papel de poedeiras. Na fazenda modelo do agronegociante Renato Festugatto Neto, galinhas levam vida boa. Elas são criadas no sistema livre de gaiolas, ambiente em que o bem estar animal agrega valor ao ovo. Sim, existem galinhas felizes na cidade mais animalesca do Brasil.

Cascavel sedia também maior empresa de “bebês” de galinhas

A Pluma Agroavicola, dos irmãos Paludo, é a maior produtora de ovos férteis e pintos de corte da América Latina. A Pluma está sediada em Cascavel, em elegante edifício adquirido a duras penas (será?) na rua Minas Gerais.

O grupo gera 11 mil postos de trabalho distribuídos em 14 CNPJs. A Pluma aloja mais de 6 milhões de matrizes e produz 90 milhões de ovos férteis por mês. A empresa aninhou também sócios poderosos em plantas frigoríficas, como a bilionária C.Vale.

Portanto, além de maior plantel de frangos do País, Cascavel também sedia a Pluma, do “Rei do Pinto”, Lauri Paludo, maior produtor de “bebês” de galinha.

E vale lembrar: outro ícone cascavelense da avicultura, Roberto Kaefer, preside o influente Sindicato das Industrias de Produtos Avícolas do Paraná, o Sindiavipar.

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De olho no Planalto

Governador é saudado como presidenciável em visita à região e anuncia investimentos na mobilidade elétrica

Em entrevista ao Pitoco, o governador Ratinho Junior afirmou, pela vez primeira, que irá renovar, em dezembro próximo, a isenção de IPVA para veículos elétricos.

E que estuda incluir algum nível de benefício fiscal também para os carros híbridos. “O Paraná é o estado mais sustentável da federação, e esse selo verde que conquistamos contribuiu para atrair R$ 220 bilhões em investimentos privados”, ressaltou.

O governador deve anunciar nos próximos dias outro investimento bilionário na esteira dos incentivos a eletrificação: uma fábrica de motores elétricos em Campo Largo, onde já funcionou uma unidade da Fiat.

Embora Ratinho Júnior não tenha entrado em detalhes, as tratativas iniciadas em janeiro último foram com a BYD, a maior fabricante de veículos elétricos do planeta. É possível que a Renault esteja inclusa na parceria.

O governador esteve em Palotina para inauguração da esmagadora de soja da cooperativa C.Vale e em Cascavel para entregar as obras de duplicação do Contorno Oeste com extensão da Avenida Brasil.

PRESIDENCIÁVEL

Nas duas ocasiões, não faltaram oradores conclamando o governador a disputar a presidência da República em 2026. Entre eles, o prefeito Paranhos e o deputado Marcel Micheletto. O entorno do governador enxerga uma oportunidade no eleitorado de centro-direita, já que o principal nome deste segmento, Jair Bolsonaro, estará inelegível.

Por esta leitura, não há um sucessor natural. O governador de São Paulo, Tarcísio de Freitas, deverá disputar a reeleição. E o mineiro Romeu Zema é uma liderança regional.

Ratinho Junior, por sua vez, teria grandes obras de infraestutura para apresentar, governo bem avaliado e capilaridade nacional a partir do pai apresentador popular.

Ratinho Jr. (dir.) com Alfredo Lang, da C.Vale: bandeira verde, investimentos bilionários e articulações presidenciais na agenda

Por Jairo Eduardo. Ele é jornalista, editor do Pitoco e assina essa coluna semanalmente no Jornal O Presente

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