Fale com a gente

Pitoco

Se não entregar, entrega…

Publicado

em

Vitória de Milei manda recado para Lula, da mesma forma que derrota de Trump em 2020 enviou mensagem para Bolsonaro

Desfiles, carreatas, fogos, bandeiras azuis e brancas no entorno efervescente da Casa Rosada, em Buenos Aires. Javier Milei é o presidente eleito da Argentina. Que mensagens o pleito polarizado de los hermanos envia para os inquilinos do Palácio do Planalto?

A primeira delas vem na coincidência de números com a eleição de 2018 no Brasil, quando Bolsonaro sagrou-se vencedor com 55% dos votos, contra 44% de Haddad. Qual foi o resultado na Argentina? Milei 55%, Sergio Massa 44%. As coincidências dentro das casas decimais não são as únicas semelhanças.

Milei esbaldou-se na bagunça econômica após mais um governo desastroso do peronismo. Não resolveu para Massa esconder e renegar seus amigos, notadamente o presidente Alberto Fernandez e a vice Cristina Kirchner. Massa era o ministro da Fazenda que não deu conta do recado, embora, reconheçamos, tinha em mãos uma espécie de missão impossível. Massa foi Rubinho, chegou atrasado, era notícia vencida.

E Lula com isso? Simples: a sequência de governos ruins na economia, associada a escândalos de corrupção gerou impeachment, cadeia e derrota eleitoral em 2018 – como vimos, pelo mesmo placar da Argentina. A derrota do peronista Massa surge em circunstâncias semelhantes, trocando apenas o samba pelo tango.

Nos EUA, em 2020, o governo agressivo, negacionista, conturbado e ideológico de Donald Trump brigou muito e entregou pouco. Perdeu a eleição para o vovozinho Biden. É incomum presidente perder reeleição por lá. Ali tinha um recado para Jair Bolsonaro, que logo na sequência seria o primeiro presidente brasileiro no exercício do mandato a perder uma disputa reeleitoral. O bolsonarismo não soube traduzir os motivos da derrota de Trump.

Lula saberá entender por que os peronistas foram escorraçados da Casa Rosada? Biden parece confuso e disposto a devolver o bastão para o ex. Milei, Lula e Biden rapidamente perceberão – ou não – que a responsabilidade de governar está com eles. Joguetes retóricos ideológicos não pavimentam um único metro de asfalto, não reduzem juros e não baixam inflação. Xingamentos da linha “comunista”, “fascista”, esquerda, direita só servem para adocicar o bico dos doutrinados e idólatras de políticos. A tal “maioria silenciosa” cobra resultados na economia. Quem não entrega resultado na economia, na qualidade de vida, entrega a faixa para o adversário. Quem não entrega, entrega! E viva a alternância no poder, que somente a democracia entrega.

XXXXXXXXXXXXXXXXXXXXXXXXXXXXXXXXXXXXXXXXXXXXXXXXXXXXXXXXXXXXXX

Itapema exorciza sombras

Vizinha da glamourosa “Dubai Brasileira” olha para cima para preservar o sol, mas descuida com as calçadas

Espigão em construção recuado da orla em Itapema para não repetir erros de Camboriu: xô, sombreamento!

Itapema é vizinha de Balneário Camboriu (BC), auto-intitulada “Dubai Brasileira”. As duas estrelas do litoral catarinense estão separadas por apenas 14 km. Mas há diferenças fundamentais entre as vizinhas tropicais. BC permitiu espetar espigões na orla. Foram tantos e tão elevados que projetaram imensas áreas escuras sobre a praia.

Não havia como tirar os prédios dali, então o jeito foi “tirar” o Oceano Atlântico, que foi recuado na recente “engorda” da faixa de areia ao custo de quase R$ 100 milhões. Itapema luta bravamente para não cometer o mesmo erro, apesar da pressão natural do mercado imobiliário local.

Ao caminhar à beira do mar do Canto da Praia em direção a Meia Praia, e olhar a direita, é possível verificar os grandalhões em construção devidamente recuados, a pelo menos 100 metros da orla. Itapema também preserva outros cuidados, como impedir o acesso e estacionamento de caminhões na alta temporada.

O desenho urbano da cidade é irremediavelmente estrangulado. A marginal da BR 101 é uma das poucas ligações de um extremo ao outro. As ruas são estreitas e nos dias em que o Pitoco esteve lá, na terceira semana de novembro, inúmeros prédios em construção concretavam suas lajes embaixo de chuva.

É que, muito em breve, entra em vigor o período de restrição de tráfego para dezenas de caminhões-betoneira que operavam ali simultaneamente embaixo das torneiras abertas de São Pedro. Empresários que mantém negócios na construção civil no litoral de Santa Catarina e em Cascavel apontam estranhamentos, neste aspecto. “Em Itapema o pessoal trabalha embaixo de chuva mesmo. Estamos correndo contra o tempo. Em Cascavel a cultura é diferente, choveu a obra pára”, disse ao Pitoco uma executiva do segmento.

CALÇADAS, LÁ E CÁ

Cascavel ainda não resolveu seu problemas com as calçadas. Que o diga a mamãe empurrando o carrinho de bebê, o cadeirante, o idoso, a mulher de salto alto. Mas já foi pior. A padronização por paver drenante deu ótima contribuição ambiental e de mobilidade.

Itapema está mais descuidada com suas calçadas, notadamente nas ruas secundárias. O sistema de drenagem também é precário. Havia ruas alagadas a 50 metros da orla logo após um chuvisco.

Em alguns pontos o passeio tem pouco mais de meio metro de largura e surge incrivelmente inclinado, testando o equilíbrio e fazendo escorregar lateralmente o pé no chinelo do vivente. São as cicatrizes do desplanejamento.

Por outro lado, o fenômeno dos espigões empilhando apartamentos de luxo muda este cenário. Onde está os prédios o passeio é bem cuidado. Quem conheceu Itapema duas décadas atrás não irá mais reconhecê-la. As pousadas precárias e apertadas para um veraneio barato foram ao chão, poucas restaram em pé. A ordem é verticalizar, e o céu é o limite.

Somente a maior construtora local, a Dallo, está tocando 16 obras simultaneamente. E correndo contra o tempo, já que logo as “betoneiras móveis” serão impedidas.

APAGÃO DE MÃO DE OBRA

No período de restrição aos caminhões a obras param. É quando a peãozada da construção civil tira o capacete e a botina, veste uma regata e chinelos para ir a praia na condição de vendedores ambulantes ou garçons. Lá todo mundo tem duplo ou triplo ofício, conforme o calendário do ano.

O apagão de mão de obra de Itapema é tal qual de Cascavel, ou ainda mais grave. É comum encontrar garçons ou operadores de caixa falando portunhol. Se há argentino turista em BC, praia de los hermanos, há muitos venezuelanos em Itapema exercendo ofícios modestos.

Na loja de Itapema da maior rede supermercadista de Santa Catarina, o Super Kock, o Pitoco ouviu um anúncio curioso no sistema de som que mescla músicas com informes. A rede implora por mão de obra e a mensagem vinha bem apelativa.

Quem topasse trabalhar em dezembro no supermercado para uma das inúmeras vagas, que ia de operador de caixa a empacotador, passando pelo auxiliar de açougue, ganhará no primeiro dia de trabalho uma cesta básica.

Tanto lá, estado mais bolsonarista do Brasil, como aqui, empresários alegam que benefícios sociais como o Bolsa Família afetam a disposição dos mais humildes para o trabalho formal.

Por Jairo Eduardo. Ele é jornalista, editor do Pitoco e assina essa coluna semanalmente no Jornal O Presente

pitoco@pitoco.com.br

Copyright © 2017 O Presente